segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Cristianismo primitivo e socialismo.


Um dos últimos textos produzidos por Engels – 1895, ano de sua morte – “Contribuição para a história do cristianismo primitivo” traça paralelos entre o desenvolvimento do cristianismo e o socialismo. Segue o parágrafo de abertura.
“A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria; o cristianismo transpõe essa libertação para o Além, numa vida depois da morte, no céu; o socialismo coloca-a no mundo, numa transformação da sociedade. Os dois são perseguidos e encurralados, os seus aderentes são proscritos e submetidos a leis de exceção, uns como inimigos do gênero humano, os outros como inimigos do governo, da religião, da família, da ordem social. E, apesar de todas as perseguições, e mesmo diretamente servidos por elas, um e outro abrem caminho vitoriosamente. Três séculos depois do seu nascimento, o cristianismo é reconhecido como a religião do Estado e do Império romano: em menos de sessenta anos, o socialismo conquistou uma posição tal que o seu triunfo definitivo está absolutamente assegurado.”

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O posfácio da 2ª edição alemã do Capital.


Em 1873, Marx escreve o posfácio da 2ª edição alemã do primeiro volume de O Capital e faz uma avaliação de seus críticos.

“O senhor M. Block — Les théoriciens du socialisme en Allemagne. Extrait du Journal des Economistes, juillet et août 1872 — descobre que o meu método é analítico e diz, entre outras coisas:
«Par cet ouvrage, M. Marx se classe parmi les esprits analytiques les plus éminents.»(4*
Os autores de recensões alemães, naturalmente, gritam que é sofística de Hegel. O Mensageiro da Europa, de Petersburgo, num artigo que trata exclusivamente do método do Kapital (número de Maio de 1872, pp. 427-436), acha o meu método de pesquisa rigorosamente realista, mas o meu método de exposição infelizmente germano-dialético. Diz ele:
«À primeira vista, a julgar pela forma exterior da exposição, Marx é um grande filósofo idealista e, precisamente, no sentido "alemão", isto é, o mau desta palavra. De fato, porém, ele é infinitamente mais realista do que todos os seus antecessores em matéria de crítica econômica... De maneira nenhuma se pode já considerá-lo um idealista.»
Não posso responder melhor ao senhor autor do que através de alguns extratos da sua própria crítica, que, além disso, poderão interessar a muitos dos meus leitores para quem o original russo é inacessível.
Depois de uma citação do meu prefácio a Kritik der Pol. Oek , Berlin, 1859, pp. IV-VII, onde debati a base materialista do meu método, o autor prossegue:
«Para Marx só uma coisa é importante: encontrar a lei dos fenômenos, de cuja investigação ele se ocupa. E, para ele, é importante não uma lei que os rege enquanto eles têm uma certa forma e enquanto se encontram na conexão que é observada num dado período de tempo. Para ele, é ainda acima de tudo importante a lei da sua mutabilidade, do seu desenvolvimento, isto é, da passagem de uma forma à outra, de uma ordem de conexões à outra. Uma vez que descobriu esta lei, encara mais em pormenor as consequências nas quais a lei se manifesta na vida social... De acordo com isto, Marx preocupa-se com uma só coisa: demonstrar, através de uma investigação científica precisa, a necessidade de determinadas ordens das relações sociais e por constatar, tão irrepreensivelmente quanto possível, os fatos que lhe servem de pontos de partida e de apoio. Para isso é perfeitamente suficiente que ele, tendo demonstrado a necessidade da ordem atual, demonstre também a necessidade de uma outra ordem, para a qual tem inevitavelmente de ser feita uma passagem a partir da primeira, sendo totalmente indiferente que se acredite ou não nisso, se esteja consciente ou não disso. Marx encara o movimento social como um processo histórico-natural, dirigido por leis que não só não se encontram dependentes da vontade, da consciência e da intenção do homem, como determinam elas próprias a sua vontade, consciência e intenções... Se o elemento consciente na história da cultura desempenha um papel tão subordinado, é compreensível então que a crítica, cujo objeto é a própria cultura, tanto menos possa ter por fundamento qualquer forma ou qualquer resultado da consciência. Isto é, não é a ideia mas apenas o fenômeno exterior que lhe pode servir de ponto de partida. A crítica limitar-se-á à comparação e confronto de um fato, não com a ideia mas com outro fato. Para ela apenas é importante que ambos os fatos sejam estudados o mais precisamente possível e realmente constituam diferentes graus de desenvolvimento; mas acima de tudo é importante que não menos precisamente seja estudada a ordem, a sequência e ligação em que se manifestam estes graus de desenvolvimento [...] A outro leitor pode aqui ocorrer a seguinte questão [...] as leis gerais da vida econômica não são as mesmas, sendo indiferente que se apliquem à vida presente ou à passada? Mas precisamente isto Marx não o admite. Para ele tais leis gerais não existem... Em sua opinião, pelo contrário, cada grande período histórico possui as suas próprias leis... Mas assim que a vida ultrapassou um dado período de desenvolvimento, saiu de um dado estádio e entrou noutro, começa também a ser guiada por outras leis. Numa palavra, a vida econômica oferece-nos neste caso um fenômeno perfeitamente análogo àquilo que observamos noutras classes dos fenômenos biológicos... Os velhos economistas não compreendiam a natureza das leis econômicas, ao considerá-las do mesmo tipo das leis da física e química... Uma análise mais profunda dos fenômenos mostrou que os organismos sociais diferem uns dos outros não menos profundamente do que os organismos botânicos e zoológicos... Um mesmo fenômeno, em consequência da diferença de estrutura destes organismos, da diversidade dos seus órgãos, das diferenças de condições em que os órgãos têm de funcionar, etc, está subordinado a leis perfeitamente diferentes. Marx nega-se, por exemplo a admitir que a lei do aumento da população seja a mesma sempre e em toda a parte, para todos os tempos e para todos os lugares. Afirma, pelo contrário, que cada grau de desenvolvimento tem a sua própria lei da reprodução... Dependendo das diferenças do nível de desenvolvimento das forças produtivas, alteram-se as relações e as leis que as regulam. Ao colocar-se, assim, a si próprio o objetivo de investigar e explicar a ordem capitalista da economia, Marx apenas formulou de um modo rigorosamente científico o objetivo que toda a investigação precisa da vida econômica tem de ter... O seu valor científico reside no esclarecimento das leis particulares a que estão submetidos o surgimento, existência, desenvolvimento e morte de um dado organismo social e a sua substituição por um outro, superior. E o livro de Marx tem de fato este valor.»
O senhor autor, ao descrever tão acertadamente aquilo a que chama o meu método real e tão benevolentemente o que à minha aplicação pessoal dele concerne, que outra coisa descreveu ele senão o método dialético?”



