sábado, 5 de fevereiro de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 1


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 1º trecho selecionado, ele enfatiza que, em pleno século XIX, o capitalismo ainda não havia cumprido o seu ciclo e, conforme o ensinamento do próprio Marx , não poderia “deixar a cena”.

“O pensamento revolucionário nada tem em comum com a idolatria. Os programas e os prognósticos verificam-se e corrigem-se à luz da experiência, que é para o pensamento humano a suprema instância O Manifesto requer correções e complementos. Entretanto, mesmo correções e complementos não podem ser aplicados com sucesso senão nos servimos do mesmo método que se encontra à base do Manifesto, como, além disso, o prova a própria experiência histórica. Mostraremos isso servindo-nos dos exemplos mais importantes.
1. Marx ensina que nenhuma ordem social deixa a cena antes de ter esgotado suas possibilidades criadoras. O Manifesto ataca o capitalismo porque ele bloqueia o desenvolvimento das forças produtivas. Contudo, na sua época e mesmo durante várias décadas seguintes, este entrave possuía apenas um caráter relativo. Se, na segunda metade do Século XIX tivesse sido possível à economia se organizar sobre fundamentos socialistas, o ritmo de seu crescimento teria sido incomparavelmente mais rápido. Esta tese, teoricamente incontestável, não modifica o fato de que as forças produtivas continuaram a crescer em escala mundial, e sem interrupção, até a Primeira Guerra Mundial. Foi unicamente nos últimos vinte anos que, malgrado as mais modernas conquistas científicas e técnicas, se abriu a época da estagnação completa e da própria decadência da economia mundial. A humanidade começa a viver do capital acumulado e a próxima guerra ameaça destruir por longo tempo as próprias bases da civilização. Os autores do Manifesto pensavam que o capital seria liquidado muito antes de passar de ser um regime relativamente reacionário para a sua fase absolutamente reacionária. Esta transformação, porém, só se consumou aos olhos da atual geração, fazendo de nossa época a época de guerras, revoluções e do fascismo.

Trotsky e os noventa anos do Manifesto. Parte 2


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e registra os temas ainda atuais do Manifesto. Selecionei mais  um item (11) das teses do Manifesto que ele julgava que “conservam integralmente sua força”. O item ilustra bem as sensíveis diferenças entre o sonho e a realidade e o delírio da implantação do socialismo a partir de uma ditadura; seja ela do proletariado, dos milicos, dos aiatolás ou de qualquer outro gênero.

11. "A partir do momento em que, no curso do desenvolvimento, as diferenças de classe tenham desaparecido e que toda a produção esteja concentrada nas mãos de indivíduos associados, o poder público perde seu caráter político. " Em outras palavras, o Estado extingue-se. Resta a sociedade liberta de sua camisa-de-força. E é exatamente isso o socialismo. O teorema inverso: o monstruoso crescimento da imposição e violência estatais na URSS demonstra que a sociedade soviética se afasta do socialismo.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Trotsky e os noventa anos do Manifesto


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e registra os temas ainda atuais do Manifesto. Selecionei um trecho da abertura e o item 4 das teses do Manifesto que Trotsky julgava que “conservam integralmente sua força”. Alguém, além dos remanescentes da Polop, endossa o item 4?
“No prefácio à edição de 1872, Marx e Engels afirmaram que, mesmo tendo certos trechos secundários do Manifesto envelhecido, não tinham o direito de modificar o texto original, visto que, no decorrer dos vinte e cinco anos então passados ele já se transformara em um documento histórico. De lá para cá mais sessenta e cinco anos transcorreram. Algumas partes isoladas envelheceram ainda mais. Consequentemente, neste prefácio apresentaremos, de forma resumida, as idéias do Manifesto que, até nossos dias conservam integralmente sua força e aquelas que necessitam de sérias modificações ou complementos.”
“4. A tendência do capitalismo em rebaixar o nível de vida dos operários, a torná-los cada vem mais pobres. Esta tese foi violentamente atacada. Os padres, os professores, os ministros, os jornalistas, os teóricos socialdemocratas e os dirigentes sindicais levantaram-se contra a assim chamada teoria do "empobrecimento". Invariavelmente enumeravam sinais do bem-estar crescente dos trabalhadores, tomando a aristocracia operária por todo o proletariado, ou tomando uma tendência temporária por uma situação perdurável. Paralelamente, a própria evolução do mais poderoso capitalismo, o dos Estados Unidos transformou milhões de operários em párias, sustentados às custas da caridade estatal ou privada.”

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

André Breton e o jovem Marx


André Breton (1896/1966), fundador do surrealismo, foi filiado ao PCF durante oito anos. Decepcionado com Stalin, deixou o Partido e aliou-se a Trotsky, já asilado no México. No manifesto “Por Uma Arte Revolucionária Independente”, redigido a quatro mãos com Diego Rivera, cita o jovem Marx e aprofunda a sua delirante tese de que ninguém deve “viver e escrever para ganhar dinheiro”.

“A idéia que o jovem Marx tinha do papel do escritor exige, em nossos dias, uma retomada vigorosa. É claro que essa idéia deve abranger também, no plano artístico e científico, as diversas categorias de produtores e pesquisadores. "O escritor, diz ele, deve naturalmente ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas não deve em nenhum caso viver e escrever para ganhar dinheiro . . . O escritor não considera de forma alguma seus trabalhos como um meio. Eles são objetivos em si, são tão pouco um meio para si mesmo e para os outros que sacrifica, se necessário, sua própria existência à existência de seus trabalhos . . . A primeira condição da liberdade de imprensa consiste em não ser um ofício.”
Íntegra do texto original em /www.andrebreton.fr

domingo, 30 de janeiro de 2011

Hobsbawn por inteiro


Por ocasião do lançamento de seu novo livro – How to change the world –Hobsbawn concedeu entrevista  ao The Guardian (publicada na FSP em 25/01/11). Publiquei 2 trechos da entrevista. Agora segue a íntegra, com destaque para a sua referência à America Latina, que não sei se elogiosa ou crítica: “Ideologicamente, hoje me sinto mais em casa na América Latina. É o único lugar no mundo em que as pessoas fazem política e falam dela na velha linguagem - a dos séculos 19 e 20, de socialismo, comunismo e marxismo.”
"Guardian" - Há no âmago desse livro um senso de algo que provou seu valor? De que, mesmo que as propostas de Marx possam não mais ser relevantes, ele fez as perguntas certas sobre o capitalismo?
Eric Hobsbawm -
Com certeza. A redescoberta de Marx está acontecendo porque ele previu muito mais sobre o mundo moderno do que qualquer outra pessoa em 1848. É isso, acredito, o que atrai a atenção de vários observadores novos -atenção essa que, paradoxalmente, surge antes entre empresários e comentaristas de negócios, não entre a esquerda.


O sr. tem a impressão de que o que pessoas como George Soros apreciam em parte em Marx é o modo brilhante com que ele descreve a energia e o potencial do capitalismo?

Acho que é o fato de ele ter previsto a globalização que os impressionou. Mas acredito que os mais inteligentes também enxergaram uma teoria que previa o risco de crises. A teoria oficial do período, fim dos anos 90, descartava essa possibilidade.

