sexta-feira, 27 de maio de 2011

Princípios básicos do comunismo by Engels, 1


Em novembro de 1847, alguns meses antes da divulgação do “Manifesto”, Engels produz um texto “didático” com perguntas e respostas para explicar os “Princípios Básicos do Comunismo”. A resposta à questão “sempre houve proletários?”é simples e direta:
“Não. Classes pobres e trabalhadoras sempre houve; e as classes trabalhadoras eram, na maioria dos casos, pobres. Mas nem sempre houve estes pobres, estes operários vivendo nas condições que acabamos de assinalar, portanto, [nem sempre houve] proletários, do mesmo modo que a concorrência nem sempre foi livre e desenfreada.”
A pergunta seguinte é sobre a origem do proletariado.
“Resposta: O proletariado apareceu com a revolução industrial, que se processou na Inglaterra na segunda metade do século passado e que, desde então, se repetiu em todos os países civilizados do mundo. Esta revolução industrial foi ocasionada pela invenção da máquina a vapor, das várias máquinas de fiar, do tear mecânico e de toda uma série de outros aparelhos mecânicos. Estas máquinas, que eram muito caras e, portanto, só podiam ser adquiridas pelos grandes capitalistas, transformaram todo o modo de produção anterior e suplantaram os antigos operários, na medida em que as máquinas forneciam mercadorias mais baratas e melhores do que as que os operários podiam produzir com as suas rodas de fiar e teares imperfeitos. Estas máquinas colocaram, assim, a indústria totalmente nas mãos dos grandes capitalistas e tornaram a escassa propriedade dos operários (ferramentas, teares, etc.) completamente sem valor, de tal modo que, em breve, os capitalistas tomaram tudo nas suas mãos e os operários ficaram sem nada. Assim se instaurou na confecção de tecidos o sistema fabril. Uma vez dado o impulso para a introdução da maquinaria e do sistema fabril, este sistema foi também muito rapidamente aplicado a todos os restantes ramos da indústria, nomeadamente, à estampagem de tecido e à impressão de livros, à olaria, à indústria metalúrgica. O trabalho foi cada vez mais dividido entre cada um dos operários, de tal modo que o operário que anteriormente fizera toda uma peça de trabalho agora passou a fazer apenas uma parte dessa peça. Esta divisão do trabalho tornou possível que os produtos fossem fornecidos mais depressa e, portanto, mais baratos. Ela reduziu a atividade de cada operário a um gesto mecânico muito simples, repetido mecanicamente a cada instante, o qual podia ser feito por uma máquina não apenas tão bem, mas ainda muito melhor. Deste modo, todos estes ramos da indústria caíram, um após outro, sob o domínio da força do vapor, da maquinaria e do sistema fabril, da mesma maneira que a fiação e a tecelagem.”

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Marx e os livros


Paul Lafargue, genro de Marx, fala da relação do sogro com os livros.
“No decurso de uma conversa, interrompia-se com freqüência para mostrar num livro uma passagem ou cifra que queria citar. Estava tão identificado com o ambiente de seu aposento que os livros lhe obedeciam como partes do próprio corpo.
Na maneira de dispor seus livros, ele não dava importância à simetria formal. Volumes de todo tamanho, misturados a folhetos, confundiam-se pitorescamente. Não os arrumava de acordo com as dimensões, mas levando em conta o assunto. Para Marx, os livros representavam instrumentos de trabalho e não objetos de luxo. Afirmava: “Os livros são meus escravos e hão de servir-me de acordo com meus desejos e com toda a pontualidade”.
Sem levar em conta o formato ou a beleza gráfica, maltratava os livros, dobrava-os em ângulo, borrava-os e sublinhava tal ou qual trecho. Não fazia anotações nos livros, mas marcava-os com um ponto de exclamação ou interrogação quando o autor passava das medidas. Seu sistema de sublinhar permitia-lhe ir ao assunto sempre que julgasse oportuno. Tinha o costume de reler seus cadernos de anotações e as passagens sublinhadas nos livros, guardando os assuntos fielmente na memória, que era de uma extraordinária precisão. Exercitou-a desde a adolescência. Seguindo os conselhos de Hegel, decorava versos escritos em línguas desconhecidas para ele.”

Marx e a paixão por Shakespeare


Paul Lafargue – casado com Laura, filha de Marx – conta a relação de Marx com a obra do dramaturgo inglês e seu profundo conhecimento de todos os personagens.
“Sabia de cor as obras de Heine e Goethe e citava, de memória, trechos desses autores. Lia poetas de todas as literaturas européias. Anualmente, relia Ésquilo, no texto grego original. Considerava Ésquilo e Shakespeare os dois maiores gênios dramáticos de todos os tempos. Dedicou-se a estudar profundamente a obra de Shakespeare, por quem sentia admiração sem limites. Conhecia o caráter de todas as personagens criadas pelo dramaturgo inglês. Da sua devoção ao poeta de Hamlet compartilhava toda a família, tanto que suas filhas conheciam de cor os trabalhos de Shakespeare.
Depois de 1848, querendo se aperfeiçoar no conhecimento da língua inglesa, pesquisou e classificou as expressões de Shakespeare. Fez o mesmo com parte da obra do polemista inglês William Cobbert  a quem grandemente se afeiçoara. Entre seus poetas favoritos, contavam-se Dante e Robert Burns Tinha verdadeiro prazer em ouvir as filhas recitarem-lhe fragmentos de sátiras ou madrigais do poeta escocês.”

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O aposento de Marx.


Paul Lafargue - casado com Laura, filha de Marx – faz uma descrição detalhada do ambiente de trabalho do sogro em Maitland Park Road ( Londres), o local para onde acorriam camaradas de todos os cantos do mundo para conversar com o mestre. Maitland Park Road,41 foi a residência do filósofo desde março de 1875 até sua morte em 1883.
“O aposento de Marx possui seu sentido histórico. É preciso conhecê-lo para penetrar na intimidade da vida intelectual de Marx.
Estava situado no primeiro pavimento e o largo balcão, por onde penetrava abundante luz, dava para o parque. De um e de outro lado da lareira e de frente para a janela, estavam as estantes repletas de livros, pacotes de jornais e manuscritos. Diante da lareira, de um dos lados da janela, viam-se duas mesas cobertas de papéis, livros e jornais. No centro da sala, na parte mais clara, havia uma mesa singela, de 1 metro de comprimento por 17 centímetros de largura, e uma poltrona de madeira. Entre ela e as estantes, diante da janela, via-se um divã de couro que Marx utilizava para descansar, de vez em quando. Sobre a lareira, havia também livros misturados com cigarros e maços de tabaco, retratos de suas filhas, de sua companheira, de Wilhelm Wolfe e de Friedrich Engels.
Marx era fumante inveterado. “O Capital”, dizia-me, “jamais me dará o que já gastei em fumo enquanto o escrevia”. Gastava muitos fósforos. Distraído, com tanta freqüência deixava o cachimbo ou o cigarro se apagar que, para reacendê-los, desperdiçava incrível quantidade de fósforos.
Não permitia que ninguém lhe arrumasse – ou, melhor, lhe desarrumasse – os papéis. Na realidade, essa desordem era apenas aparente. Tudo estava no seu devido lugar. Encontrava sempre sem esforço o livro ou o papel que necessitasse.

domingo, 22 de maio de 2011

Sismondi - pequeno burguês, mas consciente.


