domingo, 27 de março de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 7


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 7º trecho selecionado, Trotsky justifica porque o Manifesto “esquece” a luta dos povos coloniais pela independência e afirma que o mérito da estratégia da luta para os colonizados, é de Lênin.
“7. Mostrando como o capitalismo arrebanha em seu turbilhão os países atrasados e bárbaros, o Manifesto nada diz a respeito da luta dos povos coloniais e semi-coloniais pela sua independência. À medida que Marx e Engels pensavam que a vitória da revolução socialista, "nos países civilizados pelo menos", era uma questão a ser resolvida nos anos seguintes, o problema das colônias resolver-se-ia igualmente não como o resultado de um movimento autônomo dos povos oprimidos, mas, simplesmente, como a conseqüência da vitória do proletariado nas metrópoles capitalistas. Esta é a razão pela qual as questões da estratégia revolucionária nos países coloniais e semi-coloniais nem mesmo estão esboçadas no Manifesto. Mas elas exigem soluções particulares. Dessa forma, é evidente que se a "pátria nacional" se tornou o pior obstáculo à revolução proletária nos países capitalistas avançados mantém-se ainda como um fator relativamente progressista nos países atrasados que são obrigados a lutar por sua existência nacional independente. "Os comunistas, declara o Manifesto, apoiam, em todos os países, qualquer movimento revolucionário contra a ordem social e política existente. " O movimento das raças de cor contra os opressores imperialistas é um dos mais poderosos e importantes movimentos contra a ordem social existente e é esta a razão pela qual necessita do total apoio, indiscutível e sem reticências, do proletariado de raça branca. O mérito de haver desenvolvido a estratégia revolucionária dos povos oprimidos é, sobretudo, de Lênin.”

quinta-feira, 17 de março de 2011

Erich Fromm. Socialismo era movimento espiritual.


Erich Fromm, em seu “Meu Encontro com Marx e Freud” mostra os pontos de contato entre as duas doutrinas: a psicanálise e o marxismo. Faz algumas afirmativas originais, como classificar os primeiros cinquenta ou sessenta anos de socialismo como “o movimento espiritual mais importante e autêntico do mundo ocidental”.
“A teoria marxista, bem como o movimento socialista, era radical e humanista – radical no sentido acima mencionado de ir às raízes,sendo estas o homem; humanista no sentido de ser o homem a medida de todas as coisas, que sua plena realização deve ser a finalidade e o critério de todos os esforços sociais. A libertação do homem da pressão das condições econômicas que impediam seu desenvolvimento pleno era o objetivo de todos os pensamentos e esforços de Marx. O socialismo, naqueles primeiros cinquenta ou sessenta anos, era – embora não usasse linguagem teológica – o movimento espiritual mais importante e autêntico do mundo ocidental.”

domingo, 13 de março de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 6


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 6º trecho selecionado, Trotsky mostra o equívoco do prognóstico de que “a revolução burguesa alemã seria o prelúdio da revolução proletária”.

“6. Para justificar a esperança de que "a revolução burguesa alemã... será o prelúdio da revolução proletária", o Manifesto cita que as condições gerais da civilização européia de então, assim como do proletariado, eram bem mais desenvolvidas do que na Inglaterra do Século XVII ou na França do Século XVIII. O erro deste prognóstico não está apenas na questão do prazo, Alguns meses mais tarde, a Revolução de 1848 mostrou, precisamente, que, em presença de condições mais avançadas, nenhuma das classes burguesas é capaz de levar a revolução até o fim: a grande e a média burguesia estão muito ligadas aos proprietários fundiários e muito unidas pelo medo das massas; a pequena burguesia muito dispersa e seus dirigentes muito dependentes da grande burguesia. Como demonstrou a posterior evolução dos acontecimentos na Europa e na Ásia, a revolução burguesa, em si mesma, não mais pode realizar-se. A purificação da sociedade dos males feudais só é possível se o proletariado, liberto das influências dos partidos burgueses for capaz de se colocar à frente do campesinato e estabelecer sua ditadura revolucionária. Em função disso, a revolução burguesa mescla-se com a primeira fase da revolução socialista para, nesta, dissolver-se em seguida. A revolução nacional torna-se, assim, apenas um elo da revolução proletária internacional. A transformação dos fundamentos econômicos e de todas as relações sociais adquirem um caráter permanente.
Para os partidos revolucionários dos países atrasados da Ásia, América Latina e África, a compreensão clara da relação orgânica entre a revolução democrática e a revolução socialista internacional é uma questão de vida ou morte.”

