quarta-feira, 8 de maio de 2013

O diabo e o fetichismo da mercadoria.


Em 1980,  a editora da Universidade da Carolina do Norte publica o livro de Michael Taussig  “ The Devil and Commodity Fetishism in South America”. Em 2010, a editora UNESP comemora os 30 anos da edição e lança a tradução de Priscila Santos da Costa. Estou iniciando a leitura da obra em que Taussig relata sua vivência com camponeses colombianos e estudos antropológicos com mineiros de estanho da Bolívia. Selecionei 3 passagens provocativas:

“Se o fetichismo da mercadoria pode ser interpretado como o que transforma pessoas em coisas e coisas em pessoas, então talvez seja possível – ne medida em que nos olhamos como estranhos – livrar-nos da alienação em um novo mundo, no qual os poderes fantásticos do fetichismo tornam-se liberadores e até o diabo deve emendar-se.”
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“O conceito de fetichismo da mercadoria, desenvolvido por Karl Marx  em O Capital, é fundamental para minha desconstrução do espírito maligno nas relações de produção capitalista. A fetichização do mal na figura do diabo é uma imagem mediadora do conflito entre os modos pré-capitalistas e capitalistas de objetivar a condição humana.”
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“Ao explorar as diferentes conotações metafísicas e ontológicas próprias a cada um desses domínios ( valor de uso e valor de troca) seremos levados, sem dúvida, a contrastar o misticismo popular pré-capitalista com a forma de mistificação capitalista que Marx, sarcástico, rotulou de fetichismo da mercadoria.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A morte de Marx, no jornal lusitano.

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Em 18 de março de 1883 - 4 dias após a morte de Marx, em Londres - o jornal do Partido Operário Socialista, lança dúvidas sobre a veracidade da noticia divulgada pela agência Havas. Segue o texto, em português do final do século 19:

Um tellegrama de Paris anuncia o fallecimento do grande pensador socialista Karl Marx. Permittam-nos a agencia Havas e os jornaes burguezes que publicam a noticia, que duvidemos da veracidade do facto, não por que o achemos extranho, mas por que o não podemos acreditar sem comunicação official. Sabemos a avidez com que os repporters inventam noticias de sensação, e esta é uma d´aquellas que nos allucina, que nos confunde, só ao pensar na perda do Mestre. Além d´isso sabemos que Marx habitava ultimamente Londres e não tivemos noticia da sua partida para Paris.
A ser verdadeira aquella participação, o socialismo universal, a sciencia, a humanidade, terão a lamentar o desapparecimento da intelligencia mais potente da civilisição moderna. Não é preciso que só nós o digamos; dil-o um jornal burguez nas seguintes phrazes que transcrevemos:
«Era, por ventura, o primeiro vulto do socialismo, e, sem duvida, uma das mais notaveis intelligencias do seculo. O seu livro «O Capital», pela profundeza de vistas, pelo rigor penetrantissimo do raciocínio, pela vastidão do seu plano admiravelmente cumprido, é uma obra suprema, é o mais luminoso dos trabalhos que em materia economica se tem feito.
Foi tambem importantissimo o papel de Karl Marx como homem de acção, como instigador secreto do movimento socialista».
Esperamos anciosos por informações fidedignas.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Fetichismo sem Mercadoria.


Isleide Arruda Fontenelle produziu um excelente artigo sobre o fetichismo da mercadoria – “O trabalho da ilusão: produção, consumo e subjetividade na sociedade contemporânea” – com ênfase na substituição do “ter” pelo “estar”, na Sociedade do Hiperconsumo e do Espetáculo que estamos vivendo nesta segunda década do século 21. A autora passa muito perto da afirmativa, defendida por este blog, que o fetichismo da mercadoria é o conceito precursor do marketing e do neuromarketing.  A não referência ao fetichismo nos textos dos formuladores das bases do marketing, nas décadas de 50 e 60, é perfeitamente explicável pela “guerra fria” (fria?) quando Marx era sinônimo de União Soviética/Stalin. Quem poderia imaginar Phillip Kotler – guru de todos nós – citando o velho Karl ?
A substituição do “ter” pelo “estar” já foi tema de postagem aqui no blog:
É sempre oportuno relembrar que, com a evolução dos produtores/consumidores, os produtos foram se metamorfoseando em serviços.

