quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Atualidade de Marx, em 1983.


Em 14 de março de 1983, para comemorar - com pontualidade germânica – os 100 anos da morte de Marx, Ernest Mandel escreve artigo sobre “A Atualidade do Marxismo” onde registra a capacidade do velho Karl de compreender “a dinâmica grandiosa e aterradora das revoluções tecnológicas inerentes ao modo de produção capitalista”. Embora tendo sido enviado para um campo de concentração, já no final da guerra, Mandel faleceu em julho de 1995, tendo, portanto, testemunhado a simbólica queda do muro. A frase final do trecho selecionado parece profeticamente elaborada para 2009 ou 2012 : “A grande depressão que atingiu o capitalismo internacional é uma clara confirmação da justeza da análise científica de Karl Marx. “

“O primeiro aspecto – o da capacidade de análise e de previsão científico – é particularmente positivo. Se compararmos o mundo de 1883, ao de 1983, se nos questionarmos se as transformações principais que se produziram são aquelas previstas por Marx e se elas resultam da natureza da sociedade burguesa e das contradições que a rasgam, tais que ele nos ensinou a conhecer, a resposta só pode ser "sim", sem nenhum "mas" importante.
Marx compreendeu, melhor que qualquer sábio ou moralista do seu tempo, a dinâmica grandiosa e aterradora das revoluções tecnológicas inerentes ao modo de produção capitalista, em função mesmo da propriedade privada, da economia de mercado, da concorrência e da sede insaciável que resulta da extorsão crescente da mais-valia do trabalho vivo afim de poder acumular sempre mais capital. Dinâmica grandiosa, porque ela contém a promessa de libertar o Trabalho de todo o esforço produtivo cansativo, não criador e alienante, graças à automatização. Dinâmica aterradora, por que ela conduz à transformação periódica das forças produtivas em forças destrutivas que sapam o progresso da humanidade, destroem o ambiente e arriscam a destruição de todo o planeta.
Ele compreendeu que da concorrência brotaria o monopólio, por sua vez submetido a uma concorrência cada vez mais feroz. Os pequenos capitais seriam absorvidos sem piedade ou esmagados pelos grandes. A sociedade burguesa evoluiria em direção de uma estrutura de forma piramidal, fundada sobre uma imensa maioria de salariados, mas se concentrando em cada país em algumas dezenas de firmas e grupos financeiros gigantescos e, à escala internacional, em algumas centenas de multinacionais que ditariam suas leis a todos os Estados burgueses e esmagariam trabalhadores e povos numa máquina infernal que subordina tudo ao imperativo do lucro.
Ele compreendeu que esta mesma máquina iria se avariar periodicamente, que o regime capitalista produziria, em intervalos regulares, crises econômicas e guerras, cujo custo humanitário aumentaria a longo termo ao ponto de se tornar insuportável e mesmo mortal. Hoje, esses apóstolos que pretenderam, durante os anos 50 e 60, que o Capital tinha finalmente exorcizado seus demônios, que ele garantiria o pleno emprego, o crescimento, o aumento do nível de vida e a paz eterna. A grande depressão que atingiu o capitalismo internacional é uma clara confirmação da justeza da análise científica de Karl Marx. “

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Amor sexual em Marx.


Marshall Berman abre um bom espaço em seu “Aventuras no marxismo” – tradução Sonia Moreira, Companhia das Letras – para o sexo na vida de Marx. Discorre, inclusive, sobre estimulante ambiente sexual do Quartier Latin quando o casal Marx/Jenny para lá se transfere, no início do casamento.
Selecionei um trecho onde Marshall fala do filho de Marx com a criada recebida como “presente de casamento” e a adoção por Engels.

“ Uma das principais forças propulsoras da síntese de Marx parece ter sido o amor sexual. Certos biógrafos já observaram, bem como até mesmo alguns policiais, que o casamento de Karl e Jenny, ainda que envolto em muita turbulência e sofrimento, foi um casamento apaixonado e feliz que durou quarenta anos e só terminou com a morte.
De fato, Marx foi um dos raros grandes pensadores de toda  a história que tiveram um casamento e uma vida familiar felizes. Alguns biógrafos se esforçaram bastante para aumentar as dimensões de todas as rachaduras que puderam encontrar na vida dele: em especial, o caso passageiro de Marx com sua governanta na década de 1850 e seu filho ilegítimo, “Freddy”, adotado por Engels, que viria tornar-se ativista do sindicato britânico dos trabalhadores. Mas mesmo esses biógrafos costumam admitir que não dispõem de muito material com que trabalhar neste sentido.
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Seigel mostra como o amor sexual desempenhou um papel vital na formação da identidade de Marx, ajudando a livrá-lo do isolamento psíquico e centrá-lo no mundo real. Marx pensou e escreveu muito sobre o amor sexual em meados da década de 1840,pouco depois de seu casamento, quando tentava perseguir o ideal de levar uma vida em meio às outras pessoas, como queria seu pai.”
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Podemos perceber um leve vulto num outro comentário sobre o amor, feito na mesma época: o amor, diz Marx, é “a primeira coisa que ensina o homem a acreditar no mundo objetivo fora dele mesmo”.

domingo, 29 de julho de 2012

A onipresença de Marx. Deu na Exame.