A "falência" da moderna filosofia burguesa.


Em novembro de 2010, Alan Woods produz longo texto de análise da “crise final” do capitalismo, iniciada nos EUA e que contamina toda a Europa. Em “Porque somos marxistas”, o novo ideólogo de Chávez, faz algumas afirmativas surrealistas:

“Em nenhuma outra esfera a crise da ideologia burguesa é mais transparente do que no campo da filosofia. Em seus estágios iniciais, quando a burguesia representava o progresso, ela foi capaz de produzir grandes pensadores: Hobbes e Locke, Kant e Hegel. Mas no estágio de sua decadência senil, a burguesia é incapaz de produzir grandes idéias. Na verdade, ela é absolutamente incapaz de produzir quaisquer idéias.
Tornada incapaz de produzir generalizações ousadas, a moderna burguesia nega o próprio conceito de ideologia. É por essa razão que os pós-modernistas falam do “fim da ideologia”. Eles negam o conceito de progresso simplesmente porque sob o capitalismo nenhum progresso subseqüente é possível. Engels uma vez escreveu: “A filosofia e o estudo do mundo atual têm a mesma relação entre si que a masturbação e o amor sexual”. A moderna filosofia burguesa prefere a masturbação ao amor sexual. Em sua obsessão por combater o marxismo, ela arrastou a filosofia para o pior período de seu velho, desgastado e estéril passado.”

sábado, 12 de março de 2011

Kautsky e a "inconsciência" do proletariado


Karl Kautsky - quem o contesta? – foi o teórico mais conhecido da 2ª Internacional e considerado, justamente, uma autoridade em marxismo. Editor da Revista Die Neue Zeit, por ele fundada em 1883 ( ano da morte de Marx), escreveu em 1901, um provocante artigo – “Um Elemento importado” onde faz contundente critica aos que interpretam o pensamento de Marx afirmando que o desenvolvimento do capitalismo cria, no proletariado, a consciência socialista. “isso é inteiramente falso”, afirma Kautsky.

“Vários de nossos críticos revisionistas atribuem a Marx a  afirmação de que o desenvolvimento econômico e a luta de classes não apenas criam condições para a produção socialista mas também geram diretamente a consciência de sua necessidade. Depois, estes mesmos críticos objetam que a Inglaterra, país de desenvolvimento capitalista mais avançado, é a mais alheia a essa consciência. O projeto de programa austríaco partilha também deste ponto de vista, supostamente marxista ortodoxo, que refuta o exemplo da Inglaterra. O projeto diz: "Quanto mais o proletariado aumenta, em conseqüência do desenvolvimento capitalista, mais é coagido e tem possibilidade de lutar contra o capitalismo. O proletariado chega à consciência da possibilidade e da necessidade do socialismo. Em conseqüência, a consciência socialista seria resultado necessário, direto, da luta de classes do proletariado”. Isso é inteiramente falso.
Como doutrina, o socialismo tem, evidentemente, suas raízes nas relações econômicas atuais no mesmo grau que a luta de classes do proletariado; da mesma forma que a última, ele decorre da luta contra a pobreza e a miséria das massas, geradas pelo capitalismo. Mas o socialismo e a luta de classes surgem e não se engendram um do outro; surgem de premissas diferentes. A consciência socialista, hoje, só pode brotar na base de um profundo conhecimento científico.”

quarta-feira, 9 de março de 2011

Marx e a "Unificação dos Crentes em Cristo".


Pouco se conhece da juventude de Marx. Selecionei dois textos para uma reflexão inicial. O primeiro do site “Mundo dos Filósofos” e o segundo do blog “heterodoxo-relapso” ( em espanhol).
“De sua juventude não se sabe nada significativo. É apenas interessante observar que o futuro ateísta fanático tenha escrito um ensaio de conclusão do curso secundário sobre o tema “A Unificação dos Crentes em Cristo”.”