Seguem dois trechos do trabalho da Professora Isleide:

“O termo “fetichismo da mercadoria” já é amplamente consagrado na teoria sociológica marxista, sendo tomado especialmente como ponto de partida para sua crítica à Economia Política do século XIX, no período de consolidação do capitalismo industrial. A construção do conceito deu-se, portanto, a partir de uma interpretação da realidade da época, enfocando aspectos objetivos e subjetivos ligados à nova forma social estabelecida pelo capitalismo vigente. Portanto, a uma organização social da produção, poderíamos dizer que Marx respondeu com uma “organização social da ilusão”.
Dos muitos aspectos trabalhados no “fetichismo da mercadoria”, um em especial ainda se sustenta (e não por acaso precisa ser retomado em uma discussão sobre o novo estatuto do fetichismo na sociedade de consumo contemporânea): de que o valor da mercadoria não está no próprio corpo da mercadoria. Para Marx, ele é produto de uma organização social: da que produz a mercadoria (força-trabalho/valor­trabalho/mais-valia) e da que consome a mercadoria, que mediante valores culturais da época, também passa a valorizar a mercadoria (valor-desejo/valor-de-gozo). Portanto, em Marx, o fetichismo da mercadoria indicava uma espiritualização do corpo-mercadoria, embora a mercadoria ainda fosse vendida como aquilo que era: algodão, café etc.
Com o desenvolvimento tecnológico a partir dos anos 1960 e a criação da imagem de marca, a mercadoria ganhou uma alma, aquela alma que Walter Benjamin ainda se perguntava, 50 anos depois dos escritos marxistas.”
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Sem dúvida, o suporte materialista para pensarmos os desdobramentos do fetichismo está na questão do valor, pois ele é o “Real da ilusão” no qual estamos enredados. E foi em busca dessa compreensão, a partir de uma análise interna aos mecanismos do marketing na sociedade de consumo contemporânea, que constatei o estágio atual do fetichismo das imagens “coincidindo” com um momento do desenvolvimento econômico no qual dá-se início a uma nova etapa comercial em que a mercadoria torna-se, de fato, desnecessária.
Trata-se da “economia do acesso” – uma forma de economia que promove o acesso a serviços e experiências, a fim de que se possa deles gozar, sem que se obtenha a propriedade do serviço. Ou seja: o capitalismo está entrando em uma nova fase na qual o acesso a um bem ou serviço passa a ser mais importante do que a compra/propriedade desse serviço. E isso altera radicalmente a noção de propriedade, um dos elementos centrais do capitalismo industrial e do contrato social moderno. Assim como a questão do valor: veicula-se agora o valor da experiência.”

terça-feira, 23 de abril de 2013

O fetichismo do plano


Segue a última parte da tradução livre dos comentários de Guillaume Collinet sobre o livro “Le fétichisme chez Marx, le marxisme comme théorie critique” de Antoine Artous . Nesta postagem, Collinet se pergunta o que seria de uma sociedade sem qualquer fetiche?  E admite que “os erros cometidos pelos países do "socialismo real" veio para preencher as lacunas internas na teoria de Marx, lançando sobre elas um forte facho de luz”.