"Sismondi é profundamente consciente das contradições da produção capitalista”.
A afirmativa de Marx, em “Teorias da Mais –Valia”, evidencia que quando classifica o economista e historiador de pequeno burguês faz uma critica à sua postura “reformista” - Sismondi acreditava que seria possível controlar a exploração capitalista com a intervenção do Estado, sem revolução – mas, tem admiração pela sua obra.
 Artigo de Sismondi de 1835 – quando Marx tinha 17 anos – resume o pensamento do suíço. “Os filósofos podem sonhar com uma ordem social em que todas as distinções sejam aniquiladas, em que todos os homens sejam iguais; mas eles só podem aplicar sua teoria a uma comunidade imaginária que abjure todas as vantagens nas quais a distinção se fundamenta; uma comunidade sem memória do passado, sem elegância de costumes, sem instrução e sem riqueza; uma comunidade onde todo o trabalho para um fundo comum eliminaria as vantagens que a vida civilizada permitiu ao homem adquirir; onde todos perderiam a emulação que atualmente sustenta a coragem e onde cada qual colocaria sua indolência pessoal em oposição às necessidades da comunidade, desonerando-se de suas tarefas com repugnância sob as ordens de uma autoridade que logo se tornaria tirânica e odiada”. Qualquer semelhança com o stalinismo não é mera coincidência.

Sismondi ( Jean Charles Leonard Simonde de Sismondi) 1773 – 1842 foi um importante economista e historiador  suíço que desenvolveu teses pioneiras sobre as crises do capitalismo e a maior participação dos trabalhadores nos benefícios do crescimento econômico. Seu pensamento teve forte influência sobre Marx e Keynes.
 

sábado, 21 de maio de 2011

O pedestal passivo da luta de classes.


No prefácio da 2ª edição do 18 Brumário, Marx  faz uma curiosa análise da luta de classes na Roma Antiga e conclui que a semelhança entre as criaturas políticas daquela época e a de 1869 era a mesma que a existente entre o Papa e o arcebispo de Cantuária ( líder espiritual da Igreja Anglicana). E qual seria a semelhança entre as criaturas políticas de 1869 e 2011?
“Finalmente, confio em que a minha obra contribuirá para eliminar esse lugar-comum do chamado cesarismo, tão corrente, sobretudo atualmente, na Alemanha. Nesta superficial analogia histórica esquece-se o principal, nomeadamente que na antiga Roma, a luta de classes apenas se processava entre uma minoria privilegiada, entre os ricos livres e os pobres livres, enquanto a grande massa produtiva da população, os escravos, formavam um pedestal puramente passivo para aqueles lutadores. Esquece-se a importante sentença de Sismondi (1): o proletariado romano vivia à custa da sociedade, enquanto a moderna sociedade vive à custa do proletariado. A diferença das condições materiais, econômicas, da luta de classes antiga e moderna é tão completa que as suas criaturas políticas respectivas não podem ter mais semelhança umas com as outras que o arcebispo de Cantuária com o pontífice Samuel.
Londres, 23 de Junho de 1869.
Karl Marx “
(1). Sismondi ( Jean Charles Leonard Simonde de Sismondi) 1773 – 1842 foi um importante economista e historiador  suíço que desenvolveu teses pioneiras sobre as crises do capitalismo e a maior participação dos trabalhadores nos benefícios do crescimento econômico. Seu pensamento teve forte influência sobre Marx  (vide a referência acima) e Keynes

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Manifesto do PCB no 1º de maio de 1953. Parte 2


O manifesto do “Partidão” do Dia do Trabalho clama pelo aumento geral de salários, imediata elevação de 100% do salário mínimo e baixa imediata dos preços de todos os artigos de consumo. Em seu conjunto, temas talvez mais ambiciosos que a revolução proletária...
“Camaradas trabalhadores!
Avante para a luta e para a vitória! Ganhemos as ruas e demonstremos que já tomamos em nossas mãos poderosas a grande causa da paz, a grande causa de nosso povo que não pode morrer de fome nem quer servir de carne de canhão para os banqueiros imperialistas!
Contra o "Acordo Militar" com os Estados Unidos, exijamos sua denuncia imediata. Nenhum soldado brasileiro para a Coréia! Fora com os generais e as tropas americanas do nosso solo!
Por um Pacto de Paz das cinco grandes potências! Pela paz imediata na Coréia!
Pelo aumento geral de salários e imediata elevação de cem por cento do salário mínimo oficial! Pela baixa imediata dos preços de todos os artigos de consumo popular, inclusive dos remédios, da roupa e do calçado para o povo! Cadeia para os esfomeadores do povo!
Pela liberdade de todos os operários grevistas presos ou processados e de todos os presos e perseguidos políticos! Contra as novas leis fascistas! Abaixo o terror policial!
Por um Governo Democrático Popular! Viva a união de todos os brasileiros em ampla Frente Democrática de Libertação Nacional!
Viva a gloriosa União Soviética, baluarte da Paz no mundo inteiro! Jamais participaremos de uma guerra contra a Pátria do Socialismo!
Viva o proletariado brasileiro! Viva o seu Partido de vanguarda — o Partido Comunista do Brasil!
Viva a solidariedade internacional dos trabalhadores!
Rio, abril de 1953.
O Comitê Nacional do Partido Comunista do Brasil “
Vide a íntegra da panacéia universal em

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Manifesto do PCB no 1º de maio de 1953. Parte 1

O manifesto do “Partidão” do Dia do Trabalho de 1953 acusa Getúlio de traição nacional e de preparação do Brasil para a guerra ( da Coréia) e comemora as vitórias alcançadas na construção do socialismo “desde as margens do Elba, no centro da Europa, até a China e a Coréia”. Poucos meses depois – outubro – Vargas sanciona a lei 2003, que cria a Petrobras. E no ano seguinte, se suicida após campanha da extrema direita, liderada por Carlos Lacerda. O trecho abaixo mostra como, na ótica do PCB, a União Soviética “avança triunfalmente no caminho da construção da sociedade comunista”.
“Trabalhadores!
Camaradas e amigos!
Numa terça parte do mundo, que se estende desde as margens do Elba no centro da Europa até a China e a Coréia, 800 milhões de pessoas já estão livres das cadeias da exploração capitalista e fazem por isso do 1.° de Maio um dia de alegria e festejam as novas vitórias alcançadas na construção do socialismo, reafirmam sua vontade de paz e amizade com todos os povos. À frente deste poderoso campo da paz está a gloriosa União Soviética, fortaleza invencível, baluarte da paz no mundo inteiro, que avança triunfalmente no caminho da construção da sociedade comunista. Sob a direção do grande Partido de Lênin e Stalin, os povos soviéticos erguem as grandiosas obras do comunismo, melhoram ininterruptamente suas condições de vida, elevam a níveis jamais vistos a própria cultura. Enquanto no mundo capitalista aumentam todos os dias a miséria e a exploração dos trabalhadores, na União Soviética baixam progressivamente os preços de todos os produtos de consumo popular — as rebaixas de preços se sucedem e constituem a manifestação mais evidente da política de paz do governo soviético que se orienta no sentido de assegurar o bem-estar crescente de toda a população. As rebaixas de preços na U.R.S.S. traduzem o crescente poderio econômico do Estado soviético, base indestrutível de seu poderio militar cada dia maior e invencível. Os heróicos trabalhadores da União Soviética mostram, neste 1.° de Maio, aos povos do mundo inteiro o caminho para um futuro feliz e luminoso.
Em nosso país é sob o signo de grandes lutas da classe operária e de todo o povo contra a miséria crescente que comemoramos este ano a grande data dos trabalhadores. Uma onda de indignação popular contra a política de guerra e fome, de traição nacional e de terror policial do Sr. Vargas avança pelo país inteiro e à frente do povo ergue-se em lutas memoráveis a classe operária.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Marx X Adam Smith X Keynes parte 3