O site da revista  de negócios Exame publicou, no dia 11/07/12, que a imagem do velho Karl passou a ilustrar cartões Master Card do banco alemão Sparkasse Chemnitz. Atual símbolo maior do fetichismo da mercadoria, o cartão de crédito reverencia a “descoberta” genial de Marx, quando as pessoas agem como coisas  e as coisas como pessoas. Segue um trecho da matéria.
“O filósofo alemão Karl Marx, fundador das bases teóricas do comunismo, quem diria, virou estampa de um grande símbolo do capitalismo, o cartão de crédito.
A ironia aconteceu na cidade de Chemnitz, no centro-leste da Alemanha, onde o banco Sparkasse Chemnitz, criou um cartão cuja ilustração é um busto de Marx, construído em 1953.
A imagem foi escolhida em uma votação popular pela internet, e teve na disputa 10 importantes instalações da cidade. A mais votada estamparia o cartão de crédito, da bandeira Mastercard.
O busto de Marx venceu com 35% dos votos, à frente de castelos da Idade Média, e do escudo de um time de futebol da região.”

sábado, 28 de julho de 2012

Vida doméstica


Nesta 2ª década do século 21, quando menos se espera, está presente o velho Karl. Desta vez, quem me chamou a atenção foi Thereza, dublê de companheira e leitora voraz, interrompendo a leitura de “Em casa. Uma breve história da vida doméstica”, de Bill Bryson ( tradução de Isa Mara Lando – editado pela Cia das Letras). Segue o trecho em que o autor passa uma visão “doméstica” de Marx e relata, inclusive, a transa com a criada recebida como “presente de casamento” da nobre família de Jenny. É fato notório que o eterno quebrador de galhos Engels assume a paternidade. A descrição do ambiente não bate com a de Paul Lafargue, genro de Marx ao descrever a residência de Maitland Park Road,41.

“Karl Marx, vivendo no Soho, em Londres, cronicamente endividado e muitas vezes mal conseguindo pôr comida na mesa, empregava uma governanta e um secretário pessoal. A casa era tão superlotada que o secretário – um homem chamado Pieper – tinha que dormir com Marx na mesma cama. (Mesmo assim, de algum jeito, Marx conseguiu arranjar momentos de privacidade para seduzir e engravidar a governanta, que lhe deu um filho no ano da Grande Exposição.)”

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Marxismo como teoria "finita".


Em abril de 1978, Althusser publica o texto com o título acima. Nas primeiras linhas critica  os “vestígios” da juventude que, segundo ele, estão presentes em O Capital. No final do trecho selecionado, defende que “somente uma teoria "finita" pode ser realmente "aberta" às tendências contraditórias que descobre na sociedade capitalista, e aberta ao seu devenir aleatório, aberta às imprevisíveis "surpresas" que sempre marcaram a história do movimento operário; aberta, portanto atenta, capaz de levar a sério e assumir em tempo a incorrigível imaginação da história”.
“Tão logo se liberta dos tons proféticos dos seus escritos de juventude e do socialismo utópico (que, diga-se de passagem, ainda permanecem, de certo modo, em O capital), Marx pensa o comunismo como uma tendência da sociedade capitalista. Essa tendência não é uma resultante abstrata. Existem já, concretamente, nos "interstícios da sociedade capitalista" (assim como existiam as trocas mercantis nos "interstícios da sociedade escravista e feudal") formas virtuais de comunismo: como nas formas de associação que, guardadas as devidas proporções, tendem a escapar das relações de mercado.
Por trás dessas questões há um problema teórico muito importante. Eu creio que a teoria marxista é "finita", limitada: que ela é limitada à análise do modo de produção capitalista, e de sua tendência contraditória, que abre a possibilidade da passagem para a abolição do capitalismo e sua substituição por "outra coisa", que se delineia já "como um vazio" e positivamente, na sociedade capitalista. Dizer que a teoria marxista é "finita" significa sustentar a idéia essencial de que a teoria marxista é totalmente distinta de uma filosofia da história, que pretenda "englobar" todo o devenir da humanidade pensando-o efetivamente, e que seria, portanto, capaz de definir, antecipadamente e de modo positivo, o seu fim: o comunismo. A teoria marxista (se se deixa de lado a tentação de uma filosofia da história, à qual o próprio Marx às vezes cedeu, e que dominou de modo esmagador a Segunda Internacional e o período staliniano) está inscrita na fase atual existente, e é limitada a ela: a fase da exploração capitalista. Tudo que ela pode dizer do futuro é o prolongamento alusivo e em negativo da possibilidade objetiva de uma tendência atual, a tendência ao comunismo, que pode ser observada em toda uma série de fenômenos da sociedade capitalista (da socialização da produção às formas sociais "intersticiais"). É preciso observar que é a partir da sociedade atual que pode ser pensada a transição (ditadura do proletariado, sob a condição de não se desvirtuar instrumentalmente esta expressão) e a extinção ulterior do Estado. Tudo o que se diz sobre a transição só pode ser uma indicação induzida por uma tendência atual que, como toda tendência em Marx é contraposta a outras tendências e só pode se realizar por meio de uma luta política. Porém, esta realidade não pode ser prevista já na sua forma positiva determinada: é apenas no curso da luta que as formas positivas podem aparecer à luz do dia, se descobrir, se tornar realidade.
Conseqüentemente, a idéia de que a teoria marxista é "finita" exclui totalmente a idéia de que ela seja uma teoria "fechada". Fechada é a filosofia da história, na qual está antecipadamente contido todo o curso da história. Somente uma teoria "finita" pode ser realmente "aberta" às tendências contraditórias que descobre na sociedade capitalista, e aberta ao seu devenir aleatório, aberta às imprevisíveis "surpresas" que sempre marcaram a história do movimento operário; aberta, portanto atenta, capaz de levar a sério e assumir em tempo a incorrigível imaginação da história.