“O mais interessante é o capítulo final do livro de Artous, que examina a delicada questão da natureza do socialismo, as implicações da necessária expansão da teoria do fetichismo além daquela que se circunscreve meramente à mercadoria. O que seria uma sociedade sem qualquer fetiche? Sabemos que Marx responde a esta pergunta com a ideia de "plano comum/consertado/harmonizado (conserté) ". Em uma sociedade onde, baseada na propriedade comum dos meios de produção, a atividade econômica assume uma forma planificada e as relações sociais tornam-se simples e transparentes.
Com tal resposta, Marx se apresenta curiosamente infiel à sua própria intuição de um fetichismo próprio da forma organizada. Como testemunho, destaque-se a comparação que ele mesmo estabelece entre a abordagem de Robinson Crusoé, anotando em um livro o trabalho já realizado e os restantes para ser feito, e a lógica prevalecente na futura sociedade comunista.
O planejamento, mesmo o “concertado”, como o realizado dentro da empresa capitalista, corresponde a uma forma social, que cristaliza o trabalho social realizado pela cooperação entre os vários produtores. Em outras palavras, a operação consiste em, depois de um plano,  transformar uma multidão de forças de trabalho individuais em uma única força de trabalho social  não pode ser reduzida a uma "administração de coisas",  a uma simples operação de tecnologia  social.

Falta a Marx, a despeito de suas intuições, uma análise do “plano” como uma relação social de produção. Isso vale também para o marxismo ulterior. Trotsky, por exemplo, cujo mérito é se aperceber que, com base nas contradições de uma economia estatizada e planificada, pode se construir uma burocracia, no entanto se recusou  ao menos a considerar que esta classe social pudesse intervir no processo de produção (ele circunscreveu sua ação ao segmento da distribuição). Será que é preciso dizer que a falta de uma caracterização do “plano” como provável formador de  uma classe pesou muito no destino dos regimes ditos marxistas?
Não é, no entanto, intenção de Artous, fazer de Marx  o responsável por esse destino, mas apenas a admitir que os erros cometidos pelos países do "socialismo real" veio para preencher as lacunas internas na teoria de Marx, lançando sobre elas um forte facho de luz.
Ao final, a leitura da obra de Artous deixa a todos convencidos do imenso painel   teórico aberto a todos aqueles para os quais a crítica das relações sociais capitalistas ainda tem como se alimentar na obra Marx.
Que status deve ser dado aos pressupostos jurídicos e políticos contidos nos relatórios e comerciais e organizacionais? Qual é a relação entre o capitalismo, mercado e organização ? Como pensar, em uma sociedade socialista, a articulação entre as formas de mercado, organizadas e de produção associativa? Como se vê, não é possível se contentar com simples ajustes à teoria de Marx  ou até mesmo correções marginais. A tarefa com a qual os marxistas contemporâneos estão confrontados é a reconstrução do marxismo.
Ao identificar a possibilidade de um fetichismo da organização, estabelecendo que o capitalismo se define também pelo desenvolvimento de formas específicas de administração (e não apenas pelo mercado), sublinhando que o socialismo não pode ser identificado pelo formato de organização da produção, sem dúvida, o trabalho de Artous aporta uma contribuição muito útil para esta tarefa.”
Referência:
Guillaume Collinet, "Antoine Artous, o fetichismo de Marx marxismo como teoria crítica,"| 2006 posted 27 de dezembro de 2012, http://variations.revues.org/525







sábado, 20 de abril de 2013

Fetichismo da mercadoria e da produção.


Segue a terceira parte da tradução livre dos comentários de Guillaume Collinet sobre o livro “Le fétichisme chez Marx, le marxisme comme théorie critique” de Antoine Artous . Nesta postagem, Collinet registra a existência de um outro fetichismo, próprio da organização capitalista de produção. Dedica tb alguns comentários ao fenômeno da “reificação/coisificação” e conclui com a afirmação “No capitalismo, as pessoas parecem dominadas por coisas, por  "abstrações" (Jean-Marie Vincent), e não por pessoas, o que resume, de forma precisa, o conceito de fetichismo”.
“Uma das outras contribuições importantes da reflexão de Artous refere-se a teoria do fetichismo em si. Frequentemente, ela é reduzida à teoria do fetichismo da mercadoria. No entanto, é possível mostrar que, nos textos dedicados à "submissão real dos trabalhadores ao capital", Marx revela um segundo fetichismo:  aquele que é próprio da organização capitalista de produção. O conceito de "submissão real", na verdade, é o fato de que, no processo de produção capitalista, o trabalhador, além de não possuir os meios de produção ("submissão formal") perde o controle do processo. Em outras palavras, o trabalhador é transformado em um simples auxiliar dos meios de produção (através da mecanização, é confinado a simples executor, etc.).
Consequentemente, os meios de produção aparecem como sendo eles próprios fontes de valor (como evidenciado pela distinção adequada para a economia burguesa, capital de giro e capital fixo, que esconde a diferença radical entre trabalho e meios de produção). O próprio Marx sugere a relação desta representação com a de fetichismo da mercadoria. Sendo certo que, no último caso, o fetichismo toma a forma de uma "coisificação das relações sociais”, enquanto que na da organização, a sua forma é, mais uma " personificação das coisas "(meios produção como uma personificação do capital).