E o sr. acha que o interesse renovado por Marx também foi beneficiado pelo fim dos Estados marxistas-leninistas?

Com a queda da União Soviética, os capitalistas deixaram de sentir medo, e desse modo tanto eles quanto nós pudemos analisar o problema de maneira muito mais equilibrada. Mas foi mais a instabilidade da economia globalizada neoliberal que, creio, começou a ficar tão evidente no fim do século.

O sr. não está surpreso com o fato de a esquerda marxista e a social-democrata não terem explorado politicamente a crise dos últimos anos?
Sim, é claro. Na realidade, uma das coisas que procuro mostrar no livro é que a crise do marxismo não é só do seu braço revolucionário, mas também do seu ramal social-democrata. O reformismo social-democrático era, essencialmente, a classe trabalhadora pressionando seus Estados-nações. Com a globalização, a capacidade dos Estados de reagir a essa pressão se reduziu concretamente. Assim, a esquerda recuou.

O sr. acha que o problema da esquerda está em parte no fim da classe trabalhadora consciente e identificável?

Historicamente falando, isso é verdade. O que ainda é possível é que a classe trabalhadora forme o esqueleto de movimentos mais amplos de transformação social.
Um bom exemplo é o Brasil, que tem um caso clássico de partido trabalhista nos moldes do fim do século 19 -baseado numa aliança de sindicatos, trabalhadores, pobres em geral, intelectuais e tipos diversos de esquerda- que gerou uma coalizão governista notável. E não se pode dizer que não seja bem-sucedida, após oito anos de governo e um presidente em final de mandato [a entrevista foi feita no final de 2010] com 80% de aprovação.
Ideologicamente, hoje me sinto mais em casa na América Latina. É o único lugar no mundo em que as pessoas fazem política e falam dela na velha linguagem -a dos séculos 19 e 20, de socialismo, comunismo e marxismo.
O título de seu novo livro é "How to Change the World". No final, o sr. escreve: "A substituição do capitalismo ainda me parece possível". A esperança continua forte?
Não existe esperança reduzida hoje. O que digo agora é que os problemas do século 21 exigem soluções com as quais nem o mercado puro nem a democracia liberal pura conseguem lidar adequadamente. É preciso calcular uma combinação diferente.
Que nome será dado a isso não sei. Mas é bem capaz de não ser mais capitalismo, não no sentido em que o conhecemos aqui e nos EUA.


sábado, 29 de janeiro de 2011

O fim do medo e o renascimento de Marx


Mais um trecho da entrevista de Hobsbawn ao The Guardian e publicada na Folha em 25 de janeiro p.p.
“Com a queda da União Soviética, os capitalistas deixaram de sentir medo, e desse modo tanto eles quanto nós pudemos analisar o problema de maneira muito mais equilibrada. Mas foi mais a instabilidade da economia globalizada neoliberal que, creio, começou a ficar tão evidente no fim do século.”


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A redescoberta de Marx

Da entrevista de Hobsbawn ao The Guardian e publicada na Folha em 25/01/11:

"A redescoberta de Marx está acontecendo porque ele previu muito mais sobre o mundo moderno do que qualquer outra pessoa em 1848. É isso, acredito, o que atrai a atenção de vários observadores novos -atenção essa que, paradoxalmente, surge antes entre empresários e comentaristas de negócios, não entre a esquerda."


domingo, 23 de janeiro de 2011

Não existem atalhos para o marxismo


Em 1966, Hobsbawn produziu mais um texto brilhante  - “ O diálogo sobre o Marxismo” – onde defende a tese de que o marxismo “correto” não pode ser “institucionalmente definido”. Selecionei um trecho provocativo, onde ele afirma que “não há atalhos para o marxismo”.

“ Os marxistas não-comunistas, por sua vez, devem aprender que os erros, as esquematizações e as distorções do período  stalinista, e inclusive de todo o período da Internacional Comunista, não significam que não foram feitas quaisquer contribuições valiosas e importantes ao marxismo neste período e no movimento comunista internacional. Não há atalhos para o marxismo: nem o apelo a Lênin contra Stalin, nem a Marx, nem ao jovem Marx contra o Marx da maturidade. Há somente trabalho árduo, longo e, nas atuais circunstâncias, talvez não conducente a conclusões definitivas.”

sábado, 22 de janeiro de 2011

Disciplina bolchevista em Auschwitz


A “devoção total” exigida dos militantes bolchevistas era algo muito próximo do sentimento que hoje mobiliza os “homens-bomba” do Islã e, na 2ª Guerra, produziu  os pilotos suicidas japoneses. Eric Hobsbawn, em “Problemas da História do Comunismo” registra o “extraordinário êxito do comunismo como um sistema de educação para o trabalho político” ( atenção o texto é de 1969, 20 anos antes da queda do Muro). Segue abaixo um trecho. Para a leitura da íntegra: “Os Revolucionários – Ensaios Contemporâneos”, Paz e Terra, 2003.

“O problema daqueles que escrevem a história dos partidos comunistas e, portanto, extraordinariamente difícil. Eles devem recuperar a excepcional têmpera do bolchevismo – sem precedentes nos movimentos não-religiosos e tão distante do liberalismo da maioria dos historiadores como do ativismo permissivo e auto-indulgente dos extremistas contemporâneos. Não se pode compreender, sem a percepção deste sentimento de devoção total, que o partido em Auschwitz fixesse seus membros pagarem suas contribuições em cigarros ( sumamente preciosos e quase impossível de serem obtidos num campo de extermínio), ou que os quadros do partido aceitassem a ordem não apenas de matar alemães na Paris ocupada, mas também de adquirir prévia e individualmente, as armas para fazê-lo, ou que ele tornasse virtualmente inconcebível para seus membros a ideia de se recusarem a regressar a Moscou, mesmo com a certeza de serem presos ou mortos. Sem isto não se pode, tampouco compreender as realizações ou as perversões do bolchevismo – e ambas foram monumentais – e,certamente, também não se pode compreender o extraordinário êxito do comunismo como um sistema de educação para o trabalho político.”