sábado, 14 de julho de 2012

A forma social da mercadoria.


Os professores Ciro Bezerra e Sandra  Regina Paes assinam a tese “A fetichização do conhecimento no contexto do Capitalismo Contemporâneo” Selecionei um texto onde os autores começam enfatizando que o caráter místico da mercadoria não provém do valor de uso e  nem do conteúdo das determinações de valor, mas da autonomização das coisas objetivadas pelos produtores. E terminam com a pergunta de Marx “de onde provém, então, o caráter enigmático do produto do trabalho, tão logo ele assume a forma mercadoria”? E com sua resposta categórica: “da própria forma social da mercadoria”.

“Segundo Marx, “o caráter místico da mercadoria não provém, portanto, de seu valor de uso, tampouco do conteúdo das determinações de valor” (Marx, 1985: 70), mas da autonomização das coisas objetivadas pelos produtores que, na modernidade capitalista, assume a forma de mercadoria.
Conseqüentemente, o conhecimento tende a ser mistificado quando assume a forma de mercadoria, quando se objetiva nas relações sociais de produção como conhecimento-mercadoria. Por essa razão, é importante explicar como ocorre esse processo. A mistificação é explicada por Marx quando a forma mercadoria exerce o seu império através da personificação das formas sociais pelas pessoas.
Marx rejeita a possibilidade de as formas de sociabilidade orientadas pelo valor de
uso se sujeitarem ao fetichismo da mercadoria. No processo dinâmico das sociedades em que as “comodidades” ainda não adquiriram proporções dominantes, as relações de produção e as formas sociais a elas vinculadas não podem desenvolver o fenômeno fetichista, pois os produtores ainda não foram expropriados dos meios necessários à reprodução da existência.
Conseqüentemente, a produção e apropriação social do conhecimento ainda não foi expropriada pelo capital, centralizada e concentrada sob o seu controle. Nas sociedades pré-capitalistas eles produzem para si, para a subsistência. Neste contexto, o conhecimento necessário à reprodução da vida é transparente aos olhos dos produtores e não há exclusividade em sua produção e apropriação.
Essa realidade muda quando entram em cena as determinações sociais da reprodução sociometabólica do capital, aquelas que inauguram propriamente a era da modernidade capitalista. Marx enumera os motivos que impedem o fetichismo de se manifestar antes da modernidade capitalista. Nas sociedades pré-modernas predominavam as seguintes características: (1º) o trabalho funcionava como
extensão do organismo humano; (2º) o número de horas de trabalho era definido pelas necessidades imediatas de subsistência; (3º) o fato de existir excedente econômico não determina a autonomização do produto do trabalho como mercadoria, apenas explicita o caráter de sociabilidade decorrente da evolução do trabalho humano.
Como esclarece Marx:
Primeiro, por mais que se diferenciem os trabalhos úteis ou atividades produtivas, é uma verdade fisiológica que eles são funções do organismo humano e que cada uma dessas funções, qualquer que seja seu conteúdo ou forma, é essencialmente dispêndio de cérebro, nervos, músculos, sentidos humanos, etc;
Segundo, quanto ao que serve de base à determinação da grandeza de valor, a duração daquele dispêndio ou a quantidade do trabalho, a quantidade é distinguível até pelos sentidos da qualidade do trabalho. Sob todas as condições, o tempo de trabalho, que custa a produção dos meios de subsistência, havia de interessar ao homem, embora não igualmente nos diferentes estágios de desenvolvimento;
Finalmente, tão logo os homens trabalham uns para os outros de alguma maneira, seu trabalho adquire também uma forma social (Marx, 1985a: 70).
Marx se pergunta: “de onde provém, então, o caráter enigmático do produto do
trabalho, tão logo ele assume a forma mercadoria”? (Marx, 1985a: 70). A resposta é categórica: da própria forma social da mercadoria.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Estado Hegeliano versus Estado Marxista.


José Paulo Bandeira da Silva, publica na Acantus 79 um precioso estudo sobre a “Nova ciência política da comunicação”. Na parte final do texto, faz uma comparação entre o conceito de Estado de Hegel e de Marx. Para Hegel, o Estado detém o poder; para Marx - ao contrário – “o poder de Estado é sempre o exercício de poder de uma classe social”.