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Marx. Um aperfeiçoamento de Smith-Ricardo?


Em 1873, Marx escreve o posfácio da 2ª edição alemã do primeiro volume de O Capital e faz uma simpática referência ao economista russo Nikolai Sieber (1844-1888), um dos divulgadores de sua obra na Rússia:
“Na Primavera de 1872, apareceu em Petersburgo uma excelente tradução russa do Kapital. A edição, de 3000 exemplares, está agora já quase esgotada. Já em 1871, o senhor N. Sieber, professor de economia política na Universidade de Kíev, no seu escrito: "Teopiя чжнноcти и кaIIитaдa Д. Pикaрдo" (Teoria do Valor e do Capital de D. Ricardo, etc), tinha demonstrado que a minha teoria do valor, do dinheiro e do capital, nos seus traços fundamentais, era um aperfeiçoamento necessário da doutrina de Smith-Ricardo. O que surpreende o europeu ocidental na leitura do seu sólido livro é a manutenção consequente do ponto de vista puramente teórico.
O método empregue no Kapital foi pouco entendido, como já o demonstram as interpretações dele entre si contraditórias.
Assim, a Revue Positiviste , de Paris, censura-me, por um lado, porque trato a economia metafisicamente e, por outro lado — imagine-se! —, porque me limito a uma dissecação meramente crítica do dado, em vez de prescrever receitas  (contianas?) para as casas de pasto do futuro. Contra a censura de metafísica, observa o Prof. Sieber:
«Na medida em que se trata propriamente da teoria, o método de Marx é o método dedutivo de toda a escola inglesa, os seus defeitos tal como as qualidades são partilhadas pelos melhores economistas teóricos.»

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Fetichismo na economia marxista:um comentário.


O Prof. Valdemir Pires coordenador do Curso de Economia da Universidade Metodista de Piracicaba-UNIMEP publica na revista Impulse comentário didático, com base na visão de Izaak Rubin, sobre o papel do fetichismo no pensamento de Marx. Íntegra em www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf /imp22 _23art09 .pdf
Transcrevo, a seguir, a conclusão, na parte final do artigo.

“A teoria do fetichismo foi a descoberta que conduziu Marx para além dos postulados da Economia Política clássica, pois esta última (especialmente pelas mãos de Ricardo), tomando a forma como a riqueza se distribui entre as classes enquanto o objeto da Economia Política, não se deteve no questionamento das causas que originaram esta forma de distribuição. Marx, pelo contrário, centrou no estudo das relações de produção o objeto da Economia Política e, ao fazê-lo, pôde detectar no fetiche da mercadoria um elemento explicativo do surgimento, da consolidação e do modo de operar destas relações e das formas de distribuição correlatas.
Tendo em vista que não é incomum encontrar afirmações de que há em Marx uma postura ideológica que conduz a uma teoria enviesada do capitalismo, é conveniente, a esta altura, reforçar que, uma vez aceito o método de Marx, não se pode fugir à conclusão de que ele, ao invés de partir de uma ideologia para formular sua teoria, pelo contrário, descobre, com sua teoria (construída com base em método distinto do utilizado pelos economistas clássicos) o caráter ideológico da forma de operar da economia mercantil capitalista. Em outras palavras, sua teoria, graças ao método que utiliza, flagra a ideologia como componente necessário e como resultante da forma de operar da economia mercantil capitalista. Então não é a postura ideológica, mas sim a postura metodológica de Marx que o conduz à descoberta de conceitos que, nos marcos do supostamente asséptico método dos economistas clássicos, são conceitos ideológicos.”