“Buena prueba de la ausencia de aquella influencia religiosa es el segundo de los tres ejercicios escolares que tuvo que presentar para aprobar su bachillerato. Se titulaba Una demostración, según el evangelio de San Juan, de la naturaleza, necesidad y efectos de la unión de los creyentes de Cristo. Expresa todavía la persistencia confesional del cristianismo que imperaba en el ambiente escolar que, en todo caso, no era el judaísmo sino el protestantismo, también minoritario en Tréveris, donde la mayoría era católica.”

terça-feira, 8 de março de 2011

Marx versus Freud parte 2


No site www.perfeicao.org, Glauber Ataíde reproduz um texto de Freud, onde ele revela que conhece pouco o marxismo e desfaz o principal conflito com a psicanálise:
"Sei que os meus conhecimentos sobre o marxismo não revelam nenhuma familiaridade maior, não mostram uma compreensão adequada dos escritos de Marx e Engels. Fiquei sabendo mais tarde, com certa satisfação, que nem um nem o outro negaram a influência dos fatores do ego e do superego. Isso desfaz o principal conflito que eu pensava existir entre o marxismo e a psicanálise.
Esta última citação eu extraí do livro "O marxismo na batalha das idéias", de Leandro Konder, p. 111.”

Marx versus Freud parte 1


Moishe Postone, professor de história da Universidade de Chicago, tem despertado a ira dos marxistas ortodoxos. Tenho dedicado algumas postagens a Postone, que, em setembro de 2010, foi um dos palestrantes do Congresso Marx Internacional, na Sorbonne. No trecho a seguir, extraído de “ Necessidade, Tempo e Trabalho” o marxólogo faz uma análise brilhante dos paralelos entre a “noção de história da formação capitalista e a noção de história individual, em Freud”.  (íntegra do texto em htpp://obeco.no.sapo.pt/mpt2.htm)

“Tenho a impressão de que existe um paralelo entre esta noção de história da formação social capitalista e a noção de história individual, em Freud, em que o passado não aparece como tal, mas sob uma forma velada e internalizada, que domina o presente. A tarefa da psicanálise é desvelar o passado de tal forma que sua apropriação se torne possível. O momento necessário de um presente compulsivamente repetitivo é assim destruído – o que permite ao indivíduo ir para o futuro. Este paralelo merece maior investigação, de forma a determinar se é meramente contingente ou se poderia servir como ponto de partida de uma tentativa de estabelecer uma mediação entre a história do indivíduo e aquela da formação social.”

quinta-feira, 3 de março de 2011

Marx X Adam Smith X Keynes parte 2


A mais eficaz medida de interesse por um tema na web é o numero de “resultados” em uma busca no Google. Às 17 horas de 6 de janeiro de 2011, eram os seguintes os resultados para Marx – 24,4 milhões; Adam Smith – 11 milhões e Keynes – 13,5 milhões.  Às 23 horas de 3 de março de 2011 os números eram Marx – 48,7 milhões; Adam Smith – 14,8 milhões; Keynes – 22,3 milhões. A cada dia, o velho Karl é mais revisitado !!!!!!!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Hobsbawn e o "fim da fé na URSS".


Em 1971, Hobsbawn  - “Os Intelectuais e a luta de classes” – marca a diferença entre os revolucionários dos anos 60/70 e os de sua geração. Já no início dos anos 70 a fé na “grande revolução de outubro” havia desaparecido – bem antes do desmoronamento do muro, em 89. Selecionei um pequeno trecho:
“ Há, contudo, uma diferença notável entre o novo movimento revolucionário e o da minha geração, nos anos entre guerras. Contávamos, talvez erroneamente, com uma esperança e um modelo concreto de uma sociedade alternativa : o socialismo. Hoje em dia essa fé na grande Revolução de Outubro e na União Soviética desapareceu em grande parte – esta é uma observação de fato, não um juízo – e nada a substituiu. Porque, embora os novos revolucionários busquem possíveis modelos e objetos de lealdade, nenhum dos regimes revolucionários pequenos e localizados – Cuba, Vietnã do Norte, Coréia do Norte ou qualquer outro, mesmo a própria China – representa hoje o que a União Soviética significou em minha época.”
Uma observação: Coréia do Norte a parte, onde Hobsbawn encontraria hoje “regimes revolucionários pequenos e localizados”? A ilha do Caribe, por exemplo, aguarda o óbito do seu carismático líder para acelerar o processo de “abertura”. Dois sintomas da “febre capitalista” da China: 1. Em 2010, o faturamento dos Cassinos de Macau foi quatro vezes os de Las Vegas; 2. Também no ano passado, a China foi maior importador de vinhos de Bordeaux – 20 milhões de litros.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

João Amazonas: a queda do muro e "a crise do marxismo".