“Há duas concepções modernas básicas do Estado. Na primeira, Hegel definiu o Estado-sujeito. Tal Estado hegeliano é um Estado ético, educador, um Estado civilizatório. Na versão hegeliana, o Estado detém o poder. Esta concepção foi desenvolvida, no século XX, por Gramsci no marxismo ocidental. É a fórmula do Estado ampliado, do Estado-hegemônico, do Estado dos aparelhos de hegemonia de uma classe social. Em Hegel, a burocracia estatal é um categoria universal; ela está além dos interesses particulares, privados, capitalistas e das práticas políticas particulares e dos aparelhos sociais da sociedade civil. Nesta posição, o Estado universal tem a consistência para assegurar a unidade de um país, de uma nação e de outras formações sociais. Em Gramsci, o Estado- hegemônico é uma estratégia do poder burguês para assegurar a dominação de classe. Nesta estratégia, o Estado articula uma adesão cultural das classes subalternas à civilização moderna. A crítica da civilização moderna é o método de Gramsci para estabelecer a estratégia da revolução socialista no século XX. Mas em Gramsci, o poder de Estado é exercido, por uma classe social, nos aparelhos de hegemonia da classe dominante.
Em Marx, há a concepção do Estado-coisa, Estado- instrumento de uma classe social dominante. Para Marx, o Estado não detém poder. O poder de Estado é sempre o exercício de poder de uma classe social. E para Marx, o Estado liberal é apenas o uso de violência social, isto é, um aparelho de repressão. O Estado liberal só é civilizatório no plano da ideologia. Há uma confluência das concepções de Hegel e Marx em Weber. Para este, o Estado moderno é a probabilidade dele possuir o monopólio legítimo da força física: Estado-coação. Trata-se de um conceito virtual. Além da repressão, o Estado moderno existe como um tipo puro de dominação weberiana.
Para Weber, a dominação racional-legal, dominação burocrático-moderna, pode existir como um mecanismo de integração dos indivíduos à ordem moderna. Uma leitura hegeliana de Weber, já usa esta idéia para caracterizar a burocracia como um discurso social. Nesta leitura, o Estado é o uso da violência mais um discurso social. Neste caso, o Estado não é apenas a soma dos aparelhos de Estado, das instituições, dos grupos que o povoam, das práticas administrativas e dos indivíduos que tomam as decisões. Aqui, a burocracia é matriz simbólica de um determinado discurso social. Este existe no funcionamento dos aparelhos, das instituições, das práticas estatais, das ações individuais dos agentes estatais, dos grupos estatais, das redes de poder e de fluxos econômicos que amealham permanentemente o Estado e sobredeterminam todo o resto: aparelhos, instituições etc. Nesta leitura, o Estado existe em função de um campo de poder. Trata-se de um campo de relações de forças que funciona através das redes de poder e de fluxos de uma economia geral do excedente econômico.
Na questão do Estado, Foucault segue Marx. Para ele assim como para Marx, o Estado não é o poder. O Estado é uma instituição, e as instituições: ” São práticas, mecanismos operatórios que não explicam o poder, já que supõe as relações e se contentam em fixá-las sob uma função reprodutora e não produtiva”(6). Na era moderna, a forma-estado capturou um número considerável de relações de poder e isto é a “estatização contínua” – na ordem pedagógica, na judiciária, na econômica, na familiar, na sexual – visando uma integração global. uma linha de força geral no campo dos poderes. Para Foucault, o “governo”( o poder de afetar sob todos os aspectos o ” modo de governar” as crianças, as almas, os doentes etc.) ilumina mais o poder do que o Estado.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Althusser versus fetichismo.


O caráter fetichista da mercadoria é um dos “divisores de água” das diversas correntes marxistas. Althusser, por exemplo, sugeria “pular” a primeira secção do livro I do Capital, que considerava muito “metafísico” e marcado pelo hegelianismo. Se lhe fosse dada a oportunidade, talvez Althusser estrangulasse o parágrafo 4 da primeira secção – “O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo” – como fez com sua mulher Hélène Rytmann, em 16 de novembro de 1980.......

domingo, 1 de julho de 2012

Fetichismo na URSS e na China.


O professor da UFRJ, José Paulo Bandeira da Silveira, escreve artigo sobre Althusser – www.cce.ufsc.br/~fialho/BasesCogInfo/material/.../Althusser.doc - onde faz estimulante reflexão sobre o fetichismo no capitalismo de estado da URSS e da China de nossos dias. Silveira afirma que “na China, o Estado introduz o fetichismo do dinheiro e o fetichismo da mercadoria com o enclave das corporações capitalista mundiais”. E que “na URSS, as máfias russas são o agente da introdução do fetichismo do dinheiro na era final do colapso da sociedade soviética”. Segue um pequeno trecho.