Marx nunca foi marxista.


Mais uma vez, Delfim cita Marx em seu artigo semanal às terças no Valor Econômico. Cada dia mais tendo a achar que o jornalista Milton Coelho da Graça tem razão: Delfim é um marxista infiltrado.
Vamos ao trecho:
“ É verdade absoluta que: Marx nunca foi marxista e tinha dúvidas sobre eles; Keynes nunca foi keynesiano e desconfiava de quem declarasse que o fosse; Samuelson, o criador da síntese neoclássica, teve freqüentes achaques de fraqueza heterodoxa; o sempre abusado Hayek foi muito melhor e mais sofisticado do que o supõem os “não hayekianos”.”

domingo, 9 de setembro de 2012

O Cristóvão Colombo do Capital.


Um dos símbolos maiores do fetichismo da mercadoria – Louis Vuitton – publicou em sua coleção literária “Karl Marx. O  Cristovão Colombo do Capital”, à venda no site da marca francesa por 24 euros. Vale transcrever/traduzir a descrição do livro:
“Viajar com Karl Marx. A seleção de textos de Marx, comentados pelo historiador Jean-Jacques Marie propõe uma viagem universal através dos livros, as ideias,  a história e ainda um inédito sobre a vida e obra de Marx. O leitor, para sua grande alegria, irá descobrir uma faceta pouco conhecida do autor do Capital”.

E por falar em Louis Vuitton, vale destacar a nota publicada hoje/9/10/12 que registra a mudança de domicílio para Bélgica do presidente da boutique de luxo para fugir dos novos tributos criados por Hollande.

domingo, 2 de setembro de 2012

Marx, o capitalismo e a crise.


A cada crise do capitalismo o santo nome de Marx volta a ser pronunciado, nem sempre em vão. Uma das últimas ocorrências foi capa da revista “Eu & Fim de Semana” - na edição de 31/08/12 do jornal Valor Econômico -  com a chamada “O capitalismo e a crise” para dois excelentes ensaios de Luiz Gonzaga Belluzzo e André Lara Resende. Economia nunca foi a minha praia, no entanto, ousaria afirmar que os economistas clássicos – destaque para Adam Smith e Ricardo – fizeram proveitosas análises das origens e do capitalismo até o início do século 19 mas, seu desenvolvimento e suas crises foram missões do velho Karl, apesar da equivocada ditadura do proletariado.
Selecionei um trecho de cada autor, mas recomendo a leitura da íntegra, especialmente, do texto de Belluzzo, que reverencia o parceiro de Engels.

Luiz Gonzaga Belluzzo
“Uma leitura cuidadosa dos "Grundrisse" e dos três volumes de "O Capital" permite compreender que o dinheiro transformado em capital - origem e finalidade da circulação e da produção capitalistas (Dinheiro-Mercadoria-Dinheiro) - não só exige a submissão real da força de trabalho ao domínio das forças produtivas como também impõe aos trabalhadores (e aos proprietários do valor-capital) os ditames da acumulação de riqueza abstrata. A acumulação de mais dinheiro mediante o uso do dinheiro para capturar mais valor sob a forma monetária suscita a transfiguração das formas de expansão do valor, isto é, impõe o predomínio das formas "desenvolvidas": o capital a juros, o dinheiro de crédito e o capital fictício. Nessas formas, o dinheiro-capital realiza o seu conceito de valor que se valoriza e tenta continuamente romper os seus próprios limites ao buscar o acrescentamento do valor sem a mediação da mercadoria força de trabalho. "D-M-D" se converte em "D-D".”

André Lara Resende
“A nostalgia do mundo perdido abre caminho para os novos críticos, mais duros, da sociedade capitalista. A crítica deixa de ser cultural, nostálgica. Passa a denunciar a capacidade destrutiva, desagregadora, das novas forças liberadas numa sociedade integralmente movida pelos interesses materiais. Assim como a valorização dos interesses individuais e do comércio atingiu seu ápice com David Hume e Adam Smith, a mudança de rumo dos ventos intelectuais, a partir do fim do século XVIII, culminou com Karl Marx, na segunda metade do século XIX.”


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Atualidade de Marx, em 1983.