Apresentando um fetichismo peculiar à organização capitalista de produção, distinto daquele da mercadortia, Artous  explora a fundo uma intuição de Marx, sendo que este último, como veremos, não permaneceu sempre fiel a ela. Porque esta extensão da teoria do fetichismo é repleta de implicações teóricas. Em particular, leva a uma ruptura com a definição clássica marxista do capitalismo como uma simples generalização das relações de mercado. Se é verdade que a organização capitalista engendra formas de dominação de opacidade e dominação irredutíveis a aquelas geradas por relações comerciais, conclui-se que o capitalismo também é definido pela instituição de formas organizacionais específicas. Isso implica que outra  forma organizada de produção não é suficiente por si só para definir o socialismo. A tradição marxista, incluindo o próprio Marx, estava errada ao identificar  a passagem da forma-mercadoria de produção para a produção planificada. A própria organização pode se tornar uma forma social, fetichizada e pode dar origem à relações de classe. A abolição do mercado não significa o fim da exploração. Nota-se, aprofundando a ideia de um fetichismo da organização, que a reflexão de Artous nos confronta com questões fundamentais para o desenvolvimento de um "socialismo do século XXI".

Teoria do fetichismo e da teoria da reificação

Os textos de Marx consagrados à organização capitalista foram lidos atentamente por muitos autores marxistas, Lukács em particular, que constata e antecipa o fato que o desenvolvimento do capitalismo leva a uma redução das referencias  diretas do comércio, e a um aumento da forma organizada de produção. Em “História e Consciência de Classe”, Lukács desenvolve uma teoria da reificação destinada a considerar esta evolução; assim introduz uma série de notáveis ​​inflexões na teoria marxista do fetichismo.

Ao contrário de Marx, Lukács parte do processo imediato de produção (ele elide o momento específico das relações de mercado). E marca neste processo uma aplicação desenfreada do "princípio de racionalização sobre a base de cálculo" (Weber). Em outras palavras, a organização capitalista não é apenas o local de extorsão do sub-trabalho, ela se caracteriza também e especialmente por uma perda de propriedades individuais e qualitativas do trabalho humano, como resultado da quantificação de trabalho realizado no processo de produção capitalista. Por isso, ´preciso radicalizar a teoria do fetichismo. Não são mais apenas as relações sociais que se encontram coisificadas, mas as próprias pessoas. Esta lógica de reificação não afeta não só o processo de produção. Ela tende a invadir todo o espaço social, até envolver as formas jurídicas, políticas, e mesmo científicas que acompanham a ascensão da sociedade burguesa.

Mas, para Artous, esta teoria da reificação, por mais impressionante que seja, subestima as contradições inerentes às relações sociais capitalistas. Se, na relação salarial, o trabalhador é reduzido ao status de simples coisa, não há mais qualquer diferença fundamental entre este relacionamento e entre um mestre e seu escravo, ou um senhor e um servo ( no qual, de fato, o trabalhador já não é uma pessoa, mas uma coisa).
Lukács abole a especificidade da relação salarial de exploração. O assalariado moderno coloca à disposição do capitalista não a sua pessoa inteira, mas apenas a sua força de trabalho. Seu status é contraditório: ele é, por sua vez, sujeito de direito e objeto do despotismo da fábrica. Na mesma linha, a análise lukacsiana das formas políticas da sociedade burguesa permanecem unilaterais.
Na esteira de Weber, o autor de “História e consciência de classe”, define o estado moderno como um aparelho burocrático, no qual a vontade coletiva é coisificada. Esta definição tem certamente uma parte de verdade. Mas o Estado moderno é também um estado supostamente representativo e fundado na pretensão de liberdade e igualdade.