A mais eficaz medida de interesse por um tema na web é o numero de “resultados” em uma busca no Google. Em 6 de janeiro de 2011, eram os seguintes os resultados para Marx – 24,4 milhões; Adam Smith – 11 milhões e Keynes – 13,5 milhões.  Em 3 de março os números eram Marx – 48,7 milhões; Adam Smith – 14,8 milhões; Keynes – 22,3 milhões. Em 18 de maio, Marx – 50,9 milhões; Adam Smith – 15,3 milhões; Keynes – 33,7 milhões.
A cada dia, o velho Karl é mais revisitado !!!!!!!

Freud complementa Marx ?


Para quem ainda duvida da interrelação das ideias de Freud e Marx sugiro um teste : uma busca no Google com Marx + Freud. O resultado em 18/05/11: quase 5 milhões de ocorrências ( 4.940.000). Já fizemos uma meia dúzia de postagens sobre o tema e novas virão. Segundo Paul Mattick, o livro “Eros e Civilização. Um inquérito filosófico do pensamento de Freud” é uma tentativa de Marcuse de ler Marx em Freud. Selecionei um trecho do livro de Erich Fromm, “Meu encontro com Marx e Freud” que fala das semelhanças e diferenças.
“ Marx tinha uma percepção muito mais profunda da natureza do processo social e era mais independente que Freud em relação às ideologias sociais e políticas de sua época. Freud tinha uma percepção mais profunda da natureza do processo do pensamento humano, dos afetos e paixões, embora não transcendesse os princípios da sociedade burguesa. Ambos nos deram os instrumentos intelectuais para romper a falsidade da racionalização e das ideologias, e penetrar, assim, na essência da realidade individual e social. “

terça-feira, 17 de maio de 2011

Marxismo soviético


Leandro Konder, em seu último livro – “Em torno de Marx” – comenta a irritação dos militantes comunistas com o livro de Marcuse que levantava a tese que o marxismo ao invés de transformar a URSS fora transformado por ela. Algo semelhante ao marxismo chinês de nossos dias. Tudo leva a crer que a reflexão de Moishe Postone de que as tentativas de substituir o capitalismo pelo socialismo sucumbiram graças à manutenção do sistema de produção capitalista. Tai a China para validar a tese. Vale a pena a leitura do texto de Konder.
“ O “marxismo” oficialmente adotado pelos partidos comunistas e pela União Soviética encastelava-se em Formulas ideológicas desgastadas, envelhecidas. No livro “O marxismo soviético”, Marcuse dizia que o marxismo, em vez de transformar a realidade socioeconômica existente na URSS, fora transformado por ela e se tornara uma ideologia de legitimação de uma vasta organização estatal e de uma complexa máquina político-partidária. Por sua falta de vigor critico, tornava-se cúmplice do sistema capitalista contra o qual havia sido criado.”

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Mundo de Cunhal, em 2003


Em dezembro de 2003, Álvaro Cunhal, figura histórica do movimento comunista internacional, produz uma reflexão sobre “O Mundo de Hoje” para o Encontro Internacional «América Latina: su potencialidad transformadora en el mundo de hoy». Cunhal reconhece que o avanço revolucionário deflagrado em 1917 perdeu impulso, entre outras razões, pela burocratização do poder na União Soviética.
“Uma falsa avaliação da situação criou porém nas forças revolucionárias uma ilusão: que era irreversível o avanço revolucionário e o processo em curso de libertação da humanidade.
Para essa ilusão não se tiveram em conta três realidades.
A primeira: a capacidade mostrada pelo capitalismo, mais que os países socialistas, de não só desenvolver as forças produtivas, como de descobrir, desenvolver e aplicar novas e revolucionárias tecnologias.
A segunda: a utilização pelo imperialismo, designadamente pelos Estados Unidos, de colossais meios materiais e ideológicos, a repressão brutal contra os trabalhadores e os povos em luta, colossais meios financeiros, econômicos, políticos e militares contra as revoluções, bloqueios, sabotagens, atentados, conspirações, ações terroristas e guerras declaradas e não declaradas.
A terceira: as tendências crescentes nos países socialistas, nomeadamente na União Soviética, para a centralização e burocratização do poder e para a estagnação, pondo em perigo o futuro da sociedade socialista em construção.
Todos estes elementos em conjunto conduziram, na segunda metade do século XX, à vitória do capitalismo na competição com o socialismo.”
Íntegra do texto em www.marxists.org/portugues/cunhal/2003/12/mundo.htm

sábado, 14 de maio de 2011

O desaparecimento da religião.


Em dezembro de 1878, Marx teria concedido entrevista à Chicago Tribune, cuja  autenticidade é questionada até hoje. Vale a transcrição de uma pergunta provocante sobre religião e a resposta suave, mas delirante – vide a Rússia e Cuba.
“Pergunta – Atribui-se ao senhor, como a seus partidários, Dr. Marx, toda sorte de propósito incendiários contra a religião. Com toda certeza, o senhor veria com prazer a eliminação radical deste sistema?
Marx – Não ignoramos que é insensato tomar medidas violentas contra a religião. Segundo nossas concepções, a religião desaparecerá à medida que o socialismo se fortalecer. A evolução social vai, infalivelmente, favorecer esse desaparecimento, no qual cabe à educação um papel importante.”


sábado, 7 de maio de 2011

André Breton une Marx e Rimbaud


Em “Les Vases Communicants”, Breton procura demonstrar que o mundo real e o mundo de sonho são um único mundo, mas que essa união passa por uma profunda transformação social. Assim, ele agrega  frases célebres de Rimbaud e Marx: “transformer le monde a dit Marx, changer la vie, a dit Rimbaud, ces deux mots d’ordre pour nous n’en font qu’un”

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O PC da URSS e o PT. Os riscos da cisão latente.


Outubro de 1926. O Birô Político do PC Italiano entrega a Gramsci a tarefa de redigir uma carta ao Comitê Central do PC da URSS alertando para os riscos das polêmicas internas, às vésperas da 15ª Conferência do PCURSS.
O último parágrafo contém uma advertência que, se verdadeira, já teria ferido de  morte o Partido do Lula, do Delúbio e do Zé Dirceu.
“Os prejuízos de um erro cometido pelo partido unido são facilmente superáveis; os prejuízos de uma cisão ou de uma prolongada situação de cisão latente podem ser irreparáveis e mortais.
Com saudações comunistas,
o Birô Político do PCI”

quinta-feira, 28 de abril de 2011

"Todos somos um pouco marxistas, sem o saber?"