Em 14 de março de 1983, para comemorar - com pontualidade germânica – os 100 anos da morte de Marx, Ernest Mandel escreve artigo sobre “A Atualidade do Marxismo” onde registra a capacidade do velho Karl de compreender “a dinâmica grandiosa e aterradora das revoluções tecnológicas inerentes ao modo de produção capitalista”. Embora tendo sido enviado para um campo de concentração, já no final da guerra, Mandel faleceu em julho de 1995, tendo, portanto, testemunhado a simbólica queda do muro. A frase final do trecho selecionado parece profeticamente elaborada para 2009 ou 2012 : “A grande depressão que atingiu o capitalismo internacional é uma clara confirmação da justeza da análise científica de Karl Marx. “

“O primeiro aspecto – o da capacidade de análise e de previsão científico – é particularmente positivo. Se compararmos o mundo de 1883, ao de 1983, se nos questionarmos se as transformações principais que se produziram são aquelas previstas por Marx e se elas resultam da natureza da sociedade burguesa e das contradições que a rasgam, tais que ele nos ensinou a conhecer, a resposta só pode ser "sim", sem nenhum "mas" importante.
Marx compreendeu, melhor que qualquer sábio ou moralista do seu tempo, a dinâmica grandiosa e aterradora das revoluções tecnológicas inerentes ao modo de produção capitalista, em função mesmo da propriedade privada, da economia de mercado, da concorrência e da sede insaciável que resulta da extorsão crescente da mais-valia do trabalho vivo afim de poder acumular sempre mais capital. Dinâmica grandiosa, porque ela contém a promessa de libertar o Trabalho de todo o esforço produtivo cansativo, não criador e alienante, graças à automatização. Dinâmica aterradora, por que ela conduz à transformação periódica das forças produtivas em forças destrutivas que sapam o progresso da humanidade, destroem o ambiente e arriscam a destruição de todo o planeta.
Ele compreendeu que da concorrência brotaria o monopólio, por sua vez submetido a uma concorrência cada vez mais feroz. Os pequenos capitais seriam absorvidos sem piedade ou esmagados pelos grandes. A sociedade burguesa evoluiria em direção de uma estrutura de forma piramidal, fundada sobre uma imensa maioria de salariados, mas se concentrando em cada país em algumas dezenas de firmas e grupos financeiros gigantescos e, à escala internacional, em algumas centenas de multinacionais que ditariam suas leis a todos os Estados burgueses e esmagariam trabalhadores e povos numa máquina infernal que subordina tudo ao imperativo do lucro.
Ele compreendeu que esta mesma máquina iria se avariar periodicamente, que o regime capitalista produziria, em intervalos regulares, crises econômicas e guerras, cujo custo humanitário aumentaria a longo termo ao ponto de se tornar insuportável e mesmo mortal. Hoje, esses apóstolos que pretenderam, durante os anos 50 e 60, que o Capital tinha finalmente exorcizado seus demônios, que ele garantiria o pleno emprego, o crescimento, o aumento do nível de vida e a paz eterna. A grande depressão que atingiu o capitalismo internacional é uma clara confirmação da justeza da análise científica de Karl Marx. “

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Amor sexual em Marx.


Marshall Berman abre um bom espaço em seu “Aventuras no marxismo” – tradução Sonia Moreira, Companhia das Letras – para o sexo na vida de Marx. Discorre, inclusive, sobre estimulante ambiente sexual do Quartier Latin quando o casal Marx/Jenny para lá se transfere, no início do casamento.
Selecionei um trecho onde Marshall fala do filho de Marx com a criada recebida como “presente de casamento” e a adoção por Engels.

“ Uma das principais forças propulsoras da síntese de Marx parece ter sido o amor sexual. Certos biógrafos já observaram, bem como até mesmo alguns policiais, que o casamento de Karl e Jenny, ainda que envolto em muita turbulência e sofrimento, foi um casamento apaixonado e feliz que durou quarenta anos e só terminou com a morte.
De fato, Marx foi um dos raros grandes pensadores de toda  a história que tiveram um casamento e uma vida familiar felizes. Alguns biógrafos se esforçaram bastante para aumentar as dimensões de todas as rachaduras que puderam encontrar na vida dele: em especial, o caso passageiro de Marx com sua governanta na década de 1850 e seu filho ilegítimo, “Freddy”, adotado por Engels, que viria tornar-se ativista do sindicato britânico dos trabalhadores. Mas mesmo esses biógrafos costumam admitir que não dispõem de muito material com que trabalhar neste sentido.
............................................................................................
Seigel mostra como o amor sexual desempenhou um papel vital na formação da identidade de Marx, ajudando a livrá-lo do isolamento psíquico e centrá-lo no mundo real. Marx pensou e escreveu muito sobre o amor sexual em meados da década de 1840,pouco depois de seu casamento, quando tentava perseguir o ideal de levar uma vida em meio às outras pessoas, como queria seu pai.”
..........................................................................................
Podemos perceber um leve vulto num outro comentário sobre o amor, feito na mesma época: o amor, diz Marx, é “a primeira coisa que ensina o homem a acreditar no mundo objetivo fora dele mesmo”.

domingo, 29 de julho de 2012

A onipresença de Marx. Deu na Exame.