Esta crítica de Lukács permite reafirmar mais uma vez que as formas de representações das relações sociais, enquanto fontes de opacidade não são redutíveis a meras ilusões, fingimentos. A essência da teoria do fetichismo de Marx é justamente mostrar que as  relações sociais capitalistas não são transparentes em si, sem portanto rebater as referências dos relatórios de dependência pessoal. A exploração, mudando a aparência, muda sua natureza. No capitalismo, as pessoas parecem dominadas por coisas, por  "abstrações" (Jean-Marie Vincent), mas não por pessoas, o que resume, de forma precisa, o conceito de fetichismo”.
Referência:
Guillaume Collinet, "Antoine Artous, o fetichismo de Marx marxismo como teoria crítica,"| 2006 posted 27 de dezembro de 2012, http://variations.revues.org/525





quinta-feira, 18 de abril de 2013

Desencantamento do mundo e fetichismo.


Segue a segunda parte da tradução livre dos comentários de Guillaume Collinet sobre o livro “Le fétichisme chez Marx, le marxisme comme théorie critique” de Antoine Artous . Nesta postagem, Collinet registra o movimento de ruptura do capitalismo e o movimento de “desencantamento do mundo”, na era burguesa.

“Este conceito não designa outra coisa que um véu pudico lançado sobre a origem do valor. Mais especificamente, este conceito abriga  a intenção de refletir sobre a forma de opacidade específica que caracteriza as relações sociais capitalistas.
Cada sistema social cria suas formas específicas de opacidade. No que concerne às formas pré-capitalistas, esta opacidade tem a marca das relações sociais de  produção contidas nas relações de dependência pessoal (patrão / escravo, senhor / servo ...) legitimadas pela referência a uma ordem natural ou cósmica.
É preciso constatar que, a partir deste ponto de vista, o capitalismo é um ruptura. A era burguesa é marcada por um movimento de "desencantamento do mundo" (Weber). Marx registra perfeitamente, esta ruptura; e é por isso que ele ressaltou que o assalariado moderno não vende a sua pessoa, mas apenas a sua força de trabalho (a relação salarial não é equivalente a uma dependência pessoal).
No entanto, Marx mostra também que, apesar da retirada dos deuses  da vida da cidade, as relações sociais capitalistas não são apresentadas como elas realmente são - ou seja, relações de exploração.
Em vez disso, elas mascaram a representação social do objeto - e da força de trabalho – como mercadoria; elas tomam a forma de uma relação entre coisas, a qual se atribui, fantasmagoricamente, o poder de definir a ordem social.
É para prestar conta desta forma específica de opacidade, que consiste em coisificar uma relação social, que Marx mobiliza a categoria de fetichismo, originalmente destinada a caracterizar as formas de religiosidade as mais primitivas e o fato de adorar um objeto ao qual eram atribuídos poderes divinos. Este empréstimo tem inicialmente uma função crítica: uma categoria que identifica uma forma arcaica é usada para capturar algumas características de  sociedades ditas mais desenvolvidas.

Tais formas de opacidades específicas geradas por cada sistema social, como corretamente insiste Artous, não são uma mera ilusão, justificando a posteriori as relações de produção que poderiam sobreviver perfeitamente fora deles.
Estas representações sociais constituem relações sociais  a quem servem para legitimar. Elas são a pressuposição, a condição. Sua redução a um mero reflexo, mais ou menos deformado, das condições materiais de produção, pode autorizar, é verdade, alguns dos textos de Marx.
Ela tornou-se um verdadeiro lugar comum do marxismo ulterior. Este não é o menor dos méritos do trabalho de Artous que rompe definitivamente com o lugar-comum. Ele estabelece de forma convincente que o esforço permanente de Marx em pensar a dimensão ideal das relações sociais não se enquadra com a teoria da representação-reflexo.”
Referência:
Guillaume Collinet, "Antoine Artous, o fetichismo de Marx marxismo como teoria crítica,"| 2006 posted 27 de dezembro de 2012, http://variations.revues.org/525



quarta-feira, 17 de abril de 2013

Fetichismo.Tema central da obra de Marx.