“O fetichismo da mercadoria é a lógica do significante - ele é o modelo de lógica do significante como ideologia - que gera uma estrutura ideológica sob a soberania do dinheiro (Grundrisse).
Marx diz que o dinheiro é o nexo coisificado da sociedade, a verdadeira entidade comunitária que ocupou o lugar da antiga entidade comunitária, mantida em sua coesão por laços naturais e relações de dependência pessoal.
Destacando a questão do dinheiro, este existe para a sociedade capitalista como uma forma de produção das relações sociais. Ele existe como o significante-universal do laço capitalista. Este poder produtivo é o poder que gera e regenera a sociedade capitalista.
Na forma pura do capitalismo, a URSS e a China trocaram o poder do dinheiro pelo poder do capitalismo de Estado na produção e reprodução da sociedade. Estes países criaram um cotidiano liberado do fetichismo do dinheiro e do fetichismo da mercadoria. Uma parte considerável da humanidade viveu o século XX como fim da sociedade capitalista.
O partido revolucionário proletário foi o agente desta vasta e impressionante experiência histórica da humanidade. Curiosamente na URSS, as máfias russas são o agente da introdução do fetichismo do dinheiro na era final do colapso da sociedade soviética.
Na China, o Estado introduz o fetichismo do dinheiro e o fetichismo da mercadoria com o enclave das corporações capitalista mundiais. Hoje, a China usa o dinheiro como o significante universal na produção de duas sociedades capitalistas.
Trata-se da produção social de um nova sociedade capitalista na Ásia. Uma outra forma de ordem social capitalista está sendo inventada no mundo asiático. No Ocidente, o colapso das sociedades "socialistas" orientais pôs um ponto final no partido revolucionário do proletariado. Isto significou um derrota mundial e definitiva do capitalismo de Estado. Não foi uma derrota para o capitalismo ocidental, simplesmente. Esta derrota acabou com o recurso da planificação como modo de produzir uma sociedade livre do fetichismo da mercadoria e do fetichismo do dinheiro. O capitalismo de Estado deixou de existir como laço social, ou máquina ideológica de produção de um nova sociedade.”

domingo, 24 de junho de 2012

Marx em Maio.


 O Grupo de Estudos Marxistas - http://estudosmarxistas.wordpress.com - realizou nos dias 3, 4 e 5 de maio de 2012, na Faculdade de Letras de Lisboa o “Congresso Internacional Marx em Maio, perspectivas para o século 21”. No dizer dos organizadores, um “congresso multidisciplinar, que incluiu participantes das áreas da filosofia, da história e da economia, mas também das ciências naturais, das artes plásticas, da política e do mundo sindical, o seu fio condutor foi a atualidade e fertilidade do pensamento marxista enquanto instrumento fundamental de análise crítica”.
O site sobre o Congresso http://marxemmaio.wordpress.com/ apresenta dezenas de vídeos com palestras e entrevistas, além da íntegra dos trabalhos apresentados

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O papel do Estado na crise mundial.


Denis Collin afirma, em seu blog, que a crise financeira mundial confirma, de maneira clara, as análises do velho Karl. Segue minha tradução livre.

“A crise financeira de 2007/2008 e suas consequências confirmam de maneira clara as análises de Marx : o modo de  produção capitalista somente pode funcionar reproduzindo o capital sempre em uma escala  ampliada. Ou a busca de um processo de acumulação exige o recurso crescente ao credito e a todas as formas de investimento financeiro que permitam a distribuição, não de lucros reais, gerados no processo de produção, mas de ganhos antecipados, isto é, que não correspondam a um capital produtivo gerado pela mais valia.
É o que Marx chama de “capital fictício”. A massa do capital fictício terminou por incorporar o capital realmente investido, que é, ele mesmo, confrontado aos problemas crescentes de ajuste de valor, que Marx denominava de baixa tendencial  da taxa de lucro.
O exemplo da industria automobilística é particularmente esclarecedor para compreender, ao mesmo tempo, esta baixa das taxas de lucro e o peso crescente dos “produtos financeiros”.
Nesta situação e em uma escala gigantesca, encontramos ainda as análises de Marx sobre o papel da dívida pública na formação deste capital fictício. Que o Estado seja reduzido a “conselho de administração dos negócios comuns da burguesia” é certamente, desta maneira geral, uma concepção muito redutora. Durante as “trente glorieuses” ( obs. do tradutor: Período de grande crescimento de 1945 a 1973, nos países membros da OCDE, tb conhecido, na França, como a Revolução Invisível) o Estado foi o lugar da aposta nas lutas sociais para assegurar um desenvolvimento próximo da estabilidade do modo de produção capitalista, e  ele teve que proteger e , por vezes, organizar as conquistas sociais correspondentes às reivindicações dos assalariados.
Mas o se que chamou usando a expressão inadequada de “revolução neo-liberal” foi uma vasta operação política remetendo o Estado à sua clássica definição marxista.
A percepção da falência do sistema financeiro e sua consequência nos custos para os cidadãos acabou por reposicionar os governos como simples apoios de poder do capital financeiro.”

terça-feira, 19 de junho de 2012

Sutilezas metafísicas do fetichismo.



Denis Collin, autor de “Compreender Marx” – editora Vozes, tradução de Jaime Clasen – tem produzido excelentes textos sobre o velho Karl em seu blog denis-collin.viabloga.com. Em « O caráter fetichista das mercadorias » avalia a secção IV, primeira parte, do Livro I do Capital que considera um dos capítulos filosoficamente mais importantes da obra central de Marx. Ali, Collin faz uma análise sutil das formas em que são feitas as trocas de mercadorias e se dedica a celebrar a metafísica do dinheiro.