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Hegel e a Morte


Ainda no prefácio de Fenomenologia do Espírito, Hegel  afirma que “é a vida que suporta a morte e nela se conserva”. Selecionei um trecho, mas quem desejar ler a íntegra, em português, acesse o link abaixo e prepare-se; não é leitura fácil.
 www.marxists.org/portugues/hegel/1807/mes/fenomenologia.htm

“A morte - se assim quisermos chamar essa inefetividade - é a coisa mais terrível; e sustentar o que está morto requer a força máxima. A beleza sem força detesta o entendimento porque lhe cobra o que não tem condições de cumprir. Porém não é
a vida que se atemoriza ante a morte e se conserva intacta da devastação, mas é a vida que suporta a morte e nela se conserva, que é a vida do espírito. O espírito só alcança sua verdade à medida que se encontra a si mesmo no dilaceramento absoluto. Ele não é essa potência como o positivo que se afasta do negativo - como ao dizer de alguma coisa que é nula ou falsa, liquidamos com ela e passamos a outro assunto. Ao contrário, o espírito só é essa potência enquanto encara diretamente o negativo e se demora junto dele. Esse demorar-se é o poder mágico que converte o negativo em ser. Trata-se do mesmo poder que acima se denominou sujeito, e que ao dar, em seu elemento, ser-aí à determinidade, suprassume a imediatez abstrata, quer dizer, a imediatez que é apenas essente em geral. Portanto, o sujeito é a substância verdadeira, o ser ou a imediatez - que não tem fora de si a mediação, mas é a mediação mesma.”

domingo, 16 de janeiro de 2011

Hegel e o Todo


Confesso que nunca havia lido Hegel. Para refazer parte do caminho do jovem Karl, decidi começar pela Fenomenologia do Espírito, de 1807. Selecionei um trecho interessante do prefácio:

“O verdadeiro é o todo. Mas o todo é somente a essência que se implementa através de seu desenvolvimento. Sobre o absoluto, deve-se dizer que é essencialmente resultado; que só no fim é o que é na verdade. Sua natureza consiste justo nisso: em ser algo efetivo, em ser sujeito ou vir-a-ser-de-si-mesmo. Embora pareça contraditório conceber o absoluto essencialmente como resultado, um pouco de reflexão basta para dissipar esse semblante de contradição. O começo, o princípio ou o absoluto - como de início se enuncia imediatamente - são apenas o universal. Se digo: "todos os animais", essas palavras não podem valer por uma zoologia. Do mesmo modo, as palavras "divino", "absoluto", "eterno" etc. não exprimem o que nelas se contém; - de fato, tais palavras só exprimem a intuição como algo imediato. A passagem - que é mais que uma palavra dessas - contém um tornar-se Outro que deve ser retomado, e é uma mediação; mesmo que seja apenas passagem a outra proposição. Mas o que horroriza é essa mediação: como se fazer uso dela fosse abandonar o conhecimento absoluto - a não ser para dizer que a mediação não é nada de absoluto e que não tem lugar no absoluto.”

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Marx de Althusser


Obra inacabada, o marxismo permite leituras e releituras ao sabor das tendências ideológicas de cada intérprete. Nem o final melancólico de 1989/91 impediu delírios do tipo Cuba, Coréia do Norte e, aqui na Terra, o PC do B. Como afirmam os autores de “História das Ideias Políticas” , as tentativas de interpretação “ só podem ser julgadas em função do projeto próprio que as anima, em sua época e em suas circunstâncias políticas”
(marxrevisitado.blogspot.com/2010/12/marxismos.html).
Assim, os “marxismos” são muitos. Selecionei um trecho de texto de Hobsbawm, de 1966 – publicado em “Revolucionários”, Paz e Terra,2003 – onde ele faz uma crítica sutil ( sutil?) ao marxismo de Louis Althusser. Althusser, segundo Hobsbawn, “abandonou as sombras da grande École Normal Supérieure da Rue d’Ulm para a ribalta da celebridade no 5º e 6º arrondissements”.
Vamos ao trecho selecionado:

“ ....o reflorescimento do marxismo requer uma disposição genuína para ver o que Marx procurava fazer, ainda que isto não implique em concordância com todas as suas afirmações. O marxismo, que é ao mesmo tempo um método, um corpo de pensamento teórico e um conjunto de textos considerados por seus seguidores como fonte de autoridade, sempre sofreu com a tendência dos marxistas de começar por decidir o que pensam que Marx deveria ter dito e depois procurar a confirmação, nos textos, dos pontos de vista escolhidos. Tal ecletismo tem sido normalmente compensado por estudo sério da evolução do próprio pensamento de Marx. A descoberta de Althusser de que o mérito de Marx se encontra não tanto em seus próprios escritos, mas em permitir que o próprio Althusser diga o que ele deveria ter dito, suprime esta compensação. É de se temer que ele não seja o único teórico a substituir o verdadeiro Marx por um outro, de sua própria criação. Se o Marx althusseriano, ou outra construção análoga, pode se tornar tão interessante quanto o Marx original, é uma questão completamente distinta.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Stalin: leninismo é a ressurreição do marxismo. Parte 2


“Que é, afinal, o leninismo?
O leninismo é o marxismo da época do imperialismo da revolução proletária. Mas exatamente: o leninismo é a teoria e a tática da revolução proletária em geral, a tática da ditadura do proletariado em particular. Marx e Engels militaram no período pré-revolucionário (referimo-nos à revolução proletária), quando o imperialismo ainda não estava desenvolvido, no período de preparação dos proletários para a revolução, no período em que a revolução proletária ainda não se tornara uma necessidade prática imediata. Porém, Lênin, discípulo de Marx e Engels, no período de pleno desenvolvimento do imperialismo, no período do desencadeamento da revolução proletária, quando a revolução proletária já havia triunfado num país, havia destruído a democracia burguesa e iniciado a era da democracia proletária, a era dos Soviets.
Por isso, o leninismo é o desenvolvimento ulterior do marxismo.

Stalin: leninismo é a ressurreição do marxismo. Parte 1


De 26 de abril a 18 de maio de 1924, Stalin profere, na Universidade Sverdlov, uma série de conferências ”Sobre os Fundamentos do Leninismo”. A tese central é que o leninismo não se resume a uma aplicação do marxismo “às condições peculiares da situação russa”, mas que é “um fenômeno internacional, que tem as suas raízes em toda a evolução internacional, e não apenas um fenômeno russo”.
Comparto a opinião de diversos marxólogos independentes que o marxismo-leninismo sempre foi uma contradição e o grande responsável pelo “esquecimento” das teses do velho Karl, durante décadas. O fim da União Soviética e as recentes crises do capitalismo fizeram renascer o filósofo alemão e seu parceiro Engels.
É sempre oportuno recordar que a dupla Marx/Engels jamais imaginou que a primeira revolução do proletariado aconteceria na Rússia, até pela “escassez de proletários”, no feudal regime czarista. Vale relembrar uma “profecia não realizada de Engels, em abril de 1892 : ”no ponto em que estão as coisas, será despropositado pensar-se que a Alemanha venha a se tornar também o cenário do primeiro grande triunfo do proletariado europeu?”
A seguir uma primeira parte da palestra de Stalin, em 1924.
“Que é, pois, o leninismo?
Alguns dizem que leninismo é a aplicação do marxismo às condições peculiares da situação russa. Nesta definição há uma parte de verdade, mas está longe de conter toda a verdade. Lênin aplicou, efetivamente, o marxismo à situação russa e o aplicou de modo magistral. Mas se o leninismo não passasse da aplicação do marxismo à situação da Rússia, seria um fenômeno pura e exclusivamente nacional, pura e exclusivamente russo. No entanto sabemos que o leninismo é um fenômeno internacional, que tem as suas raízes em toda a evolução internacional, e não apenas um fenômeno russo. Por isso, creio que esta definição peca pelo seu caráter unilateral.
Outros dizem que o leninismo é a ressurreição dos elementos revolucionários do marxismo da década de 40 do século passado, para distingui-lo do marxismo dos anos posteriores, que, segundo afirmam, se tornou moderado e deixou de ser revolucionário. Se abandonarmos essa divisão néscia e vulgar da doutrina de Marx em duas partes, uma revolucionária e outra moderada, é necessário reconhecer, no entanto, que também esta definição, por completo insuficiente e insatisfatória, contém uma parte de verdade. Esta parte de verdade consiste no fato de que Lênin efetivamente ressuscitou o conteúdo revolucionário do marxismo, que fora soterrado pelos oportunistas da II Internacional. Mas esta não é senão uma parte da verdade. A verdade completa é que o leninismo não só ressuscitou o marxismo, mas deu ainda um passo à frente, levando o marxismo a desenvolvimento ulterior nas novas condições do capitalismo e da luta de classe do proletariado.”