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Antoine Artous em “Le fétichisme chez Marx, le marxisme comme théorie critique” classifica o fetichismo como o tema central da obra de Marx. A partir de hoje, vou dividir em 3 postagens, com tradução livre, o excelente comentário crítico de Guillaume Collinet, publicado em dezembro de 2012 ( vide referência no final).

“Pra começar, porque o interesse específico pelo fetichismo? Para Artous  esta categoria é central na obra de Marx. Ele atropela as leituras ortodoxas como as de inspiração althusserianas, que tendem a interpretar o trecho do Capital dedicado ao fetichismo como uma digressão filosófica (mais ou menos feliz) em uma obra com vocação científica. Na verdade, esta questão do status da teoria do fetichismo, no centro do conjunto da conceituação marxista está relacionada, fundamentalmente, com a questão da interpretação mais “conveniente” da teoria marxista do valor.
Frequentemente, aos olhos de Artous, esta teoria do valor foi lida como uma mera repetição da teoria do valor-trabalho, já formulada pelos economistas clássicos (Ricardo em particular).
Esta leitura leva a mascarar a real contribuição de Marx. Já que a questão que se coloca é bastante diferente da apresentada pelos economistas clássicos.
Seu problema não se reduz à medida do valor (que remete a admitir que, desde o início, os bens têm um valor), que é aquele de origem, ou melhor, o fundamento do valor. Por que, nas sociedades capitalistas, os produtos do trabalho tomam a forma mercadorias  e são socialmente determinados como dotados de um valor? Resposta de Marx: o valor, que parece uma qualidade natural inerente aos produtos do trabalho, é, na realidade, a representação determinada pelo trabalho abstrato, isto é, a forma que toma o trabalho social no regime capitalista.
Em outras palavras, o valor cristaliza as relações sociais que são forjadas no processo de trabalho capitalista. Marx opera assim, através de sua teoria do valor, uma desnaturalização das relações de mercado, o que contrasta claramente com a preocupação dos clássicos.
Artous qualifica a teoria marxista de "teoria da forma valor dos produtos do trabalho", na sequência de Jean-Marie Vincent, a quem dedicou seu livro.

Referência:
Guillaume Collinet, "Antoine Artous, o fetichismo de Marx marxismo como teoria crítica,"| 2006 posted 27 de dezembro de 2012, http://variations.revues.org/525


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Fetichismo X Alienação.


Antoine Artous, autor de diversos livros sobre a obra de Marx, concedeu uma estimulante entrevista ao pesquisador da Unicamp Henrique Amorim. Na pergunta sobre o conceito de fetichismo da mercadoria, Artous insiste na tese de dois Marxs – o dos Manuscritos de 1844 versus o de O Capital

Henrique Amorim - Qual é a importância do conceito de fetichismo da mercadoria em Marx? A teoria do fetichismo é um desenvolvimento da teoria da alienação?
Antoine Artous - Existe certamente um elo nas preocupações de análise. Trata-se de dar conta sobre como, nas relações de produção capitalistas, as relações sociais se conectam acima da cabeça dos indivíduos (e, em primeiro lugar, dos assalariados) e aparecem como o movimento da “coisa social” (o capital, o trabalho, a mercadoria...), relações sociais que são “naturalizadas”, consideradas como “naturais”. Em todo caso, a teoria da alienação, caso se queira levá-la a sério, se apoia numa problemática “essencialista”; assim, nos Manuscritos de 1844, o jovem Marx faz referência a uma essência humana (do trabalho) que se expressaria sob uma forma alienada no trabalho capitalista. Naturalmente Marx, que conhece Hegel , não a considera naturalista, ela se constrói através da história. Isto tem diversas consequências na análise (o trabalho explorado é pensado sob a forma de um trabalho artesanal dominado pelo capital) e nas problemáticas de emancipação: a emancipação é a marcha para uma sociedade transparente, pois acaba permitindo que se realize a essência humana. Ora, fundamentalmente, em O Capital, Marx toma outro ponto de partida: a especificidade das relações sociais de produção capitalista e seu efeito sobre o agir e o pensamento dos indivíduos. Neste quadro, a teoria do fetichismo não remete ao que seria uma forma de consciência alienada, mas à opacidade específica produzida pela dominação social da forma valor caracterizada pelas relações de produção capitalistas. Aqui, a concepção da dita “ideologia” é interessante, pois Marx não se refere inicialmente à produção manipulada de ideias pela classe dominante, mas – de certa forma – a um campo de visão imbricado nas relações sociais. É, por exemplo, desta maneira que Marx critica a economia política clássica, sem fazer disso um simples discurso apologético.