“Embora aparentemente trivial, uma mercadoria é, na realidade,  uma "coisa complexa, cheia de sutilezas metafísicas e argúcias teológicas." Ela oculta um segredo. Não é nem no valor de uso dos bens nem no fato de que suas características são produtos do trabalho humano.
Este segredo está na transformação a que a que estão submetidas as relações entre os indivíduos, quando o trabalho humano não é mais trabalho para as necessidades imediatas, mas o trabalho para a produção do valor de troca. Se os produtos do trabalho humano adquirem um "caráter enigmático", quando transformados em mercadoria, isto tem origem em uma tríplice metamorfose: "O caráter de igualdade dos trabalhos humanos adquire a forma de valor dos produtos do trabalho; a medida dos trabalhos individuais por sua duração, adquire a forma da grandeza dos produtos do trabalho e, finalmente, os relatórios  dos produtores nos quais se afirmam o caráter social do trabalho, adquirem a forma de um relatório social dos produtos do trabalho. "Nessa metamorfose, os produtos do trabalho são, portanto, transformados em mercadorias, isto é, diz ainda Marx," em coisas que se enquadram ou não se enquadram dentro do significado, ou coisas sociais. " Na tentativa de desvendar o mistério das mercadorias, é preciso desvendar o conjunto das relações sociais.
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Para entender como uma relação social pode assumir a forma de uma relação entre as coisas, é preciso buscar uma analogia de outro campo, "na região nebulosa do mundo religioso." Marx desenvolve assim a tese do fetiche da mercadoria: "lá os produtos do cérebro humano têm a aparência de ser independentes, dotados de corpo particular, se comunicando com homens e entre si.  São produtos feitos pela mão do homem para o mercado. Isto é o que poderíamos chamar de fetichismo agregado aos produtos do trabalho e que se apresentam como mercadorias, fetichismo inseparável desse modo de produção. "
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Quanto mais se desenvolve esta divisão do trabalho, mais ela se transforma em uma divisão global do trabalho, mais a intermediação financeira toma seu lugar no processo conjunto de produção de riqueza, mais o fetichismo do dinheiro domina os pensamentos dos atores da vida econômica. Esta é  a realidade do conjunto da vida social que é transfigurado e torna-se irreconhecível no reinado nu e cru das finanças. Até que uma crise chegue de repente a varrer este mundo ilusório e provoque  uma chamada dolorosa para o real. “


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Fetichismo. O caráter místico das mercadorias.


Imagine duas bolsas femininas exatamente iguais – mesmas matérias primas, mesmo design, mesmo acabamento. Apenas uma pequena diferença: uma delas tem o DG, de Dolce e Gabana. A que porta o DG custa 10 vezes mais...... Na metade do século 19, o velho Karl antecipou a situação ao identificar o fetichismo das mercadorias. Ou como enfatiza Isaak Rabin, Marx vislumbrou “relações humanas por trás das relações entre as coisas, revelando a ilusão da consciência humana que se origina da economia mercantil”. Em meados do século 20, a fetichismo das mercadorias ganhou um apelido: Marketing.
Selecionei um trecho do excelente estudo de Felipe Augusto da Rocha Santos – “O fetichismo da mercadoria - um passeio entre Marx e a ''coisificação'' do trabalho humano” – que estimula uma reflexão.
“Tendo em vista a força da alienação, muitas pessoas passam a ver as mercadorias com vidas próprias, envoltas em um caráter místico. Os valores passam a fazer parte de uma suposta propriedade natural das coisas. Isso é o que Karl Marx chamou de caráter fetichista da mercadoria. A correlação íntima entre alguns dos conceitos presentes no marxismo, como a mais-valia, a alienação e a ideologia, é fundamental para uma melhor compreensão do fetichismo da mercadoria, por isso, esses conceitos são convenientemente abordados no presente trabalho.
Mas, em linhas gerais, o que Marx representou na concepção de fetichismo? Nas palavras de Isaak Rubin (1980, p.19),

Consiste em Marx ter visto relações humanas por trás das relações entre as coisas, revelando a ilusão da consciência humana que se origina da economia mercantil e atribui às coisas características que têm sua origem nas relações sociais entre as pessoas no processo de produção.
O que Marx enxergou brilhantemente, em "O Capital", foi o dispêndio de nervos, músculos e sentidos; o trabalho, essencialmente humano, converter-se em valor objetivo da mercadoria. O enigma do fetichismo dessa mercadoria se demonstra no momento em que, nas relações entre produtores, as mercadorias refletem as características sociais do trabalho como naturalmente intrínsecas às coisas. Por outro lado, "reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social existente fora deles, entre objetos" (MARX, 1996, p. 198). Coisificam-se as relações humanas e personificam-se as coisas.
Conceituar de forma plena o fetichismo que envolve a mercadoria é tarefa, de fato, complicada, obstaculizada pela própria forma como o conceito vai evoluindo ao longo da obra "O Capital". No entanto, serão aqui apresentadas mais algumas abordagens e a forma como a ideologia do capital reforça a sua propagação.
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O fetichismo, portanto, apresenta-se também de forma muito real, paradoxalmente, numa realidade muito concreta ante o misticismo que envolve a conceituação da face fetichista da mercadoria. Ainda em consonância com Rubin (1980, p. 73), ele não é só um fenômeno da consciência social, mas um fenômeno da própria existência social. Percebe-se que a sociedade adere ao fetichismo a partir do momento em que se resigna perante o estabelecido, que se distancia de sua organização e produção. Ela passa a se relacionar tão somente por meio de coisas que carregam em si essencialmente trabalho. Ainda que o pensamento se subverta e passe a ver a mercadoria pelo real trabalho que nela está inserido, o indivíduo permanecerá se relacionando por meio da mercadoria, ressuscitando o fetiche. Não se trata, pois, de mera questão de consciência individual, a questão passa pelas características do modo de produção burguês. O que fica claro, conforme aduz Marx (1996, p.201), é que "Todo o misticismo [...] das mercadorias, toda a magia e a fantasmagoria que enevoam os produtos de trabalho [...] desaparecem, por isso, imediatamente, tão logo nos refugiemos em outras formas de produção".