sábado, 8 de janeiro de 2011

O marxismo-leninismo-stalinismo de Khrushchev


O culto à personalidade de Stalin, 1 ano após a sua morte estava no auge. Seu sucessor no cargo de 1º Secretário do Partido, Nikita Sergeivitch Khrushchev, no discurso de lançamento de sua candidatura ao Soviet Supremo, coloca o antecessor no mesmo nível de Marx e Engels. Uma fala bem diferente da de dois anos depois, em  23 de fevereiro de 1956, quando denunciou o ex-chefe por crime de genocídio, no XX Congresso do Partido. Veja a seguir o trecho do discurso de 1954.
“Criado por nosso genial chefe e mestre - o grande Lênin —, o Partido Comunista conduz firmemente o povo pelo caminho que leva ao comunismo. Por sua heróica luta pela causa do socialismo e por sua abnegada dedicação ao povo, o Partido Comunista conquistou o ilimitado amor e a confiança de todos os trabalhadores. O glorioso 50º aniversário do Partido Comunista da União Soviética foi brilhante demonstração da força todo-poderosa da doutrina de Marx, Engels, Lênin e Stálin.”

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Marx X Adam Smith X Keynes


A mais eficaz medida de interesse por um tema é o numero de “resultados” em uma busca no Google. Às 17 horas de 6 de janeiro de 2011, eram os seguintes os resultados para Marx – 24,4 milhões; Adam Smith – 11 milhões e Keynes – 13,5 milhões.  O velho Karl continua com a bola cheia!!!!!!!!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Stalin e o fundamentalismo de Diogenes Arruda


Diógenes Arruda foi um dos mais importantes quadros do Partidão. Sua liderança e capacidade de sonhar eram ilimitadas. Mas, como todo fundamentalista, Arruda perdeu o senso crítico e, entre outros equívocos, desenvolveu uma visão romântica de Stalin. Selecionei um trecho de longa entrevista, concedida em junho de 1979 a Iza Freaza e Albino Castro, poucos meses antes de sua morte. No final do texto o endereço para acessar a íntegra.
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“Albino – Agora vamos entrar no terreno em que você é mais conhecido, mais polêmico no Brasil. Nesse período que vai do pós-guerra até 53, você na prática era quem dirigia o Partido. Era o homem que tinha contato com Stalin, era o homem que ia a Moscou...
Iza – Tem até o bigode parecido...
Albino – Tem até o bigode parecido...
Arruda – (Risos)
Albino – A gente queria saber como era o seu relacionamento...
Iza – Como era o Stalin?
Arruda – Então, nós recebemos uma grande ajuda teórica, ideológica...
Iza – É verdade que você era o único que Stalin recebia?
Albino – Do Brasil...
Arruda – Não. Uma grande ajuda teórica do partido bolchevique e do camarada Stalin. Principalmente nesse processo de elaboração do programa, ele teve um papel de dizer como podia desempenhar uma revolução vitoriosa no Brasil. De fato, eu tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Stalin. Foi por ocasião do 19º Congresso do partido bolchevique. Stalin era um figura extremamente simpática. Modesto, simples, afável, não tem nada disso que se propalou no mundo. E ele tinha muito carinho com o nosso Partido. Eu não privei particularmente com o camarada Stalin. Lamentavelmente não privei (ininteligível). O camarada Stalin tinha bastante carinho pelo nosso Partido e nos ajudou do ponto de vista teórico. Usava aquela roupa de soldado (pronuncia pausadamente). (trecho ininteligível). Agora, isso de ele cortar algumas cabeças... (cansado, Arruda pede para interromper a entrevista).

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Fetichismo&Reificação. Collin&Ghiraldelli


Denis Collin considera que um dos capítulos filosoficamente mais importantes do Capital ( Livro 1 – Primeira Secção é o que se refere ao caráter fetichista das mercadorias. Vale a pena ler o artigo completo em
http://denis-collin.viabloga.com/news/le-caractere-fetiche-de-la-marchandise

Por sua vez, o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr faz uma criativa dissertação sobre a reificação e o fetichismo na filosofia de Marx e de como as pessoas se transformam de sujeitos em objetos, por força do mercado. E o que acontece na passagem da filosofia para a política, na criação da sociedade sem mercado. Vale a pena uma parada de 9 minutos para assistir o video no youtube.

http://www.youtube.com/watch?v=E7BaPV975VE

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Diógenes Arruda e a "camarilha de renegados"


Diógenes Arruda (1914 – 1979) é figura histórica do Partidão. Elegeu-se deputado federal em 1946 pelo PSP de Adhemar de Barros e, assim, escapou da cassação de mandato que atingiu toda a bancada comunista. Em outubro de 1979, pouco antes de sua morte, escreveu um artigo em homenagem a Mauricio Grabois – “ O Dirigente Comunista se forja todos os dias” – com agressivas criticas ao PCB de Prestes. O artigo foi escrito/publicado exatos 10 anos antes da queda do muro. Provavelmente, seria o mesmo se publicado vinte anos depois – pra esse povo do PC do B, o tempo não passa.
“Diante do Surto revisionista Kruschoviano, durante os anos de 1956 a 1960, manteve firme a posição de defesa do marxismo-leninismo e do Partido e de luta contra as furiosas investidas de Prestes e sua camarilha de renegados, ocupando, neste combate, lugar proeminente. Considerável foi sua atividade, tanto político-ideológica como prática, no trabalho de reorganização marxista-leninista do Partido de 1961 a 1962, contribuindo de forma destacada, juntamente com o camarada Amazonas, para o esclarecimento de importantes problemas da revolução brasileira e na elaboração do Programa do Partido, aprovado na Conferência Nacional Extraordinária de fevereiro de 1962. Valiosa foi também sua contribuição na elaboração da tática revolucionária do Partido, aprovada na VI Conferência Nacional de junho de 1966, o mesmo acontecendo em relação a outros documentos básicos do Partido, como os Estatutos, Guerra Popular – Caminho da Luta Armada no Brasil, políticas e métodos de revolucionarização do Partido, 50 Anos de Lutas do PC do Brasil e seus principais ensinamentos, Problemas Ideológicos da Revolução na América Latina.”