segunda-feira, 8 de abril de 2013

Economia de mercado socialista.

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A declaração de Zhang Yuyan, diretor da Academia de Ciências Sociais da China, ao jornal Valor Econômico de 5/4/2013 deve ter irritado os marxistas clássicos  (ainda existem?) e os seguidores venezuelanos do “socialismo do século 21”.
“O que queremos é deixar o mercado resolver o que ele pode resolver com melhor alocação de recursos; e o Estado, mais profissionalizado, atender ao que o mercado não atende. Estamos na transição do planejamento central para uma economia de mercado socialista.”

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Marx, Adam Smith e Keynes. Parte 8


A mais eficaz medida de presença de um tema na web é o numero de “resultados” em uma busca no Google. Em 6 de janeiro de 2011, eram os seguintes os resultados para Marx – 24,4 milhões; Adam Smith – 11 milhões e Keynes – 13,5 milhões.  Em 3 de abril de 2013 os números eram Marx – 78,9 milhões; Adam Smith – 9,03 milhões; Keynes – 36,5 milhões. Os resultados indicam presença crescente de Marx e Keynes e o inverso para Adam Smith. A cada dia, o velho Karl é mais revisitado !!!!!!!
Obs. Ao proceder a busca, colocar os nomes entre “parênteses”.

domingo, 31 de março de 2013

Os "Marxs"


Antoine Artous, autor de diversos livros sobre a obra de Marx, concedeu uma estimulante entrevista ao pesquisador da Unicamp Henrique Amorim. Na primeira pergunta Artous trata de um tema, acredito, pacífico nos dias de hoje : Marx são muitos... A classificação simplista do jovem Marx X o Marx maduro de há muito está superada, assim como o jovem hegeliano X o sênior não-idealista, idem. Altuhusser tem razão quando declara que o capítulo da mercadoria no volume I de O Capital tem “toques” hegelianos. Na entrevista, Artous enfatiza que o Capital é obra inacabada. Para ler a íntegra da entrevista, acesse http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2971&secao=316
Henrique Amorim - Como pensar Marx nos dias de hoje? É necessário ir além de Marx?
Antoine Artous - As leituras de Marx se tornaram irremediavelmente plurais e, além disso, completamente situadas na história do marxismo. Não tem sentido ler Marx para restabelecer a verdade de uma obra que não somente conheceu fortes evoluções de diversas problemáticas, mas da qual os maiores textos – O Capital – são inacabados. Isso absolutamente não quer dizer que o rigor na leitura não seja necessário – ao contrário, e ainda mais do que no passado, sem dúvida, o dimensionamento das perspectivas e as problematizações são plurais. No que me diz respeito, minha caminhada tem sido dupla: de uma parte, realizei um retorno crítico à análise do Estado e da política em Marx e no marxismo; e, de outra parte, faço referência aos textos ditos da maturidade (o período de O Capital) no que se refere à conceitualização das problemáticas e das categorias. Assim, nos textos ditos da juventude, encontram-se indicações muito interessantes sobre a especificidade do Estado moderno, mas é preciso articulá-los com a análise das relações de produção capitalistas como uma relação de exploração. Isso não é fazer prova - como economista -, pois O Capital não visa fundar uma ciência econômica, mas se apresenta como “crítica da economia política”; isto é, como crítica das categorias de análise e formas de objetividade do social trazidas pelo capital.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O Fetichismo no Hiperconsumo.