sábado, 26 de maio de 2012

Marx ecológico e a Rio 92


A Revista Eletrônica de Mestrado em Educação Ambiental publica, na edição janeiro/julho de 2010, o estudo de Eduardo Corrêa Morrone e Carlos Roberto da Silva Machado “A NATUREZA EM MARX E ENGELS: Contribuição ao debate da questão ambiental na atualidade”. Os autores procuram demonstrar a capacidade de Marx/Engels em antecipar o tema ecologia, a partir dos FORMEN (1857/8), da Critica ao Programa de Gotha (1875) – de Marx – e “Sobre o Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem” (1876) – de Engels. Com a humanidade se preparando para a Rio 92, vale um leitura do texto e a sempre oportuna revisita ao velho Karl. Íntegra do texto em www.remea.furg.br/edicoes/vol24/art4v24.pdf.
Selecionei um pequeno trecho para estimular a leitura integral.

“Na Crítica ao Programa de Gotha, redigido em 1875, quase duas décadas após o manuscrito das Formações Econômicas Pré-Capitalistas, Marx faz duras e embasadas críticas ao Programa elaborado pelo Partido Operário Alemão liderado por Lassalle. Isto porque, no inicio do programa é afirmado que o trabalho é a fonte de toda a riqueza, e poderíamos dizer atualizando o debate, de como alguns afirmam serem os trabalhadores a fonte de toda a riqueza. Ao redigir tais críticas inicia justamente pela temática da natureza postulando que ao contrário do que ficou expresso no programa, diz
“o trabalho não é fonte de toda riqueza. A natureza é a fonte dos valores de uso (os valores de uso são, de fato, a riqueza real!) tanto quanto o trabalho, trabalho que é expressão de uma força natural, a força de trabalho do homem. Esta frase repisada encontra-se em todos os manuais e só é verdadeira se for subentendido que o trabalho é anterior, e é executado com todos os instrumentos e procedimentos que o acompanham. Mas um programa socialista não pode permitir que essa fraseologia burguesa omita as condições que, só elas, lhe podem dar sentindo. Só enquanto o homem se coloca, desde o início, como proprietário em relação á natureza, a fonte primeira de todos os meios e objetos de trabalho, e a trata como se ela (a natureza) lhe pertencesse, é que o seu trabalho se converte em fonte de valores de uso e, portanto, em fonte de riqueza (MARX, 2004, p.125-126).”
O trabalho, enquanto produtor de valores de uso, ao transformar as matérias primas da fonte primeira da natureza, assume neste sistema uma forma – equivalente – de valor de troca para aquele que é o proprietário dos meios de produção, e portanto, controla as relações sociais a ele subjacente. A natureza é anterior ao trabalho e ao trabalhador, e somente, no sistema capitalista que o trabalho assume a forma que tem hoje, de assalariado, e produtor de valores de uso e de troca. Neste caso, valor de uso para quem compra e valor de troca para quem vende. Tal sentido, duplo e contraditório – da mercadoria, diz Henri Lefebvre, ser um dos menos compreendidos da produção de Marx em o Capital, pois pressupõe um pensar dialético que articulado numa mesma “coisa” um duplo sentido e significado. Poderíamos extrapolar para as relações com a natureza, ou seja, a natureza pode ter um sentido para nós – não capitalistas – e outra, para os capitalistas, que somente a veriam como fonte de recursos e de lucros. Mas, Marx indicando que Lassalle e seus adeptos, com tais formulações se aproximavam de interesses e concepções das classes dominantes:
“os burgueses têm razões de sobra para atribuir ao trabalho esse poder sobrenatural de criação: precisamente pelo fato de o trabalho estar na dependência da natureza se conclui que o homem que possuir apenas a força de trabalho será forçosamente, em qualquer estado [situação] social e de civilização, escravo de outros homens que se tornaram proprietários das condições objetivas do trabalho. Ele não pode trabalhar nem, por conseguinte, viver, a não ser com a autorização destes últimos (MARX, 2004, p.125).”

terça-feira, 22 de maio de 2012

Marx tem a chance de salvar a economia mundial.