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Marxismo de Roberto Campos


Em 31 de outubro de 1999, comemorando os 10 anos da “queda do muro” (já apodrecido), um dos principais ideólogos da direita brasileira – Roberto de Oliveira Campos, tb conhecido como Bob Fields – escreve um surpreendente artigo. “Perdeu-se o marxismo?” reconhece a “extraordinária originalidade do pensamento critico de Marx” e a genialidade do alemão ao formular “em plena era do vapor e do aço, a noção de que a existência determina a consciência”. Selecionei dois trechos do artigo daquele que, nos meus tempos de política estudantil, era considerado “entreguista” e alvo de uma passeata que terminou na porta do BNDES ( Campos era o Presidente), para protestar contra o “Acordo Roboré”, em 1958. Ainda era aluno do Pedro II e tenho grandes lembranças dessa passeata, mas, isso é outra história.

“Foi uma pena que, nestes últimos 80 anos, a complicada dinâmica da História, ao soterrar os regimes socialistas do bloco soviético, acabasse soterrando simultaneamente a florescência da extraordinária originalidade do pensamento crítico de Marx. Falo do pensamento crítico. No resto, Marx foi um péssimo profeta e um mau político. Predisse o empobrecimento do proletariado, e ele emburguesou-se. Predisse a explosão do capitalismo, e foi o socialismo que implodiu. Predisse o fenecimento do Estado e a floração da liberdade, e no "socialismo real" o contrário aconteceu: o Estado explodiu de elefantíase e as liberdades desapareceram,”
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“Nestes arrabaldes, pouca gente se tem dado conta de que o novo pensamento de raiz marxista está descobrindo, com evidente surpresa, uma série de temas novos sobre o desenvolvimento e a História. Sugestiva, por exemplo, é a ótica dos "sistemas mundiais", trabalhada, entre outros, por I. Wallerstein e E. Wolf, contestada por A. Gunder Frank, para quem o sistema político mundial pré-data de muito a ascensão do capitalismo na Europa e sua hegemonia no mundo. Ou seja, uma completa desarticulação da visão "mecânica" da "dialética da História", substituída por uma espécie de superdarwinismo, a luta de todas as forças e formações entre si. Quando o velho Marx, em plena era do vapor e do aço, formulou a noção de que a existência determina a consciência, chamou a atenção geral para o fato de que as grandes transformações pelas quais estava passando o mundo tinham uma base nas condições concretas, nas relações de produção e na tecnologia. Depois disso, tivemos uma formidável aceleração (eletricidade, motor a explosão, eletrônica, síntese química, biologia, eletrônica) e, agora, com a globalização digital, estamos entrando em cheio na era da informação. Tudo está mudando muito mais depressa do que nossa capacidade de acompanhar. Assim como o capitalismo do século 14 acabou com o escravo e o servo da gleba e o capitalismo americano atual criou uma sociedade democrática de classe média e de consumo de massa, o novo modo de produção da informação vai criar - o quê? Não sei. Precisamos de pensar. Mesmo errando, ou parecendo errar.”


sábado, 25 de dezembro de 2010

"Em torno de Marx"


Estou iniciando a leitura do novo livro ( Em torno de Marx) do filósofo Leandro Konder – presente de natal de meu compadre Molon – e selecionei um trecho do capítulo “Marx: o homem e a obra revisitados”, que estimula a reflexão sobre os danos causados pelo regime soviético ao pensamento original do velho Karl. O tema me remete a uma conversa, em Luanda, com deputado do MPLA quando, timidamente, coloquei a minha tese sobre os danos causados à obra de Marx pelo marxismo-leninismo e ouvi a resposta definitiva: “Aqui em Angola, todos os socialistas já descobriram isso há muito tempo”. Vamos a duas partes do texto:
“Por mais que tenham lamentado o fim da URSS, que deixou o mundo inteiro às voltas com a política agressiva e a prepotência dos norte-americanos, houve alguns marxistas rebeldes que confessadamente sentiram certo alivio com a imprevista derrocada do Estado fundado por Lênin. Ampliava-se assim o especo em que se podia fazer a desejável releitura de Marx, rediscuti-lo, reavaliá-lo.” .....................................................................
“ Uma recuperação da criatividade e do vigor físico do pensamento radical de Marx depende dessa espécie de ensaísta, de autores capazes de fazer comentários instigantes, provocadores. Podemos imaginar as surpresas, os sustos e as alegrias que nos seriam proporcionados por novos Gramcis, Luckacses. Adornos, Benjamins. E – por que não – por novos Antonios Cândidos, Chicos de Oliveiras, Robertos Schwarzes, Sartres, Karel Kosikes, Paulos Arantes, Michael Lôwys, Carlos Nelsons Coutinhos e outros.”

Eu agregaria à lista os Denis Collins, Moishes Postones e os Costanzos Preves.



domingo, 19 de dezembro de 2010

"Marxismos"


Penso que, decorridos um século e meio da publicação dos principais textos de Marx e Engels, ainda surgem leituras diversificadas e, por vezes, contraditórias do significado do conjunto da obra. Obra inacabada, o marxismo permite leituras e releituras ao sabor das tendências ideológicas de cada intérprete. Nem o final melancólico de 1989/91 impediu delírios do tipo Cuba, Coréia do Norte e, aqui na Terra, o PC do B. Como afirmam os autores de “História das Ideias Políticas” , as tentativas de interpretação “ só podem ser julgadas em função do projeto próprio que as anima, em sua época e em suas circunstâncias políticas”. Selecionei um trecho do livro de Fançois Châtelet, Olivier Duhamel e Evelyne Pisier-Kouchner (tradução de Carlos Nelson Coutinho, meu contemporâneo de UNE e Partidão) que comenta o “equívoco profundo” de análise do pensamento conjunto de Marx:
“O tema que Lenin recolheu de Friederich Engels, segundo o qual o pensamento de Marx possui três fontes ( a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês), não é falso, contanto que não se infira dele, como o faz Lênin, que esse pensamento – tendo extraído a quintessência desses três elementos – soube integrá-los num conjunto coerente. Pois o que espanta, quando lemos as milhares de páginas de textos redigidos por Karl Marx (1818-1883) e Friederich Engels(1820-1895), é ao mesmo tempo a diversidade dos temas tratados, dos níveis de intervenção e das técnicas de argumentação, por um lado, e, por outro, o equívoco profundo do projeto de conjunto; e isso porque ora se trata de elaborar nada menos do que uma nova concepção global do mundo, da sociedade e do homem, ora – mais modestamente – de contribuir, através de pesquisas Teóricas, para a luta revolucionária do movimento operário.”

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O silêncio "ensurdecedor" dos operários russos.


Denis Collin, em seu “Compreender Marx”(Editora Vozes), faz uma instigante citação de Costanzo Prevê, renomado “marxólogo”, sobre a reação da classe operária da União Soviética ao fim do comunismo:
“O silêncio ensurdecedor da classe operária na URSS e nos países da Europa do Leste, até seu consentimento na reconstrução de um capitalismo “normal”, por ocasião da grande mudança de 1989-1991, é, com diz Costanzo Preve, “um dos acontecimentos, ou melhor, dos não-acontecimentos mais importantes da história mundial destes dois últimos séculos”.