Em comemoração ao centenário de nascimento de Marx, em 1918, Gramsci escreve um texto - Marx e o Reino da Consciência - que merece uma reflexão, decorrido quase um século.
“Marx não escreveu um catecismo, não é um messias que tenha deixado uma fieira de parábolas carregadas de imperativos categóricos, de normas indiscutíveis, absolutas, fora das categorias do tempo e do espaço. Seu único imperativo categórico, sua única norma é: "Proletários do mundo inteiro, uni-vos." Portanto, a discriminação entre marxistas e não marxistas teria de consistir no dever da organização e da propaganda, no dever de organizar-se e associar-se. Isto é muito e, ao mesmo tempo, muito pouco: quem não seria marxista? E, sem dúvida, assim são as coisas: todos são um pouco marxistas sem o saber. Marx foi grande e sua ação foi fecunda não porque tenha inventado a partir do nada, não por haver engendrado com sua fantasia uma original visão da história, mas porque com ele o fragmentário, o irrealizado, o imaturo, se fez maturidade, sistema, consciência. Sua consciência pessoal pode converter-se na de todos, e já é de muitos; por isso Marx não é apenas um cientista, mas também um homem de ação; é grande e fecundo na ação da mesma forma que no pensamento, e seus livros transformaram o mundo, assim como transformaram o pensamento.”

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 8


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 8º trecho selecionado, Trotsky fala do trecho que mais envelheceu no Manifesto. Lembra, ainda, que, “segundo Marx, nenhuma ordem social deixa a cena da História antes de haver esgotado todas as suas possibilidades”.
8. O trecho que mais envelheceu no Manifesto - não quanto a seu método, mas quanto a seus objetivos - é a crítica da literatura "socialista" da primeira metade do Século XIX (Capítulo 3) e a definição da posição dos comunistas em relação aos diversos partidos de oposição <Capítulo 4g. As tendências e os partidos enumerados pelo texto foram varridos tão radicalmente pela revolução de 1848, ou pela contra-revolução que se seguiu, que a História já não os menciona sequer. Entretanto, mesmo com respeito a este trecho, o Manifesto encontra-se mais próximo de nós do que o estava em relação à geração anterior. Na época de prosperidade da II internacional, quando o marxismo parecia reinar absolutamente no movimento operário, as idéias do socialismo anteriores a Marx podiam ser consideradas como definitivamente ultrapassadas. Hoje isso já não é mais verdade. A decadência da social-democracia e da Internacional Comunista provoca, a cada passo, monstruosas recaídas ideológicas. O pensamento senil recai, por assim dizer, na infância. À procura de fórmulas salvadoras, os profetas da época de declínio geral do capitalismo redescobrem doutrinas há muito enterradas pelo socialismo científico.
No que diz respeito ao problema dos partidos de oposição, as décadas que nos separam do Manifesto provocaram as mais profundas mudanças: não apenas os velhos partidos foram há muito substituídos por novos, como também o próprio caráter dos partidos e de suas mútuas relações modificou-se radicalmente. Sob as condições da época imperialista, o Manifesto, portanto, deve ser complementado pelos documentos dos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista, pela literatura fundamental do bolchevismo e pelas decisões das conferências do movimento pela IV Internacional.
Lembramos acima que, segundo Marx, nenhuma ordem social deixa a cena da História antes de haver esgotado todas as suas possibilidades. Entretanto, uma ordem social, mesmo já tendo caducado, não cede seu lugar sem opor resistência a uma nova ordem. A sucessão dos regimes sociais supõe a mais áspera luta de classes, isto é a revolução. Se o proletariado, por uma razão ou outra, se mostra incapaz de derrubar a ordem burguesa que sobrevive, não resta ao capital financeiro, em luta para manter seu domínio abalado, senão transformar a pequena burguesia, por ele levada ao desespero e à desmoralização, no exército de terror do fascismo. A degeneração burguesa da social-democracia e a degeneração fascista da pequena burguesia estão entrelaçadas como causa e efeito.

domingo, 27 de março de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 7


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 7º trecho selecionado, Trotsky justifica porque o Manifesto “esquece” a luta dos povos coloniais pela independência e afirma que o mérito da estratégia da luta para os colonizados, é de Lênin.
“7. Mostrando como o capitalismo arrebanha em seu turbilhão os países atrasados e bárbaros, o Manifesto nada diz a respeito da luta dos povos coloniais e semi-coloniais pela sua independência. À medida que Marx e Engels pensavam que a vitória da revolução socialista, "nos países civilizados pelo menos", era uma questão a ser resolvida nos anos seguintes, o problema das colônias resolver-se-ia igualmente não como o resultado de um movimento autônomo dos povos oprimidos, mas, simplesmente, como a conseqüência da vitória do proletariado nas metrópoles capitalistas. Esta é a razão pela qual as questões da estratégia revolucionária nos países coloniais e semi-coloniais nem mesmo estão esboçadas no Manifesto. Mas elas exigem soluções particulares. Dessa forma, é evidente que se a "pátria nacional" se tornou o pior obstáculo à revolução proletária nos países capitalistas avançados mantém-se ainda como um fator relativamente progressista nos países atrasados que são obrigados a lutar por sua existência nacional independente. "Os comunistas, declara o Manifesto, apoiam, em todos os países, qualquer movimento revolucionário contra a ordem social e política existente. " O movimento das raças de cor contra os opressores imperialistas é um dos mais poderosos e importantes movimentos contra a ordem social existente e é esta a razão pela qual necessita do total apoio, indiscutível e sem reticências, do proletariado de raça branca. O mérito de haver desenvolvido a estratégia revolucionária dos povos oprimidos é, sobretudo, de Lênin.”

quinta-feira, 17 de março de 2011

Erich Fromm. Socialismo era movimento espiritual.


Erich Fromm, em seu “Meu Encontro com Marx e Freud” mostra os pontos de contato entre as duas doutrinas: a psicanálise e o marxismo. Faz algumas afirmativas originais, como classificar os primeiros cinquenta ou sessenta anos de socialismo como “o movimento espiritual mais importante e autêntico do mundo ocidental”.
“A teoria marxista, bem como o movimento socialista, era radical e humanista – radical no sentido acima mencionado de ir às raízes,sendo estas o homem; humanista no sentido de ser o homem a medida de todas as coisas, que sua plena realização deve ser a finalidade e o critério de todos os esforços sociais. A libertação do homem da pressão das condições econômicas que impediam seu desenvolvimento pleno era o objetivo de todos os pensamentos e esforços de Marx. O socialismo, naqueles primeiros cinquenta ou sessenta anos, era – embora não usasse linguagem teológica – o movimento espiritual mais importante e autêntico do mundo ocidental.”

domingo, 13 de março de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 6


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 6º trecho selecionado, Trotsky mostra o equívoco do prognóstico de que “a revolução burguesa alemã seria o prelúdio da revolução proletária”.