O site da revista  de negócios Exame publicou, no dia 11/07/12, que a imagem do velho Karl passou a ilustrar cartões Master Card do banco alemão Sparkasse Chemnitz. Atual símbolo maior do fetichismo da mercadoria, o cartão de crédito reverencia a “descoberta” genial de Marx, quando as pessoas agem como coisas  e as coisas como pessoas. Segue um trecho da matéria.
“O filósofo alemão Karl Marx, fundador das bases teóricas do comunismo, quem diria, virou estampa de um grande símbolo do capitalismo, o cartão de crédito.
A ironia aconteceu na cidade de Chemnitz, no centro-leste da Alemanha, onde o banco Sparkasse Chemnitz, criou um cartão cuja ilustração é um busto de Marx, construído em 1953.
A imagem foi escolhida em uma votação popular pela internet, e teve na disputa 10 importantes instalações da cidade. A mais votada estamparia o cartão de crédito, da bandeira Mastercard.
O busto de Marx venceu com 35% dos votos, à frente de castelos da Idade Média, e do escudo de um time de futebol da região.”

sábado, 28 de julho de 2012

Vida doméstica


Nesta 2ª década do século 21, quando menos se espera, está presente o velho Karl. Desta vez, quem me chamou a atenção foi Thereza, dublê de companheira e leitora voraz, interrompendo a leitura de “Em casa. Uma breve história da vida doméstica”, de Bill Bryson ( tradução de Isa Mara Lando – editado pela Cia das Letras). Segue o trecho em que o autor passa uma visão “doméstica” de Marx e relata, inclusive, a transa com a criada recebida como “presente de casamento” da nobre família de Jenny. É fato notório que o eterno quebrador de galhos Engels assume a paternidade. A descrição do ambiente não bate com a de Paul Lafargue, genro de Marx ao descrever a residência de Maitland Park Road,41.

“Karl Marx, vivendo no Soho, em Londres, cronicamente endividado e muitas vezes mal conseguindo pôr comida na mesa, empregava uma governanta e um secretário pessoal. A casa era tão superlotada que o secretário – um homem chamado Pieper – tinha que dormir com Marx na mesma cama. (Mesmo assim, de algum jeito, Marx conseguiu arranjar momentos de privacidade para seduzir e engravidar a governanta, que lhe deu um filho no ano da Grande Exposição.)”

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Marxismo como teoria "finita".


Em abril de 1978, Althusser publica o texto com o título acima. Nas primeiras linhas critica  os “vestígios” da juventude que, segundo ele, estão presentes em O Capital. No final do trecho selecionado, defende que “somente uma teoria "finita" pode ser realmente "aberta" às tendências contraditórias que descobre na sociedade capitalista, e aberta ao seu devenir aleatório, aberta às imprevisíveis "surpresas" que sempre marcaram a história do movimento operário; aberta, portanto atenta, capaz de levar a sério e assumir em tempo a incorrigível imaginação da história”.
“Tão logo se liberta dos tons proféticos dos seus escritos de juventude e do socialismo utópico (que, diga-se de passagem, ainda permanecem, de certo modo, em O capital), Marx pensa o comunismo como uma tendência da sociedade capitalista. Essa tendência não é uma resultante abstrata. Existem já, concretamente, nos "interstícios da sociedade capitalista" (assim como existiam as trocas mercantis nos "interstícios da sociedade escravista e feudal") formas virtuais de comunismo: como nas formas de associação que, guardadas as devidas proporções, tendem a escapar das relações de mercado.
Por trás dessas questões há um problema teórico muito importante. Eu creio que a teoria marxista é "finita", limitada: que ela é limitada à análise do modo de produção capitalista, e de sua tendência contraditória, que abre a possibilidade da passagem para a abolição do capitalismo e sua substituição por "outra coisa", que se delineia já "como um vazio" e positivamente, na sociedade capitalista. Dizer que a teoria marxista é "finita" significa sustentar a idéia essencial de que a teoria marxista é totalmente distinta de uma filosofia da história, que pretenda "englobar" todo o devenir da humanidade pensando-o efetivamente, e que seria, portanto, capaz de definir, antecipadamente e de modo positivo, o seu fim: o comunismo. A teoria marxista (se se deixa de lado a tentação de uma filosofia da história, à qual o próprio Marx às vezes cedeu, e que dominou de modo esmagador a Segunda Internacional e o período staliniano) está inscrita na fase atual existente, e é limitada a ela: a fase da exploração capitalista. Tudo que ela pode dizer do futuro é o prolongamento alusivo e em negativo da possibilidade objetiva de uma tendência atual, a tendência ao comunismo, que pode ser observada em toda uma série de fenômenos da sociedade capitalista (da socialização da produção às formas sociais "intersticiais"). É preciso observar que é a partir da sociedade atual que pode ser pensada a transição (ditadura do proletariado, sob a condição de não se desvirtuar instrumentalmente esta expressão) e a extinção ulterior do Estado. Tudo o que se diz sobre a transição só pode ser uma indicação induzida por uma tendência atual que, como toda tendência em Marx é contraposta a outras tendências e só pode se realizar por meio de uma luta política. Porém, esta realidade não pode ser prevista já na sua forma positiva determinada: é apenas no curso da luta que as formas positivas podem aparecer à luz do dia, se descobrir, se tornar realidade.
Conseqüentemente, a idéia de que a teoria marxista é "finita" exclui totalmente a idéia de que ela seja uma teoria "fechada". Fechada é a filosofia da história, na qual está antecipadamente contido todo o curso da história. Somente uma teoria "finita" pode ser realmente "aberta" às tendências contraditórias que descobre na sociedade capitalista, e aberta ao seu devenir aleatório, aberta às imprevisíveis "surpresas" que sempre marcaram a história do movimento operário; aberta, portanto atenta, capaz de levar a sério e assumir em tempo a incorrigível imaginação da história.