Marx em 20 minutos


Denis Collin, em seu “Compreender Marx”( Editora Vozes) defende a tese de que é fácil e rápido explicar Marx superficialmente, mas a análise profunda é tarefa árdua e um pouco mais demorada:
“ Pode-se explicar Marx em vinte minutos ou em vinte anos, dizia Raymond Aron. Em vinte minutos se percorrem as grandes teses que formaram a ossatura do marxismo histórico e, convenhamos, é um Marx possível. Sob a condição de deixar de lado a imensa massa dos escritos que vão em direções diferentes e dão testemunho de uma pesquisa em andamento, de um inacabamento sistemático. “Duvidar de tudo”: esta é a divisa de Marx e, ironia da história, foi esse o homem transformado em produtor de dogmas.”
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“Enfim, Marx pensou, simultaneamente e no mesmo movimento. O modo de produção capitalista  e o comunismo como “movimento real”. Em que medida estamos com o comunismo? Quer dizer, em que medida estamos com a esperança de uma transformação radical do mundo?”

domingo, 12 de dezembro de 2010

Lukacs e a "superação do marxismo".


György Lukács, no período pós-1945, foi uma espécie de porta voz “oficial” do marxismo. Uma tarefa encerrada em 1956, quando Lukács, Ministro da Educação do governo Imre Nagy, foi deportado para a Romênia, pelas tropas soviéticas que invadiram Budapeste. Nagy teve destino mais dramático – foi executado e enterrado secretamente, em 1958. Lukács e Nagy integravam a ala reformista do Partido Comunista Húngaro que, após a morte de Stalin, em 1953, buscavam autonomia de Moscou. Selecionei um trecho do artigo de 1920 (“Última superação do Marxismo”), em que o filósofo critica os intelectuais como “seres parasitários dentro do Estado Capitalista”:

“É difícil que se passe um ano sem que Marx seja "superado" por algum solícito livre docente ou por algum filósofo da moda. A luta mortal que a sociedade burguesa deve realizar se desenvolve também no terreno ideológico. Estas superações mostram ao observador atento sempre o mesmo rosto. Mudam o teor da demonstração, os argumentos gnosiológicos ou metafísicos parecem novos, porém o caráter essencial, o ponto de partida e o ponto de chegada, são sempre os mesmos. Eles encontram sua origem na natureza pequeno-burguesa-parasitária da situação de classe dos intelectuais. Como verdadeiros pequeno-burgueses, os intelectuais não estão em condições de ver de maneira correta a realidade da luta de classes, e portanto menos ainda estão em condições de valorá-la. Eles tendem, como disse Marx, para as instituições estabelecidas, tal como para "não abolir os dois extremos, capital e trabalho assalariado, mas sim para atenuar suas contradições e levá-los a conviver em harmonia". Dado que os intelectuais são seres parasitários dentro do Estado capitalista, este último se lhes apresenta com um absoluto, ou ainda como o Absoluto. Eles contrapõem à teoria marxista uma utopia que, despojada das frases mais ou menos sedutoras, repousa sobre a glorificação do Estado existente".


sábado, 11 de dezembro de 2010

A morte de Stalin e o artigo de Prestes


A morte de Stalin, em 5 de março de 1953, leva Prestes a produzir um lacrimoso artigo na edição de abril da Revista Mensal de Cultura Política : “Ergamos bem alto a bandeira de Stalin”.
Selecionei o Parágrafo inicial e um trecho onde o autor revela sua tradicional falta de sensibilidade política ao acusar o governo Vargas de traição e dos “esforços para entregar o petróleo brasileiro à Standard Oil”. Seis meses depois Getúlio assinava a lei 2.004 ( 3 de outubro de 1953) que criava a Petrobras e o monopólio estatal do petróleo. Isso pra não falar que 16 meses após o artigo de louvação a Stalin, Vargas se suicidaria, ameaçado por um golpe de direita

Iosif Vissarionovitch Stálin, o nosso querido camarada Stálin, não mais existe.
Neste momento, de dor imensa e profunda, meus pensamentos se dirigem para as grandes massas de nosso povo, para os trabalhadores das cidades e do campo, para todos os brasileiros que almejam uma pátria livre e progressista, dirigem-se particularmente para os jovens e as crianças de nossa terra a que sempre desejamos um futuro feliz e radioso, bem diferente da dura realidade dos dias de hoje.
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Os traidores que nos governam podem aprovar tratados militares, podem continuar fazendo esforços para entregar o petróleo brasileiro à Standard Oil, podem prometer aos banqueiros ianques o sangue de nossa juventude em troca dos empréstimos americanos, mas o povo brasileiro persistirá até o fim em sua luta pela paz, há de provar na prática que jamais empunhará armas contra os povos da União Soviética, que é capaz de libertar o Brasil do jugo imperialista e de pôr abaixo o atual governo de traição de Vargas.



sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Alvaro Cunhal. O sonho nunca se acaba.


Nos primeiros dias de  junho de 1974, eu, Thereza e um amigo desembarcamos em Portela de Sacavém e encontramos uma Lisboa que ainda comemorava o 25 de abril. Nas calçadas da Avenida de Liberdade espalhavam-se livros da Editora Vitória, certamente fugidos da perseguição da ditadura militar brasileira. E nas bancas, o jornal do Partido Comunista Português ainda estampava a foto de Álvaro Cunhal a liderança histórica do PCP em seu retorno a Portugal, depois de anos de exílio. Em 21 de maio de 1993 - doze anos antes de sua morte e quatro após a queda do muro – Cunhal profere palestra com o tema “O Comunismo hoje e amanhã”. Segue um pequeno trecho que comprova que os sonhos nunca se acabam, pelo menos para sonhadores com o líder lusitano.
“Considerando a derrocada da URSS e dos regimes do leste da Europa, a mudança daí resultante da correlação mundial de forças e a nova pretensão de restabelecimento do domínio, exploração e hegemonia mundial pelo imperialismo, espalha-se a ideia de que o projecto comunista fracassou, de que “o comunismo morreu”, de que “o comunismo não tem futuro” e de que afinal o capitalismo mostrou ser um sistema capaz de resolver os problemas da humanidade, um sistema superior e melhor que um sistema socialista.
Temos opinião diferente.
Nem o projecto comunista de uma sociedade nova e melhor, deixou de ser válido, nem o capitalismo se mostrou ou mostra capaz de resolver os grandes problemas da humanidade e se pode considerar um sistema definitivo.
O capitalismo sofreu, é certo, alterações ao longo do século XX nas suas estruturas económicas e sociais. Desenvolveram-se a internacionalização dos processos económicos e sistemas de cooperação e integração. As forças produtivas receberam poderoso impulso com a revolução científico-técnica.
Mas o capitalismo manteve e mantém as suas características essenciais, como sistema de exploração, opressão e agressão, marcado por injustiças, desigualdades e flagelos sociais. O capitalismo é um sistema em que há classes que exploram e classes que são exploradas, classes que dominam e outras que são dominadas, classes que governam em seu proveito e outras que para seu mal são governadas, classes que constituem uma minoria da população que concentra a riqueza e a usufrui em excesso e classes que constituem a maioria esmagadora da população que vive com graves carências e que, em vastíssimos sectores, vive numa zona social sombria de pobreza e miséria.
Internacionalmente, é um sistema em que os países mais desenvolvidos, mais ricos e mais fortes exploram, dominam, subjugam e oprimem pelas mais variadas formas os países mais atrasados, mais pobres e mais fracos, mantendo e criando no mundo zonas imensas de fome que afecta e mata milhões de seres humanos.”


