sábado, 3 de março de 2018

Marx não era marxista.

“Je ne suis pas marxiste”. A frase de Marx em carta a seu genro Paul Lafargue (casado com Laura) é origem da polêmica, que persiste até hoje, entre os estudiosos da obra do parceiro de Engels. O que Karl afirmava, na carta de 1870, era que os marxistas franceses estavam deturpando suas ideias. Algo que dezenas de anos após iria se repetir com Althusser ao sugerir pular a leitura do primeiro capítulo do Livro 1 de O Capital por ser “muito hegeliano”,,,,
Imaginemos Marx viajando no tempo até a União Soviética do marxista Stalin.
Com certeza uma reação muito semelhante à de Jesus “viajando” até a Europa da Inquisição – “Je ne suis pas chrétien”.
Vale recordar um texto recente de Delfim Netto no jornal Valor Econômico:
“ É verdade absoluta que: Marx nunca foi marxista e tinha dúvidas sobre eles; Keynes nunca foi keynesiano e desconfiava de quem declarasse que o fosse; Samuelson, o criador da síntese neoclássica, teve freqüentes achaques de fraqueza heterodoxa; o sempre abusado Hayek foi muito melhor e mais sofisticado do que o supõem os “não hayekianos”.”







quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O essencial em Marx

Em fevereiro de 2012, Denis Collin publica  “Quatro Questões sobre Marx”. Segue, em tradução livre, a questão 3 – O que ficou de essencial de Marx ?
"Marx propõe uma teoria da emancipação baseada na compreensão dos mecanismos do modo de produção capitalista. E, o que é mais relevante, uma teoria da emancipação dos indivíduos e não um "coletivismo". Não é uma questão de comunismo agressivo, que visa apenas a equalização das carteiras, mas à liberdade dos indivíduos, uma liberdade que só pode começar além do trabalho ditado pela necessidade, uma liberdade que seja o pleno desenvolvimento das potencialidades de cada um, uma vida onde o homem seja o seu próprio objetivo.
Este objetivo pode ser ambicioso e até muito ambicioso. Mas essa teoria da emancipação pressupõe uma crítica radical das relações sociais impostas por uma sociedade em que as relações entre os humanos aparecem sob a forma de relações entre as coisas, como explicado na seção I do "Capital" (aquela que  Althusser aconselha a "pular") com a análise do fetichismo.
Ao ler "Capital" com esta perspectiva, ficará claro que esta não é uma "economia marxista", mas um ótimo livro de filosofia, porque são precisamente essas análises da seção I, tão frequentemente qualificadas como como "metafísicas", que comandam todo esta obra inacabada.”





domingo, 14 de janeiro de 2018

Os riscos da profecia na política...

Em 1886 – 3 anos após a morte de Marx -, Engels escreve o prefácio da primeira edição inglesa de O Capital e, no último parágrafo, reafirma a tese de Marx  que a Inglaterra reunia todas as condições para realizar, pacificamente, a revolução social.
“Certamente, em tal altura, terá de se ouvir a voz de um homem cuja teoria toda é o resultado do estudo, durante uma vida inteira, da história económica e da situação da Inglaterra, e a quem esse estudo levou à conclusão de que, pelo menos na Europa, a Inglaterra é o único país onde a inevitável revolução social pode ser efetuada inteiramente por meios pacíficos e legais. Certamente que ele nunca se esqueceu de acrescentar que dificilmente esperava que as classes dominantes Inglesas se submetessem a esta revolução pacífica e legal sem uma “pro-slavery rebellion”.
5 de Novembro de 1886
Frederick Engels

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O fetichismo da mercadoria X Althusser

Os marxistas clássicos sempre tiveram grande dificuldade de absorver o conteúdo do capítulo inicial do volume 1 de O Capital, especialmente a seção 4 : “O fetichismo da mercadoria e seu segredo”. Vale lembrar que o próprio autor, no prefácio da 1ª edição alemã ( 1867), registrava as “dificuldades” do entendimento do 1º capítulo. Para avaliar essa “dificuldade” segue trecho do prefácio de Althusser para a edição francesa da obra maior de Marx:

“As maiores dificuldades teóricas, além de tantas outras, que constituem obstáculo a uma leitura fácil do livro I d’O Capital, estão, infeliz (ou felizmente) concentradas no próprio início do livro I, mais precisamente em sua seção I, que trata de ‘A mercadoria e a moeda’. Dou então o seguinte conselho: colocar PROVISORIAMENTE ENTRE PARÊNTESES TODA A SEÇÃO I e COMEÇAR A LEITURA PELA SEÇÃO II: ‘A transformação do dinheiro em capital’. A meu ver, só é possível começar (e somente começar) a compreender a seção I, após ter lido e relido todo o livro I a partir da seção II. Este conselho é mais do que um conselho: é uma recomendação que, com todo o devido respeito a meus leitores, eu me permito apresentar como uma recomendação imperativa. Cada um poderá fazer a experiência prática disso. Se se começar a ler o livro I por seu começo, isto é, pela seção I, ou ele não é compreendido, ou ele é abandonado; ou acredita-se compreendê-lo, o que é considerado um clássico no ainda mais grave, pois há grandes chances de ter compreendido outra coisa do que se deveria compreender.”

O fetichismo da mercadoria fé.

Um texto relevante de Alexandre Gomes – reproduzido no blog “O Espiritualismo Ocidental” – revela como o conceito de fetichismo da mercadoria, criado por Marx, é “um dos mais úteis para se compreender a realidade do mundo pós-moderno, apropriadamente chamado de sociedade de consumo.” Segue um pequeno e estimulante trecho:
“O conceito de fetichização dos bens culturais, tal como é desenvolvido em Adorno, talvez forneça uma pista importante para se compreender também outros aspectos da sociedade pós-moderna: Até que ponto não é possível falar, por exemplo, de uma fetichização da fé, transformando a salvação em mera mercadoria e a apreciação das palavras reveladas como um setor específico da indústria de espetáculos?
Consumiriam-se pregações assim como se consome a música da moda na FM, não pelo valor intrínseco da mensagem, pelo prazer e reflexão que ela proporcionaria, mas da mesma forma como se consome um iogurte ou se veste uma roupa de grife.”
Íntegra do texto em
http://oespiritualismoocidental.blogspot.com.br/2011/03/salvacao-como-mercadoria-e-espetaculo.html