sábado, 14 de julho de 2012

A forma social da mercadoria.


Os professores Ciro Bezerra e Sandra  Regina Paes assinam a tese “A fetichização do conhecimento no contexto do Capitalismo Contemporâneo” Selecionei um texto onde os autores começam enfatizando que o caráter místico da mercadoria não provém do valor de uso e  nem do conteúdo das determinações de valor, mas da autonomização das coisas objetivadas pelos produtores. E terminam com a pergunta de Marx “de onde provém, então, o caráter enigmático do produto do trabalho, tão logo ele assume a forma mercadoria”? E com sua resposta categórica: “da própria forma social da mercadoria”.

“Segundo Marx, “o caráter místico da mercadoria não provém, portanto, de seu valor de uso, tampouco do conteúdo das determinações de valor” (Marx, 1985: 70), mas da autonomização das coisas objetivadas pelos produtores que, na modernidade capitalista, assume a forma de mercadoria.
Conseqüentemente, o conhecimento tende a ser mistificado quando assume a forma de mercadoria, quando se objetiva nas relações sociais de produção como conhecimento-mercadoria. Por essa razão, é importante explicar como ocorre esse processo. A mistificação é explicada por Marx quando a forma mercadoria exerce o seu império através da personificação das formas sociais pelas pessoas.
Marx rejeita a possibilidade de as formas de sociabilidade orientadas pelo valor de
uso se sujeitarem ao fetichismo da mercadoria. No processo dinâmico das sociedades em que as “comodidades” ainda não adquiriram proporções dominantes, as relações de produção e as formas sociais a elas vinculadas não podem desenvolver o fenômeno fetichista, pois os produtores ainda não foram expropriados dos meios necessários à reprodução da existência.
Conseqüentemente, a produção e apropriação social do conhecimento ainda não foi expropriada pelo capital, centralizada e concentrada sob o seu controle. Nas sociedades pré-capitalistas eles produzem para si, para a subsistência. Neste contexto, o conhecimento necessário à reprodução da vida é transparente aos olhos dos produtores e não há exclusividade em sua produção e apropriação.
Essa realidade muda quando entram em cena as determinações sociais da reprodução sociometabólica do capital, aquelas que inauguram propriamente a era da modernidade capitalista. Marx enumera os motivos que impedem o fetichismo de se manifestar antes da modernidade capitalista. Nas sociedades pré-modernas predominavam as seguintes características: (1º) o trabalho funcionava como
extensão do organismo humano; (2º) o número de horas de trabalho era definido pelas necessidades imediatas de subsistência; (3º) o fato de existir excedente econômico não determina a autonomização do produto do trabalho como mercadoria, apenas explicita o caráter de sociabilidade decorrente da evolução do trabalho humano.
Como esclarece Marx:
Primeiro, por mais que se diferenciem os trabalhos úteis ou atividades produtivas, é uma verdade fisiológica que eles são funções do organismo humano e que cada uma dessas funções, qualquer que seja seu conteúdo ou forma, é essencialmente dispêndio de cérebro, nervos, músculos, sentidos humanos, etc;
Segundo, quanto ao que serve de base à determinação da grandeza de valor, a duração daquele dispêndio ou a quantidade do trabalho, a quantidade é distinguível até pelos sentidos da qualidade do trabalho. Sob todas as condições, o tempo de trabalho, que custa a produção dos meios de subsistência, havia de interessar ao homem, embora não igualmente nos diferentes estágios de desenvolvimento;
Finalmente, tão logo os homens trabalham uns para os outros de alguma maneira, seu trabalho adquire também uma forma social (Marx, 1985a: 70).
Marx se pergunta: “de onde provém, então, o caráter enigmático do produto do
trabalho, tão logo ele assume a forma mercadoria”? (Marx, 1985a: 70). A resposta é categórica: da própria forma social da mercadoria.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Estado Hegeliano versus Estado Marxista.


José Paulo Bandeira da Silva, publica na Acantus 79 um precioso estudo sobre a “Nova ciência política da comunicação”. Na parte final do texto, faz uma comparação entre o conceito de Estado de Hegel e de Marx. Para Hegel, o Estado detém o poder; para Marx - ao contrário – “o poder de Estado é sempre o exercício de poder de uma classe social”.