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Postone. Uma releitura de Marx. Parte 3


O texto “Necessidade, Tempo e Trabalho” de Moishe Postone, professor de história da Universidade de Chicago, está disponível, em português,  em http://obeco.no.sapo.pt/mpt2.htm
Entre outros temas, o autor questiona as transformações que a inovação tecnológica pode provocar na relação capital X trabalho. Vide um pequeno e provocante trecho:
O desenrolar do capitalismo impulsiona para adiante o desenvolvimento tecnológico, cuja forma concreta continua sendo a de um instrumento de dominação – mas, ainda assim, cujo crescente potencial permite uma transformação da sociedade, uma utilização reflexiva deste potencial sobre a divisão social do trabalho, tal que não apenas o objetivo da produção com máquinas, mas as próprias maquinas serão diferentes.
A possibilidade desta reversão dialética permite a superação e a rejeição das duas posições socialmente críticas antinômicas que são imanentes à formação social determinada pelo capital: (1) a tentativa de "superar" o trabalho alienado e a alienação das pessoas em relação à natureza, através da rejeição da tecnologia industrial per se, na esperança de um retorno impossível a uma sociedade pré-industrial e (2) a tentativa de lutar por um modo justo de distribuição da grande massa de bens e serviços produzidos, aceitando uma continuação linear da tecnologia determinada pelo capital em sua forma manifesta – uma forma de produção que tende a solapar "as fontes originais de toda a riqueza – o solo e o trabalhador". 44 Ambas as posições são imanentes à forma capitalista de aparência, na medida em que cada uma delas apreende apenas – quer aceitando, quer rejeitando – aquilo que é manifesto: a dimensão do valor tal como ela é expressa no aspecto material da dimensão do valor de uso.”


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Existe um marxismo "correto"? Hobsbawm com a palavra.


Desde a primeira leitura da “Era das Revoluções”, ingressei no fã clube de Eric Hobsbawm. Em 1966, já sem ilusões em relação ao comunismo, Eric escreve “O Diálogo sobre o Marxismo” que, em 1973, participaria do livro “Revolucionários” (editado no Brasil pela Paz e Terra). No texto, afirma que “uma grande parte do marxismo deve ser repensado e redescoberto”. Hoje, passados 44 anos, o desafio permanece. Selecionei 2 parágrafos que evidenciam os equívocos a que todos nós, ex-membros do “Partidão”, fomos induzidos.
“ Os comunistas vão se dando conta, cada vez mais, de que o que aprenderam a acreditar e a repetir não era simplesmente o “marxismo”, senão o marxismo conforme desenvolvido por Lênin e congelado, simplificado, e às vezes distorcido sob Stalin, na União Soviética. Que o “marxismo” não é um corpo de teorias e descobertas acabadas, mas um processo de desenvolvimento; que o próprio pensamento de Marx, por exemplo, continuou a se desenvolver durante toda sua vida. Que o marxismo tem, sem dúvida, respostas potenciais, mas frequentemente nenhuma resposta efetiva aos problemas concretos que hoje enfrentamos, em parte porque a situação mudou desde Marx e Lênin, em parte porque nenhum dos dois disse nada sobre certos problemas que já existiam em suas épocas e que são importantes para nós.”
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“Não há atalhos para o marxismo: nem o apelo a Lênin contra Stalin, nem a Marx, nem ao jovem Marx contra o Marx da maturidade. Há somente trabalho árduo, longo e, nas atuais circunstâncias, talvez não conducente a conclusões definitivas.”

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Postone. Uma releitura de Marx. Parte 2


Moishe Postone, professor de história da Universidade de Chicago, tem despertado a ira dos marxistas tradicionais. Sua obra “Necessidade, Tempo e Trabalho” está disponível, em português,  em http://obeco.no.sapo.pt/mpt2.htm
Nas primeiras páginas, Postone define o que seria o “Marxismo Tradicional”. Selecionei alguns trechos para estimular a leitura da íntegra do documento:

“Dentro da tradição Marxista, a essência do capitalismo foi geralmente caracterizada em termos de economia de mercado e propriedade privada dos meios de produção. O Socialismo, como sua negação histórica, foi visto – de forma correspondente – em termos de propriedade coletiva dos meios de produção e planejamento econômico.”
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“..........o modo capitalista de propriedade e distribuição deu origem a um novo modo de produção – a produção industrial – a qual criou um grau de riqueza antes impensável, embora distribuída de forma altamente desigual. Contudo, este modo de produção cria as condições da possibilidade de um modo de distribuição novo, justo e conscientemente regulado.”
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“Vê-se a contradição como ocorrendo entre uma capacidade produtiva que, potencialmente, poderia satisfazer as necessidades de consumo de todos os membros da sociedade e relações sócio-econômicas que impedem a efetivação deste potencial.”
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“Separa-se, por um lado, a dominação de classe e a propriedade privada, como específicas do capitalismo e, por outro lado, o trabalho industrial como não-específico e independente do capitalismo. Uma vez aceita esta estrutura, contudo, segue-se que o modo industrial de produção – aquele baseado no trabalho proletário – é visto como historicamente final. Isto leva à noção de socialismo como a continuação linear do modo industrial de produção, o qual foi originado pelo capitalismo; o socialismo como um novo modo de administração política e econômica do mesmo modo de produção.
A esta estrutura teórica básica denomino Marxismo tradicional.”

domingo, 5 de dezembro de 2010

Postone. Uma releitura de Marx. Parte 1


Moishe Postone, professor de história da Universidade de Chicago, tem despertado a ira dos marxistas tradicionais. Vou dedicar algumas postagens às análises do historiador. Pra começar, segue a critica de Denis Collin, quando do lançamento da versão francesa ( 2009) de “Tempo, Trabalho e Dominação Social”.
“ Postone propõe uma reinterpretação de Marx, em oposição radical ao marxismo tradicional, baseado na leitura não integrada dos Grundrisse ( os famosos “manuscritos”, observação minha)  e de O Capital, principalmente o livro 1, primeira secção, consagrada à mercadoria, e a secção IV. Diferentemente dos analistas que usam os Grundrisse em oposição a O Capital (Negri, por exemplo) e daqueles que se dedicam ao Capital e abandonam os Grundrisse, Postone propõe a leitura conjunta das duas obras, tomando os Grundrisse como a “chave” para a interpretação de O Capital.
Postone integra a longa lista de nossos dias daqueles que pretendem livrar Marx do “fardão” do marxismo, que não buscam simplesmente liberar o “verdadeiro Marx”, que não tencionam fazer uma “volta a Marx”, mas apenas iluminar uma leitura fecunda daquele que Michel Henry chama de “um dos maiores filósofos de todos os tempos”.
Para os que gostariam de conhecer, “sem intermediários”, as teses de Moishe Postone, basta acessar www.youtube.com/watch?v=apbqa3TSuZU        e assistir a sua intervenção no Congresso Marx International V, de 2007.


sábado, 4 de dezembro de 2010

Che. Conselhos para o jovem comunista.