Em setembro de 2011, George Magnus - economista-chefe do Banco Suíço USB – escreve artigo com o titulo acima e com o subtítulo “O espírito de Marx, que está enterrado em um cemitério perto de onde eu vivo no norte de Londres, saiu da sepultura por causa da crise financeira e da recessão econômica subseqüente”.
Magnus afirma que os lideres políticos fariam bem “em estudar o trabalho de um economista que morreu há muito tempo, Karl Marx”. Selecionei alguns trechos instigantes, inclusive o que endossa a tese defendida pelo novo presidente francês, François Hollande, de criar empregos para domar a crise, em contradição com Dona Merkel.....

“A análise profunda do filósofo mais sábio do capitalismo tem várias de falhas, mas a economia global de hoje apresenta muitas semelhanças misteriosas com as condições que ele tinha antecipado. Vejamos, por exemplo, a previsão de Marx de que o conflito inerente entre capital e trabalho se manifestaria inevitavelmente. Como escreveu em "Das Kapital", a busca das empresas por benefícios de produtividade, é claro, leva a necessidade de menos trabalhadores, levando à criação de um "exército de reserva" dos pobres e desempregados: "A acumulação de riqueza num pólo é, portanto, ao mesmo tempo, acumulação de miséria" Marx descreve o processo que é visível em todo o mundo desenvolvido, particularmente nos esforços das empresas dos EUA para reduzir custos e evitar a contratação.
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Marx também notou o paradoxo do excesso de produção e baixo consumo: quanto mais trabalhadores são relegados à pobreza, menos serão capazes de consumir todos os bens e serviços que as empresas produzem. Quando uma empresa reduz seus custos para aumentar a receita, é sábio para maximizar os lucros, mas quando o fazem todas as empresas, ao mesmo tempo, prejudicam a distribuição de renda e demanda efetiva para aqueles que dependem da renda e salário. Este problema também é evidente no mundo desenvolvido de hoje. Temos uma capacidade substancial de produzir, mas nas áreas de média e baixa renda, encontramos uma insegurança financeira generalizada e baixas taxas de consumo.
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Então, como resolver esta crise? Para colocar o espírito de Marx na caixa, os líderes políticos têm de colocar a criação de postos de trabalho no topo do programa econômico e considerar outras medidas não-ortodoxas. A crise não é temporária, e certamente não será curada pela paixão ideológica de austeridade do governo. “

segunda-feira, 21 de maio de 2012

1850. Marx e a profecia chinesa.


Em fevereiro de 1850, Marx publica artigo na Nova Gazeta Renana sobre os “Deslocamentos do Centro de Gravidade Mundial”. O velho Karl profetiza a transformação do Oceano Pacífico em grande via do comércio mundial, a partir da descoberta das minas da Califórnia. Relata ainda como a invasão de produtos americanos e ingleses destruiu a manufatura chinesa – mal sabia ele que a China daria o “troco” no século 21. Antecipa ainda o perfil do futuro socialismo chinês.

“Vamos agora ocupar-nos da América, onde sucedeu algo mais importante do que a revolução de Fevereiro [1848]: a descoberta das minas de ouro californianas. Dezoito meses após o acontecimento já é possível prever que terá efeitos mais consideráveis do que a própria descoberta da América.
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Graças ao ouro californiano e à energia inesgotável dos yankees, os dois lados do Pacífico serão em breve tão povoados e tão ativos no comércio e na indústria como o é atualmente a costa de Boston a Nova Orleans.
O oceano Pacífico desempenhará no futuro o mesmo papel que foi do Atlântico na nossa era e do Mediterrâneo na Antiguidade: o de grande via marítima do comércio mundial, e o oceano Atlântico descerá ao nível de um mar interior, como é hoje o caso do Mediterrâneo.
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Enfim, uma curiosidade característica da China, contada pelo conhecido missionário alemão Gutzlaff. Uma excessiva população, de crescimento lento mas regular, tinha provocado, já desde há muito tempo, uma tensão violenta nas relações sociais da maior parte da nação.
Em seguida vieram os ingleses, que forçaram a abertura de cinco portos ao livre comércio. Milhares de navios ingleses e americanos singraram para a China, que, em pouco temo, foi inundada de produtos britânicos e americanos baratos. A indústria chinesa, essencialmente de manufaturas, sucumbiu à concorrência do maquinismo. O inabalável Império sofreu uma crise social. Os impostos deixaram de entrar, o Estado encontrou-se à beira da falência, a grande massa da população conheceu a completa pobreza, e revoltou-se. Acabando com a veneração aos mandarins do Imperador e aos bonzos, perseguia-os e matava-os. Hoje, o país está à beira do abismo, e talvez sob a ameaça de uma revolução violenta.
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É muito provável que o socialismo chinês se assemelhe ao europeu como a filosofia chinesa ao hegelianismo. Qualquer que seja a forma, podemos alegrar-nos com o fato de que o Império mais antigo e sólido do mundo tenha sido arrastado em oito anos, pelos fardos de algodão dos burgueses da Inglaterra, até a iminência de uma convulsão social que, qualquer que seja o caso, deve ter consequências importantíssimas para a civilização. E, quando os reacionários europeus, na sua já próxima fuga, chegarem enfim junto à Muralha da China, às portas que supõem abrir-se como fortaleza da reação e do conservadorismo, quem sabe se não lerão ali:
República Chinesa
Liberdade, Igualdade e Fraternidade