“Há duas concepções modernas básicas do Estado. Na primeira, Hegel definiu o Estado-sujeito. Tal Estado hegeliano é um Estado ético, educador, um Estado civilizatório. Na versão hegeliana, o Estado detém o poder. Esta concepção foi desenvolvida, no século XX, por Gramsci no marxismo ocidental. É a fórmula do Estado ampliado, do Estado-hegemônico, do Estado dos aparelhos de hegemonia de uma classe social. Em Hegel, a burocracia estatal é um categoria universal; ela está além dos interesses particulares, privados, capitalistas e das práticas políticas particulares e dos aparelhos sociais da sociedade civil. Nesta posição, o Estado universal tem a consistência para assegurar a unidade de um país, de uma nação e de outras formações sociais. Em Gramsci, o Estado- hegemônico é uma estratégia do poder burguês para assegurar a dominação de classe. Nesta estratégia, o Estado articula uma adesão cultural das classes subalternas à civilização moderna. A crítica da civilização moderna é o método de Gramsci para estabelecer a estratégia da revolução socialista no século XX. Mas em Gramsci, o poder de Estado é exercido, por uma classe social, nos aparelhos de hegemonia da classe dominante.
Em Marx, há a concepção do Estado-coisa, Estado- instrumento de uma classe social dominante. Para Marx, o Estado não detém poder. O poder de Estado é sempre o exercício de poder de uma classe social. E para Marx, o Estado liberal é apenas o uso de violência social, isto é, um aparelho de repressão. O Estado liberal só é civilizatório no plano da ideologia. Há uma confluência das concepções de Hegel e Marx em Weber. Para este, o Estado moderno é a probabilidade dele possuir o monopólio legítimo da força física: Estado-coação. Trata-se de um conceito virtual. Além da repressão, o Estado moderno existe como um tipo puro de dominação weberiana.
Para Weber, a dominação racional-legal, dominação burocrático-moderna, pode existir como um mecanismo de integração dos indivíduos à ordem moderna. Uma leitura hegeliana de Weber, já usa esta idéia para caracterizar a burocracia como um discurso social. Nesta leitura, o Estado é o uso da violência mais um discurso social. Neste caso, o Estado não é apenas a soma dos aparelhos de Estado, das instituições, dos grupos que o povoam, das práticas administrativas e dos indivíduos que tomam as decisões. Aqui, a burocracia é matriz simbólica de um determinado discurso social. Este existe no funcionamento dos aparelhos, das instituições, das práticas estatais, das ações individuais dos agentes estatais, dos grupos estatais, das redes de poder e de fluxos econômicos que amealham permanentemente o Estado e sobredeterminam todo o resto: aparelhos, instituições etc. Nesta leitura, o Estado existe em função de um campo de poder. Trata-se de um campo de relações de forças que funciona através das redes de poder e de fluxos de uma economia geral do excedente econômico.
Na questão do Estado, Foucault segue Marx. Para ele assim como para Marx, o Estado não é o poder. O Estado é uma instituição, e as instituições: ” São práticas, mecanismos operatórios que não explicam o poder, já que supõe as relações e se contentam em fixá-las sob uma função reprodutora e não produtiva”(6). Na era moderna, a forma-estado capturou um número considerável de relações de poder e isto é a “estatização contínua” – na ordem pedagógica, na judiciária, na econômica, na familiar, na sexual – visando uma integração global. uma linha de força geral no campo dos poderes. Para Foucault, o “governo”( o poder de afetar sob todos os aspectos o ” modo de governar” as crianças, as almas, os doentes etc.) ilumina mais o poder do que o Estado.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Althusser versus fetichismo.


O caráter fetichista da mercadoria é um dos “divisores de água” das diversas correntes marxistas. Althusser, por exemplo, sugeria “pular” a primeira secção do livro I do Capital, que considerava muito “metafísico” e marcado pelo hegelianismo. Se lhe fosse dada a oportunidade, talvez Althusser estrangulasse o parágrafo 4 da primeira secção – “O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo” – como fez com sua mulher Hélène Rytmann, em 16 de novembro de 1980.......

domingo, 1 de julho de 2012

Fetichismo na URSS e na China.


O professor da UFRJ, José Paulo Bandeira da Silveira, escreve artigo sobre Althusser – www.cce.ufsc.br/~fialho/BasesCogInfo/material/.../Althusser.doc - onde faz estimulante reflexão sobre o fetichismo no capitalismo de estado da URSS e da China de nossos dias. Silveira afirma que “na China, o Estado introduz o fetichismo do dinheiro e o fetichismo da mercadoria com o enclave das corporações capitalista mundiais”. E que “na URSS, as máfias russas são o agente da introdução do fetichismo do dinheiro na era final do colapso da sociedade soviética”. Segue um pequeno trecho.