“6. Para justificar a esperança de que "a revolução burguesa alemã... será o prelúdio da revolução proletária", o Manifesto cita que as condições gerais da civilização européia de então, assim como do proletariado, eram bem mais desenvolvidas do que na Inglaterra do Século XVII ou na França do Século XVIII. O erro deste prognóstico não está apenas na questão do prazo, Alguns meses mais tarde, a Revolução de 1848 mostrou, precisamente, que, em presença de condições mais avançadas, nenhuma das classes burguesas é capaz de levar a revolução até o fim: a grande e a média burguesia estão muito ligadas aos proprietários fundiários e muito unidas pelo medo das massas; a pequena burguesia muito dispersa e seus dirigentes muito dependentes da grande burguesia. Como demonstrou a posterior evolução dos acontecimentos na Europa e na Ásia, a revolução burguesa, em si mesma, não mais pode realizar-se. A purificação da sociedade dos males feudais só é possível se o proletariado, liberto das influências dos partidos burgueses for capaz de se colocar à frente do campesinato e estabelecer sua ditadura revolucionária. Em função disso, a revolução burguesa mescla-se com a primeira fase da revolução socialista para, nesta, dissolver-se em seguida. A revolução nacional torna-se, assim, apenas um elo da revolução proletária internacional. A transformação dos fundamentos econômicos e de todas as relações sociais adquirem um caráter permanente.
Para os partidos revolucionários dos países atrasados da Ásia, América Latina e África, a compreensão clara da relação orgânica entre a revolução democrática e a revolução socialista internacional é uma questão de vida ou morte.”

A "falência" da moderna filosofia burguesa.


Em novembro de 2010, Alan Woods produz longo texto de análise da “crise final” do capitalismo, iniciada nos EUA e que contamina toda a Europa. Em “Porque somos marxistas”, o novo ideólogo de Chávez, faz algumas afirmativas surrealistas:

“Em nenhuma outra esfera a crise da ideologia burguesa é mais transparente do que no campo da filosofia. Em seus estágios iniciais, quando a burguesia representava o progresso, ela foi capaz de produzir grandes pensadores: Hobbes e Locke, Kant e Hegel. Mas no estágio de sua decadência senil, a burguesia é incapaz de produzir grandes idéias. Na verdade, ela é absolutamente incapaz de produzir quaisquer idéias.
Tornada incapaz de produzir generalizações ousadas, a moderna burguesia nega o próprio conceito de ideologia. É por essa razão que os pós-modernistas falam do “fim da ideologia”. Eles negam o conceito de progresso simplesmente porque sob o capitalismo nenhum progresso subseqüente é possível. Engels uma vez escreveu: “A filosofia e o estudo do mundo atual têm a mesma relação entre si que a masturbação e o amor sexual”. A moderna filosofia burguesa prefere a masturbação ao amor sexual. Em sua obsessão por combater o marxismo, ela arrastou a filosofia para o pior período de seu velho, desgastado e estéril passado.”

sábado, 12 de março de 2011

Kautsky e a "inconsciência" do proletariado


Karl Kautsky - quem o contesta? – foi o teórico mais conhecido da 2ª Internacional e considerado, justamente, uma autoridade em marxismo. Editor da Revista Die Neue Zeit, por ele fundada em 1883 ( ano da morte de Marx), escreveu em 1901, um provocante artigo – “Um Elemento importado” onde faz contundente critica aos que interpretam o pensamento de Marx afirmando que o desenvolvimento do capitalismo cria, no proletariado, a consciência socialista. “isso é inteiramente falso”, afirma Kautsky.

“Vários de nossos críticos revisionistas atribuem a Marx a  afirmação de que o desenvolvimento econômico e a luta de classes não apenas criam condições para a produção socialista mas também geram diretamente a consciência de sua necessidade. Depois, estes mesmos críticos objetam que a Inglaterra, país de desenvolvimento capitalista mais avançado, é a mais alheia a essa consciência. O projeto de programa austríaco partilha também deste ponto de vista, supostamente marxista ortodoxo, que refuta o exemplo da Inglaterra. O projeto diz: "Quanto mais o proletariado aumenta, em conseqüência do desenvolvimento capitalista, mais é coagido e tem possibilidade de lutar contra o capitalismo. O proletariado chega à consciência da possibilidade e da necessidade do socialismo. Em conseqüência, a consciência socialista seria resultado necessário, direto, da luta de classes do proletariado”. Isso é inteiramente falso.
Como doutrina, o socialismo tem, evidentemente, suas raízes nas relações econômicas atuais no mesmo grau que a luta de classes do proletariado; da mesma forma que a última, ele decorre da luta contra a pobreza e a miséria das massas, geradas pelo capitalismo. Mas o socialismo e a luta de classes surgem e não se engendram um do outro; surgem de premissas diferentes. A consciência socialista, hoje, só pode brotar na base de um profundo conhecimento científico.”

quarta-feira, 9 de março de 2011

Marx e a "Unificação dos Crentes em Cristo".


Pouco se conhece da juventude de Marx. Selecionei dois textos para uma reflexão inicial. O primeiro do site “Mundo dos Filósofos” e o segundo do blog “heterodoxo-relapso” ( em espanhol).
De sua juventude não se sabe nada significativo. É apenas interessante observar que o futuro ateísta fanático tenha escrito um ensaio de conclusão do curso secundário sobre o tema “A Unificação dos Crentes em Cristo”.”

Buena prueba de la ausencia de aquella influencia religiosa es el segundo de los tres ejercicios escolares que tuvo que presentar para aprobar su bachillerato. Se titulaba Una demostración, según el evangelio de San Juan, de la naturaleza, necesidad y efectos de la unión de los creyentes de Cristo. Expresa todavía la persistencia confesional del cristianismo que imperaba en el ambiente escolar que, en todo caso, no era el judaísmo sino el protestantismo, también minoritario en Tréveris, donde la mayoría era católica.”

terça-feira, 8 de março de 2011

Marx versus Freud parte 2


No site www.perfeicao.org, Glauber Ataíde reproduz um texto de Freud, onde ele revela que conhece pouco o marxismo e desfaz o principal conflito com a psicanálise:
"Sei que os meus conhecimentos sobre o marxismo não revelam nenhuma familiaridade maior, não mostram uma compreensão adequada dos escritos de Marx e Engels. Fiquei sabendo mais tarde, com certa satisfação, que nem um nem o outro negaram a influência dos fatores do ego e do superego. Isso desfaz o principal conflito que eu pensava existir entre o marxismo e a psicanálise.
Esta última citação eu extraí do livro "O marxismo na batalha das idéias", de Leandro Konder, p. 111.”