 
Um cartazete promocional exibido nos quiosques das praias do Leblon e Ipanema vale como uma tese de mestrado sobre a sociedade de hiperconsumo que estamos todos vivenciando. Segundo o criador da expressão – Gilles Lipovetsk – essa nova realidade se caracteriza pela busca permanente de felicidade e, assim, os produtos e serviços de sucesso estão impregnados de mensagens para estimular esse sentimento. O objeto significa muito pouco, diante da experiência que proporciona e o “estar” costuma ser um “gerador” de felicidade mais relevante que o “ter”.
Nessas duas primeiras décadas do século 21, parece gerar mais felicidade ser convidado para o camarote da Brahma que ter um carrão importado. O Fetichismo tem força ainda maior nas “mercadorias imateriais” que nos produtos tradicionais – vide o crescimento de segmentos religiosos na periferia das grandes cidades ( um dos temas da homilia de abertura da Semana Santa, do Papa Francisco). Afinal, hoje mais do que nunca, a fé é uma mercadoria geradora de felicidade..... Como antecipava o velho Karl, em 1865, no primeiro volume de O Capital: A primeira vista, uma mercadoria parece uma coisa trivial e que se compreende por si mesma. Pela nossa análise mostramos que, pelo contrário, é uma coisa muito complexa, cheia de subtilezas metafísicas e de argúcias teológicas”.
O cartazete do Mastercard enfatiza a felicidade de “estar” na partida Brasil X Inglaterra. Uma felicidade que “não tem preço”.

O Fetichismo além da ilusão.

 
Antoine Artous em seu O fetichismo em Marx" (Editions Syllepse, 2006 ) provoca, em uma frase, uma profunda reflexão:
“O fenômeno do fetichismo não depende de uma simples ilusão de consciência – individual ou coletiva –, não remete somente à aparência das relações sociais, à superfície das coisas, ele traduz o modo de existência das relações de produção capitalistas, sua forma social objetiva”.

terça-feira, 26 de março de 2013

Mercadoria - o novo Deus. Novo?

 
Stavros Tombazos, da Universidade de Chipre ( hoje, centro da crise do euro...) faz um excelente comentário sobre o livro de Antoine Artous – “O fetichismo em Marx, Editions Syllepse 2006 . Durante as próximas semanas postarei alguns outros trecho desse e de outros comentários sobre o livro de Artous. Pra iniciar, selecionei um pequeno trecho, com tradução livre:
 “Sim, a mercadoria é uma nova religião moderna, e mais eficaz, já que não é tão desacreditada como o Vaticano e não tem um representante oficial vulnerável. Como Deus, ela está em toda parte e em tudo. Não se trata de uma simples analogia, mas de um verdadeiro substituto (Ersatz).”
Que não nos leia o Papa Francisco.........

quarta-feira, 6 de março de 2013

Fetichismo. Ausente nos Grundrisse.


Selecionei um trecho de excelente entrevista de Anselm Jappe à revista online da Unisinos sobre a ausência do conceito de fetichismo da mercadoria – o grande diferencial de Marx dos economistas clássicos ingleses – nos Grundrisse. Vale recordar que ele escreveu os Grundrisse em meio a uma crise econômica (1857-58) que ele acreditava ser o prenúncio do final do capitalismo.

“Além disso, falta nos Grundrisse o conceito de fetichismo da mercadoria. É, portanto, errado opor (como o faz, por exemplo, Karl Korsch ) um jovem Marx revolucionário a um velho Marx d’O Capital, que se teria limitado a observar com distância científica um processo determinístico. Na verdade, a natureza destrutiva do trabalho abstrato e da sociedade baseada sobre o mesmo é descrita de modo pleno principalmente no primeiro capítulo do Capital – e uma crítica verdadeiramente radical deve começar daqui.”