“O fetichismo da mercadoria é a lógica do significante - ele é o modelo de lógica do significante como ideologia - que gera uma estrutura ideológica sob a soberania do dinheiro (Grundrisse).
Marx diz que o dinheiro é o nexo coisificado da sociedade, a verdadeira entidade comunitária que ocupou o lugar da antiga entidade comunitária, mantida em sua coesão por laços naturais e relações de dependência pessoal.
Destacando a questão do dinheiro, este existe para a sociedade capitalista como uma forma de produção das relações sociais. Ele existe como o significante-universal do laço capitalista. Este poder produtivo é o poder que gera e regenera a sociedade capitalista.
Na forma pura do capitalismo, a URSS e a China trocaram o poder do dinheiro pelo poder do capitalismo de Estado na produção e reprodução da sociedade. Estes países criaram um cotidiano liberado do fetichismo do dinheiro e do fetichismo da mercadoria. Uma parte considerável da humanidade viveu o século XX como fim da sociedade capitalista.
O partido revolucionário proletário foi o agente desta vasta e impressionante experiência histórica da humanidade. Curiosamente na URSS, as máfias russas são o agente da introdução do fetichismo do dinheiro na era final do colapso da sociedade soviética.
Na China, o Estado introduz o fetichismo do dinheiro e o fetichismo da mercadoria com o enclave das corporações capitalista mundiais. Hoje, a China usa o dinheiro como o significante universal na produção de duas sociedades capitalistas.
Trata-se da produção social de um nova sociedade capitalista na Ásia. Uma outra forma de ordem social capitalista está sendo inventada no mundo asiático. No Ocidente, o colapso das sociedades "socialistas" orientais pôs um ponto final no partido revolucionário do proletariado. Isto significou um derrota mundial e definitiva do capitalismo de Estado. Não foi uma derrota para o capitalismo ocidental, simplesmente. Esta derrota acabou com o recurso da planificação como modo de produzir uma sociedade livre do fetichismo da mercadoria e do fetichismo do dinheiro. O capitalismo de Estado deixou de existir como laço social, ou máquina ideológica de produção de um nova sociedade.”

domingo, 24 de junho de 2012

Marx em Maio.


 O Grupo de Estudos Marxistas - http://estudosmarxistas.wordpress.com - realizou nos dias 3, 4 e 5 de maio de 2012, na Faculdade de Letras de Lisboa o “Congresso Internacional Marx em Maio, perspectivas para o século 21”. No dizer dos organizadores, um “congresso multidisciplinar, que incluiu participantes das áreas da filosofia, da história e da economia, mas também das ciências naturais, das artes plásticas, da política e do mundo sindical, o seu fio condutor foi a atualidade e fertilidade do pensamento marxista enquanto instrumento fundamental de análise crítica”.
O site sobre o Congresso http://marxemmaio.wordpress.com/ apresenta dezenas de vídeos com palestras e entrevistas, além da íntegra dos trabalhos apresentados

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O papel do Estado na crise mundial.


Denis Collin afirma, em seu blog, que a crise financeira mundial confirma, de maneira clara, as análises do velho Karl. Segue minha tradução livre.

“A crise financeira de 2007/2008 e suas consequências confirmam de maneira clara as análises de Marx : o modo de  produção capitalista somente pode funcionar reproduzindo o capital sempre em uma escala  ampliada. Ou a busca de um processo de acumulação exige o recurso crescente ao credito e a todas as formas de investimento financeiro que permitam a distribuição, não de lucros reais, gerados no processo de produção, mas de ganhos antecipados, isto é, que não correspondam a um capital produtivo gerado pela mais valia.
É o que Marx chama de “capital fictício”. A massa do capital fictício terminou por incorporar o capital realmente investido, que é, ele mesmo, confrontado aos problemas crescentes de ajuste de valor, que Marx denominava de baixa tendencial  da taxa de lucro.
O exemplo da industria automobilística é particularmente esclarecedor para compreender, ao mesmo tempo, esta baixa das taxas de lucro e o peso crescente dos “produtos financeiros”.
Nesta situação e em uma escala gigantesca, encontramos ainda as análises de Marx sobre o papel da dívida pública na formação deste capital fictício. Que o Estado seja reduzido a “conselho de administração dos negócios comuns da burguesia” é certamente, desta maneira geral, uma concepção muito redutora. Durante as “trente glorieuses” ( obs. do tradutor: Período de grande crescimento de 1945 a 1973, nos países membros da OCDE, tb conhecido, na França, como a Revolução Invisível) o Estado foi o lugar da aposta nas lutas sociais para assegurar um desenvolvimento próximo da estabilidade do modo de produção capitalista, e  ele teve que proteger e , por vezes, organizar as conquistas sociais correspondentes às reivindicações dos assalariados.
Mas o se que chamou usando a expressão inadequada de “revolução neo-liberal” foi uma vasta operação política remetendo o Estado à sua clássica definição marxista.
A percepção da falência do sistema financeiro e sua consequência nos custos para os cidadãos acabou por reposicionar os governos como simples apoios de poder do capital financeiro.”