Marx versus Freud parte 1


Moishe Postone, professor de história da Universidade de Chicago, tem despertado a ira dos marxistas ortodoxos. Tenho dedicado algumas postagens a Postone, que, em setembro de 2010, foi um dos palestrantes do Congresso Marx Internacional, na Sorbonne. No trecho a seguir, extraído de “ Necessidade, Tempo e Trabalho” o marxólogo faz uma análise brilhante dos paralelos entre a “noção de história da formação capitalista e a noção de história individual, em Freud”.  (íntegra do texto em htpp://obeco.no.sapo.pt/mpt2.htm)

“Tenho a impressão de que existe um paralelo entre esta noção de história da formação social capitalista e a noção de história individual, em Freud, em que o passado não aparece como tal, mas sob uma forma velada e internalizada, que domina o presente. A tarefa da psicanálise é desvelar o passado de tal forma que sua apropriação se torne possível. O momento necessário de um presente compulsivamente repetitivo é assim destruído – o que permite ao indivíduo ir para o futuro. Este paralelo merece maior investigação, de forma a determinar se é meramente contingente ou se poderia servir como ponto de partida de uma tentativa de estabelecer uma mediação entre a história do indivíduo e aquela da formação social.”

quinta-feira, 3 de março de 2011

Marx X Adam Smith X Keynes parte 2


A mais eficaz medida de interesse por um tema na web é o numero de “resultados” em uma busca no Google. Às 17 horas de 6 de janeiro de 2011, eram os seguintes os resultados para Marx – 24,4 milhões; Adam Smith – 11 milhões e Keynes – 13,5 milhões.  Às 23 horas de 3 de março de 2011 os números eram Marx – 48,7 milhões; Adam Smith – 14,8 milhões; Keynes – 22,3 milhões. A cada dia, o velho Karl é mais revisitado !!!!!!!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Hobsbawn e o "fim da fé na URSS".


Em 1971, Hobsbawn  - “Os Intelectuais e a luta de classes” – marca a diferença entre os revolucionários dos anos 60/70 e os de sua geração. Já no início dos anos 70 a fé na “grande revolução de outubro” havia desaparecido – bem antes do desmoronamento do muro, em 89. Selecionei um pequeno trecho:
“ Há, contudo, uma diferença notável entre o novo movimento revolucionário e o da minha geração, nos anos entre guerras. Contávamos, talvez erroneamente, com uma esperança e um modelo concreto de uma sociedade alternativa : o socialismo. Hoje em dia essa fé na grande Revolução de Outubro e na União Soviética desapareceu em grande parte – esta é uma observação de fato, não um juízo – e nada a substituiu. Porque, embora os novos revolucionários busquem possíveis modelos e objetos de lealdade, nenhum dos regimes revolucionários pequenos e localizados – Cuba, Vietnã do Norte, Coréia do Norte ou qualquer outro, mesmo a própria China – representa hoje o que a União Soviética significou em minha época.”
Uma observação: Coréia do Norte a parte, onde Hobsbawn encontraria hoje “regimes revolucionários pequenos e localizados”? A ilha do Caribe, por exemplo, aguarda o óbito do seu carismático líder para acelerar o processo de “abertura”. Dois sintomas da “febre capitalista” da China: 1. Em 2010, o faturamento dos Cassinos de Macau foi quatro vezes os de Las Vegas; 2. Também no ano passado, a China foi maior importador de vinhos de Bordeaux – 20 milhões de litros.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

João Amazonas: a queda do muro e "a crise do marxismo".


João Amazonas é figura histórica. Expulso do PCB, em 1961, por discordar das novas teses do XX Congresso do PCUS, funda o PC do B. É inspirador da miopia ideológica que orienta o Partido até nossos dias. Já no período “pós-muro”, confunde o fim da URSS com a crise no marxismo – e assegura que ela será superada – em artigo publicado em 1990, na Revista Princípios nº 18 ( pequeno trecho, a seguir). Amazonas morreu em 2002, sem se aperceber que o fim da União Soviética significaria o renascimento de Marx.

“A crise do marxismo será superada tão prontamente quanto maior for o empenho dos autênticos revolucionários em investigar suas causas e ir ao fundo das questões teóricas que norteiam a marcha da classe operária no rumo do comunismo.
A teoria revolucionária ilumina o caminho da libertação, da construção de uma vida nova. Não se pode avançar com segurança sem o domínio da ciência social. Os princípios que dela decorrem são fundamentais para orientar a estratégia e a tática das forças progressistas em luta contra o sistema reacionário e ultrapassado do capitalismo monopolista.
Defendendo os fundamentos teóricos do marxismo, avancemos, respondendo aos desafios de nossa época. O socialismo, o comunismo são invencíveis, representam o futuro radioso da Humanidade.”

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Babeuf e o "Manifesto dos Iguais"


Marx considerava Babeuf o “primeiro comunista ativista” e a Conjuração do Iguais o "primeiro partido comunista". Para Rosa de Luxemburgo, Babeuf é "o primeiro precursor dos levantes revolucionários do proletariado".
François Noël Babeuf, conhecido como Gracchus Babeuf nasceu em Saint-Quentin, Picardia em 23 de novembro de 1760 foi sucessivamente servo doméstico, artesão, pedreiro e depois encarregado dos registros (contabilidade) de uma propriedade senhorial.
Seu “Manifesto dos Iguais” de 1796 tem o mesmo “clima” que envolve o Manifesto Comunista, de 1848. Veja esses dois trechos:


“Povo da França!

Chegou a hora das grandes decisões. O mal encontra-se no seu ponto culminante, está a cobrir toda a face da terra. O caos, sob o nome de política, há já demasiados séculos que reina sobre ela. Que tudo volte, pois, a entrar na ordem exata e que cada coisa torne a ocupar o seu posto. Ao grito de igualdade, os elementos da justiça e da felicidade estão a organizar-se. Chegou o momento de fundar a República dos Iguais, este grande refúgio aberto a todos os homens. Chegaram os dias da restituição geral. Famílias sacrificadas, vinde todas sentar-vos à mesa comum posta para todos os vossos filhos.”
“Povo da França!
Os hábitos inveterados, os antigos preconceitos, farão novamente tudo para impedir a implantação da República dos Iguais. A organização da igualdade efetiva, a única que satisfaz todas as necessidades sem provocar vítimas, sem custar sacrifícios, talvez em princípio não agrade a todos. Os egoístas, os ambiciosos, rugirão de raiva. Os que conquistaram injustamente as suas possessões dirão que está a cometer-se uma injustiça em relação a eles. Os prazeres individuais, os prazeres solitários, as comodidades pessoais, serão motivo de grande pesar para os indivíduos que sempre se caracterizaram pela sua indiferença ante os sofrimentos do próximo. Os amantes do poder absoluto, os miseráveis partidários da autoridade arbitrária, baixarão pesarosos as suas soberbas cabeças perante o nível da igualdade real. A sua visão estreita dificilmente penetrará no próximo futuro da felicidade comum. Mas que podem fazer alguns milhares de descontentes contra uma massa de homens completamente satisfeitos de terem procurado durante tanto tempo uma felicidade que sempre tiveram à mão?”

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A"profecia" de Alan Woods


Alan Woods, o novo conselheiro de Hugo Chávez, publicou, recentemente, artigo “Porque somos marxistas” onde afirma que um número crescente de pessoas estão abertas às idéias do marxismo, que deixarão os pequenos grupos e “serão zelosamente seguidas por milhões”.
“Estamos ingressando num período dos mais convulsivos que permanecerá por alguns anos, semelhante ao período de 1930-1937 na Espanha. Haverá derrotas e recuos, mas sob essas condições as massas aprenderão muito rápido. Naturalmente, não devemos exagerar: nós estamos ainda no começo de um processo de radicalização. Mas está muito claro aqui que nós estamos testemunhando o início de uma mudança na consciência das massas. Crescente número de pessoas está questionando o capitalismo. Essas pessoas estão abertas às idéias do marxismo de forma nunca vista antes. No próximo período, as idéias que estavam confinadas em pequenos grupos de revolucionários serão zelosamente seguidas por milhões.”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Woods X Trotsky. O Manifesto.