Em outubro de 1962, Che Guevara fala, na União dos Jovens Comunistas, sobre como deve ser um jovem comunista. Seguem dois pequenos trechos que explicitam a sua pureza de pensamento:

“Ser um exemplo vivo, ser o espelho onde possam olhar-se os homens e mulheres de idade mais avançada que perderam o entusiasmo juvenil, que perderam a fé na vida e que ante o estímulo do exemplo reagem sempre bem. Eis outra tarefa dos jovens comunistas.
Junto disso, um grande espírito de sacrifício, um espírito de sacrifício não apenas para as jornadas heróicas, mas para todo o momento. Sacrificar-se para ajudar o companheiro nas pequenas tarefas para que possa cumprir o seu trabalho, para que possa cumprir com o seu dever no colégio, no estudo, para que possa melhorar de qualquer maneira. Estar sempre atento a toda a massa humana que o rodeia. “.......................................................................................................................
“O jovem comunista não pode estar limitado pelas fronteiras de um território, o jovem comunista deve praticar o internacionalismo proletário e senti-lo como coisa sua. Lembrar-se, como devemos lembrar-nos todos nós, aspirantes a comunistas cá em Cuba, que somos um exemplo real e palpável para toda a nossa América, para outros países do mundo que lutam também em outros continentes pela sua liberdade, contra o colonialismo, contra o neocolonialismo, contra o imperialismo, contra todas as formas de opressão dos sistemas injustos. Lembrar sempre que somos um facho acesso, que somos o mesmo espelho que cada um de nós individualmente é para o povo de Cuba, e somos esse espelho para que se olhem nele os povos da América, os povos do mundo oprimido, que lutam pela sua liberdade. E devemos ser dignos desse exemplo.”

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O socialista Albert Einstein. Parte 3


Em 1949, Einstein escreve artigo intitulado “Why Socialism?” para o primeiro número  da revista marxista Monthly Review. O texto, na versão original pode ser acessado em www.monthlyreview.org/598einst.htm. Ontem, publiquei a Parte 2. Segue a continuação quando o cientista adverte que  “uma economia planificada pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo”. Vide o stalinismo, que bombava quando Einstein escreveu o texto.

A situação prevalecente em uma sociedade baseada na propriedade privada do capital está então caracterizada por dois princípios mestres: primeiro, os meios de produção são propriedade de indivíduos, e estes dispõem deles como melhor lhes parecer; segundo, o contrato de trabalho é livre. Supostamente, não existe sociedade capitalista pura, neste sentido. Em particular, deve-se assinalar que os trabalhadores, por meio de grandes e amargas lutas políticas, tem conseguido uma forma um tanto melhorada do “livre contrato de trabalho” para certas categorias de trabalhadores. Mas, tomada como um todo, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.
Esta mutilação dos indivíduos é o que considero o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educativo como um todo sofre este mal. Uma atitude exageradamente competitiva se inculca no estudante, que é treinado para adorar o êxito da aquisição como uma preparação para sua futura carreira.
Estou convencido de que há somente uma forma de eliminar estes graves malefícios: através do estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional que seja orientado para fins sociais. Em tal economia, os meios de produção são propriedade da própria sociedade e utilizados de maneira planejada. Uma economia planejada, que ajuste a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho entre todos aptos a trabalhar e garantiria os meios de vida de todos, homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de promover suas próprias habilidades inatas, intentaria desenvolver em um sentido de responsabilidade por seu próximo, em lugar da glorificação do poder e do êxito em nossa sociedade atual.
Sem embargo, é preciso recordar que uma economia planificada não é todavia o socialismo. Uma economia planificada como tal pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis: “como é possível, considerando a muito abarcadora centralização do poder, conseguir que a burocracia não seja todo poderosa e arrogante? Como podem proteger os direitos do indivíduo e mediante ele assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?”
Ter claras as metas e problemas do socialismo é de grande importância nesta época de transição. Dado que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e sem travas destes problemas são um grande tabu, considero a fundação desta revista um importante serviço público.
http://www.marxists.org/portugues/einstein/1949/05/socialismo.htm

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O socialista Albert Einstein. Parte 2


Em 1949, Einstein escreve artigo intitulado “Why Socialism?” para o primeiro número  da revista marxista Monthly Review. O texto, na versão original pode ser acessado em www.monthlyreview.org/598einst.htm. Ontem, publiquei a Parte 1. Segue a continuação quando o cientista fala do controle das fontes de informação pelos “capitalistas privados”:

“O capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competência entre os capitalistas, e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho alentam a formação de unidades maiores de produção em detrimento das menores. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado cujo enorme poder não pode ser controlado efetivamente nem sequer por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados pelos partidos políticos, em grande medida financiados ou de alguma maneira influenciados por capitalistas privados que, por todos efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A conseqüência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos grupos não privilegiados da população. Por outra parte, nas condições atuais os capitalistas privados controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa escrita, rádio, educação). É então extremamente difícil, e por certo impossível na maioria dos casos, que cada cidadão possa chegar às conclusões objetivas e fazer uso inteligente de seus direitos políticos.
Continua em O socialista Albert Einstein. Parte 3

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O socialista Albert Einstein. Parte 1


Em 1949, Einstein escreve artigo intitulado “Why Socialism?” para o primeiro número  da revista marxista Monthly Review. O texto, na versão original pode ser acessado em www.monthlyreview.org/598einst.htm. Ou em espanhol no site Rebelion.org. Selecionei um trecho interessante, com tradução de Rodrigo Jurecê Mattos Gonçalves para o marxists internet archive:

“A anarquia econômica da sociedade capitalista de hoje em dia é, em minha opinião, a verdadeira fonte dos males. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros se esforçam incessantemente em privar o outro dos frutos de seu trabalho coletivo — não pela força mas cumprindo inteiramente as regras legalmente estabelecidas. A este respeito é importante dar-se conta de que os meios de produção — isto é: toda a capacidade produtiva necessária para produzir bens de consumo assim como bens de capital adicionais — podem ser — e em sua maioria o são efetivamente — a propriedade privada de alguns indivíduos.
Para simplificar, na discussão que se segue chamarei “trabalhadores” os que participam na propriedade dos meios de produção, apesar de isto não corresponder ao uso corrente do termo. Usando os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que transformam-se em propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que lhe pagam, ambos medidos em termos de valor real. Em quanto o contrato do trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe está determinado não pelo valor real dos bens que produz mas por suas necessidades mais básicas e pela necessidade de força de trabalho por parte dos capitalistas em relação ao número de trabalhadores competindo por empregos. É importante entender que nem sequer na teoria o salário do trabalhador é determinado pelo valor do que produz.”

Continua em O Socialista Albert Einstein. Parte 2