O trotsquista Alan Woods é o mais novo conselheiro de Hugo Chávez – Heinz Dieterich caiu em desgraça, depois de apoiar o ex-aliado Baduel. A leitura do texto em que Woods analisa o Manifesto mostra uma profunda contradição com seu líder. Certamente, Alan nunca leu o prefácio de  Trotsky (1937) à edição sul-africana da até hoje polêmica obra de Marx/Engels. Woods afirma que o Documento explica como a livre empresa conduziria ao monopólio. Trotsky demonstra que no Manifesto “o capitalismo é o reino da livre concorrência”. Apenas anos depois, em O Capital, é que “Marx constatou a tendência para a transformação da livre concorrência em monopólio”. Seguem os dois texto referidos.
O texto de Alan Woods
“O que é mais surpreendente sobre o Manifesto é como antecipa os mais fundamentais fenômenos que ocupam nossa atenção em escala mundial no presente momento. Consideremos um exemplo. No tempo em que Marx e Engels o escreveram, o mundo das grandes companhias multinacionais era ainda música de um futuro muito distante. A despeito disto, eles explicaram como a “livre empresa” e a concorrência inevitavelmente conduziriam à concentração de capital e à monopolização das forças produtivas.”
O texto de Trotsky
“3. Para o Manifesto, o capitalismo é o reino da livre concorrência. Referindo-se à crescente concentração do capital, o texto não tira deste fato a necessária conclusão a respeito dos monopólios, que se transformaram na força dominante do capitalismo em nossa época, premissa mais importante da economia socialista. Foi apenas mais tarde, em O Capital que Marx constatou a tendência para a transformação da livre concorrência em monopólio. A caracterização científica do capitalismo monopolista foi dada por Lênin em seu livro Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo.”



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 5


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 5º trecho selecionado, ele reforça o equívoco, já registrado pelos autores em 1872 e afirma que “Em nossos dias não pode haver programa revolucionário sem sovietes e sem poder operário”. A pergunta que não quer calar: onde estão, em 2011, os sovietes? Nem em Cuba, quem sabe, na Venezuela.......


“5. O Manifesto, escrito para uma época revolucionária, contém, no final do segundo capítulo, dez reivindicações que respondem ao período da imediata transição do capitalismo ao socialismo. No prefácio de 1872, Marx e Engels mostraram que essas reivindicações se encontravam parcialmente superadas e que, de qualquer modo, não tinham mais que um significado secundário. Os reformistas se apoderaram desta avaliação para interpretá-la no sentido que, para eles, as palavras-de-ordem revolucionárias transitórias davam definitivamente lugar ao "programa mínimo" da social-democracia que, como sabemos não ultrapassava os limites da democracia burguesa.
Na verdade, os autores do Manifesto indicaram de modo preciso a principal correção a ser feita em seu programa transitório: "Não basta que a classe operária se utilize da máquina estatal para colocá-la a serviço de seus próprios fins. "A correção era contra o fetichismo a respeito da democracia burguesa. Ao Estado burguês, Marx opôs, mais tarde, o Estado do tipo da Comuna. Este "tipo" tomou, em seguida, a forma muito mais precisa de sovietes. Em nossos dias não pode haver programa revolucionário sem sovietes e sem poder operário. Quanto ao mais isto é, às dez reivindicações do Manifesto que na época da pacífica atividade parlamentar, pareceram "caducar", é preciso que se diga que recobraram, hoje, todo seu verdadeiro significado. O que caducou inapelavelmente foi o "programa mínimo" social-democrata.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 4


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 3º trecho selecionado, ele mostra que a expectativa de proletarização generalizada da sociedade não aconteceu. Destaque para a proletarização da classe média – imagine a frustração dos dois alemães ao assistir, no Brasil de 2010, a ascensão das classes D e E à classe média.

“4. Tomando como base sobretudo o exemplo da "Revolução Industrial" inglesa, os autores viam de maneira muito unilateral o processo de liquidação das classes médias com a proletarização completa do artesanato, do pequeno comércio e do campesinato. Na verdade, as forças elementares da concorrência ainda não finalizaram esta obra, ao mesmo tempo progressista e bárbara. O capital arruinou a pequena burguesia bem mais rapidamente do que a proletarizou. Por outro lado, a política consciente do Estado burguês, há muito tempo, visa conservar artificialmente as camadas pequeno-burguesas. No pólo oposto, o crescimento da técnica e a racionalização da grande produção, ao mesmo tempo em que engendram um desemprego orgânico, freiam a proletarização da pequena burguesia. Houve um extraordinário adormecimento do exército de técnicos, administradores, empregados de comércio, em uma palavra, daquilo que é chamado de "novas classes médias". O resultado de tudo isso é que as classes médias cujo desaparecimento o Manifesto previa de modo tão categórico, constituem, mesmo em um país altamente industrializado como a Alemanha, quase a metade da população. Mas a conservação artificial das camadas pequeno-burguesas, desde há muito caducas, em nada atenua as contradições sociais; torna-as, pelo contrário, particularmente, mórbidas. Somando-se ao exército permanente de desempregados, ela é a expressão mais nociva do apodrecimento capitalista. “


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 3


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 3º trecho selecionado, ele mostra que apenas anos depois, em O Capital é “que Marx constatou a tendência para a transformação da livre concorrência em monopólio”. No Manifesto, “o capitalismo é o reino da livre concorrência”.

“3. Para o Manifesto, o capitalismo é o reino da livre concorrência. Referindo-se à crescente concentração do capital, o texto não tira deste fato a necessária conclusão a respeito dos monopólios, que se transformaram na força dominante do capitalismo em nossa época, premissa mais importante da economia socialista. Foi apenas mais tarde, em O Capital que Marx constatou a tendência para a transformação da livre concorrência em monopólio. A caracterização científica do capitalismo monopolista foi dada por Lênin em seu livro Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo.”

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Marx, De Masi e Chris Anderson.


Domenico De Masi, o sociólogo italiano, inventor do “Ócio Criativo”, sempre se declarou marxista e, embora nunca tenha se filiado ao PCI, sempre votou com os comunistas.  De Masi, afirma que o trabalho é uma profissão e o ócio uma arte e sentencia que Marx previu o fim do trabalho: "Em 1857, isto é, há quase um século e meio, Marx tinha escrito : 'É chegado o tempo em que os homens não mais farão o que as máquinas podem fazer' e tinha concluído que o capitalismo, tendendo de forma inexorável para a abolição do trabalho, teria dessa forma provocado sua própria morte."
Mais recentemente, Chris Anderson, autor do best-seller mundial “A Cauda Longa” (“The Long Tail”) - Editora Campus-Elsevier – relembra o pioneirismo de Marx em “A Ideologia Alemã”. Uma observação – a expressão “Pro-Am” significa Profissionais e Amadores.
“ Com efeito, Karl Marx foi, talvez, o primeiro profeta da economia Pro-Am. Como observa o Demos, Marx sustentou em  “A Ideologia Alemã”, escrito entre 1845 e 1847, que o trabalho forçado, não-espontâneo e assalariado seria superado pela atividade autônoma.  Finalmente, esperava ele, chegaria um tempo em que a “produção material criará condições para que todas as pessoas disponham de tempo ocioso para o exercício de outras atividades”. Marx evocava uma sociedade comunista em que “..... ninguém tem uma esfera de atividade exclusiva, mas cada uma delas pode ser executada da maneira que mais aprouver a cada um (......) caçar de manhã, pescar de tarde, criar gado à noite, criticar depois do jantar, do mesmo modo como tenho uma mente, sem nunca ter sido caçador, pescador ou critico”.

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 2


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 2º trecho selecionado, ele destaca alguns equívocos relevantes como a “superestimação da maturidade revolucionária do proletariado” e da consequência  da revolução de 1848 que, ao invés da revolução socialista “criou, para a Alemanha, a possibilidade  de um formidável desenvolvimento capitalista”.

“2. O erro de Marx e Engels a respeito dos prazos históricos decorria, de um lado, da subestimação das possibilidades posteriores inerentes ao capitalismo e, de outro, da superestimação da maturidade revolucionária do proletariado. A revolução de 1848 não se transformou em revolução socialista, como o Manifesto havia previsto, mas criou, para a Alemanha, a possibilidade de um formidável desenvolvimento capitalista. A Comuna de Paris demonstrou que o proletariado não pode arrancar o poder à burguesia sem ter à sua frente um partido revolucionário experiente. Ora, o longo período de desenvolvimento capitalista que se seguiu à Comuna conduziu não à educação de uma vanguarda revolucionária, mas, ao contrário, à degeneração burguesa da burocracia operária que se tornou, por sua vez; o principal obstáculo à vitória da revolução proletária. Esta "dialética” os autores do Manifesto não podiam prever.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 1


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 1º trecho selecionado, ele enfatiza que, em pleno século XIX, o capitalismo ainda não havia cumprido o seu ciclo e, conforme o ensinamento do próprio Marx , não poderia “deixar a cena”.

“O pensamento revolucionário nada tem em comum com a idolatria. Os programas e os prognósticos verificam-se e corrigem-se à luz da experiência, que é para o pensamento humano a suprema instância O Manifesto requer correções e complementos. Entretanto, mesmo correções e complementos não podem ser aplicados com sucesso senão nos servimos do mesmo método que se encontra à base do Manifesto, como, além disso, o prova a própria experiência histórica. Mostraremos isso servindo-nos dos exemplos mais importantes.
1. Marx ensina que nenhuma ordem social deixa a cena antes de ter esgotado suas possibilidades criadoras. O Manifesto ataca o capitalismo porque ele bloqueia o desenvolvimento das forças produtivas. Contudo, na sua época e mesmo durante várias décadas seguintes, este entrave possuía apenas um caráter relativo. Se, na segunda metade do Século XIX tivesse sido possível à economia se organizar sobre fundamentos socialistas, o ritmo de seu crescimento teria sido incomparavelmente mais rápido. Esta tese, teoricamente incontestável, não modifica o fato de que as forças produtivas continuaram a crescer em escala mundial, e sem interrupção, até a Primeira Guerra Mundial. Foi unicamente nos últimos vinte anos que, malgrado as mais modernas conquistas científicas e técnicas, se abriu a época da estagnação completa e da própria decadência da economia mundial. A humanidade começa a viver do capital acumulado e a próxima guerra ameaça destruir por longo tempo as próprias bases da civilização. Os autores do Manifesto pensavam que o capital seria liquidado muito antes de passar de ser um regime relativamente reacionário para a sua fase absolutamente reacionária. Esta transformação, porém, só se consumou aos olhos da atual geração, fazendo de nossa época a época de guerras, revoluções e do fascismo.

Trotsky e os noventa anos do Manifesto. Parte 2


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e registra os temas ainda atuais do Manifesto. Selecionei mais  um item (11) das teses do Manifesto que ele julgava que “conservam integralmente sua força”. O item ilustra bem as sensíveis diferenças entre o sonho e a realidade e o delírio da implantação do socialismo a partir de uma ditadura; seja ela do proletariado, dos milicos, dos aiatolás ou de qualquer outro gênero.

11. "A partir do momento em que, no curso do desenvolvimento, as diferenças de classe tenham desaparecido e que toda a produção esteja concentrada nas mãos de indivíduos associados, o poder público perde seu caráter político. " Em outras palavras, o Estado extingue-se. Resta a sociedade liberta de sua camisa-de-força. E é exatamente isso o socialismo. O teorema inverso: o monstruoso crescimento da imposição e violência estatais na URSS demonstra que a sociedade soviética se afasta do socialismo.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Trotsky e os noventa anos do Manifesto


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e registra os temas ainda atuais do Manifesto. Selecionei um trecho da abertura e o item 4 das teses do Manifesto que Trotsky julgava que “conservam integralmente sua força”. Alguém, além dos remanescentes da Polop, endossa o item 4?
“No prefácio à edição de 1872, Marx e Engels afirmaram que, mesmo tendo certos trechos secundários do Manifesto envelhecido, não tinham o direito de modificar o texto original, visto que, no decorrer dos vinte e cinco anos então passados ele já se transformara em um documento histórico. De lá para cá mais sessenta e cinco anos transcorreram. Algumas partes isoladas envelheceram ainda mais. Consequentemente, neste prefácio apresentaremos, de forma resumida, as idéias do Manifesto que, até nossos dias conservam integralmente sua força e aquelas que necessitam de sérias modificações ou complementos.”
“4. A tendência do capitalismo em rebaixar o nível de vida dos operários, a torná-los cada vem mais pobres. Esta tese foi violentamente atacada. Os padres, os professores, os ministros, os jornalistas, os teóricos socialdemocratas e os dirigentes sindicais levantaram-se contra a assim chamada teoria do "empobrecimento". Invariavelmente enumeravam sinais do bem-estar crescente dos trabalhadores, tomando a aristocracia operária por todo o proletariado, ou tomando uma tendência temporária por uma situação perdurável. Paralelamente, a própria evolução do mais poderoso capitalismo, o dos Estados Unidos transformou milhões de operários em párias, sustentados às custas da caridade estatal ou privada.”

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

André Breton e o jovem Marx


André Breton (1896/1966), fundador do surrealismo, foi filiado ao PCF durante oito anos. Decepcionado com Stalin, deixou o Partido e aliou-se a Trotsky, já asilado no México. No manifesto “Por Uma Arte Revolucionária Independente”, redigido a quatro mãos com Diego Rivera, cita o jovem Marx e aprofunda a sua delirante tese de que ninguém deve “viver e escrever para ganhar dinheiro”.

“A idéia que o jovem Marx tinha do papel do escritor exige, em nossos dias, uma retomada vigorosa. É claro que essa idéia deve abranger também, no plano artístico e científico, as diversas categorias de produtores e pesquisadores. "O escritor, diz ele, deve naturalmente ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas não deve em nenhum caso viver e escrever para ganhar dinheiro . . . O escritor não considera de forma alguma seus trabalhos como um meio. Eles são objetivos em si, são tão pouco um meio para si mesmo e para os outros que sacrifica, se necessário, sua própria existência à existência de seus trabalhos . . . A primeira condição da liberdade de imprensa consiste em não ser um ofício.”
Íntegra do texto original em /www.andrebreton.fr