João Amazonas é figura histórica. Expulso do PCB, em 1961, por discordar das novas teses do XX Congresso do PCUS, funda o PC do B. É inspirador da miopia ideológica que orienta o Partido até nossos dias. Já no período “pós-muro”, confunde o fim da URSS com a crise no marxismo – e assegura que ela será superada – em artigo publicado em 1990, na Revista Princípios nº 18 ( pequeno trecho, a seguir). Amazonas morreu em 2002, sem se aperceber que o fim da União Soviética significaria o renascimento de Marx.

“A crise do marxismo será superada tão prontamente quanto maior for o empenho dos autênticos revolucionários em investigar suas causas e ir ao fundo das questões teóricas que norteiam a marcha da classe operária no rumo do comunismo.
A teoria revolucionária ilumina o caminho da libertação, da construção de uma vida nova. Não se pode avançar com segurança sem o domínio da ciência social. Os princípios que dela decorrem são fundamentais para orientar a estratégia e a tática das forças progressistas em luta contra o sistema reacionário e ultrapassado do capitalismo monopolista.
Defendendo os fundamentos teóricos do marxismo, avancemos, respondendo aos desafios de nossa época. O socialismo, o comunismo são invencíveis, representam o futuro radioso da Humanidade.”

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Babeuf e o "Manifesto dos Iguais"


Marx considerava Babeuf o “primeiro comunista ativista” e a Conjuração do Iguais o "primeiro partido comunista". Para Rosa de Luxemburgo, Babeuf é "o primeiro precursor dos levantes revolucionários do proletariado".
François Noël Babeuf, conhecido como Gracchus Babeuf nasceu em Saint-Quentin, Picardia em 23 de novembro de 1760 foi sucessivamente servo doméstico, artesão, pedreiro e depois encarregado dos registros (contabilidade) de uma propriedade senhorial.
Seu “Manifesto dos Iguais” de 1796 tem o mesmo “clima” que envolve o Manifesto Comunista, de 1848. Veja esses dois trechos:


“Povo da França!

Chegou a hora das grandes decisões. O mal encontra-se no seu ponto culminante, está a cobrir toda a face da terra. O caos, sob o nome de política, há já demasiados séculos que reina sobre ela. Que tudo volte, pois, a entrar na ordem exata e que cada coisa torne a ocupar o seu posto. Ao grito de igualdade, os elementos da justiça e da felicidade estão a organizar-se. Chegou o momento de fundar a República dos Iguais, este grande refúgio aberto a todos os homens. Chegaram os dias da restituição geral. Famílias sacrificadas, vinde todas sentar-vos à mesa comum posta para todos os vossos filhos.”
“Povo da França!
Os hábitos inveterados, os antigos preconceitos, farão novamente tudo para impedir a implantação da República dos Iguais. A organização da igualdade efetiva, a única que satisfaz todas as necessidades sem provocar vítimas, sem custar sacrifícios, talvez em princípio não agrade a todos. Os egoístas, os ambiciosos, rugirão de raiva. Os que conquistaram injustamente as suas possessões dirão que está a cometer-se uma injustiça em relação a eles. Os prazeres individuais, os prazeres solitários, as comodidades pessoais, serão motivo de grande pesar para os indivíduos que sempre se caracterizaram pela sua indiferença ante os sofrimentos do próximo. Os amantes do poder absoluto, os miseráveis partidários da autoridade arbitrária, baixarão pesarosos as suas soberbas cabeças perante o nível da igualdade real. A sua visão estreita dificilmente penetrará no próximo futuro da felicidade comum. Mas que podem fazer alguns milhares de descontentes contra uma massa de homens completamente satisfeitos de terem procurado durante tanto tempo uma felicidade que sempre tiveram à mão?”

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A"profecia" de Alan Woods


Alan Woods, o novo conselheiro de Hugo Chávez, publicou, recentemente, artigo “Porque somos marxistas” onde afirma que um número crescente de pessoas estão abertas às idéias do marxismo, que deixarão os pequenos grupos e “serão zelosamente seguidas por milhões”.
“Estamos ingressando num período dos mais convulsivos que permanecerá por alguns anos, semelhante ao período de 1930-1937 na Espanha. Haverá derrotas e recuos, mas sob essas condições as massas aprenderão muito rápido. Naturalmente, não devemos exagerar: nós estamos ainda no começo de um processo de radicalização. Mas está muito claro aqui que nós estamos testemunhando o início de uma mudança na consciência das massas. Crescente número de pessoas está questionando o capitalismo. Essas pessoas estão abertas às idéias do marxismo de forma nunca vista antes. No próximo período, as idéias que estavam confinadas em pequenos grupos de revolucionários serão zelosamente seguidas por milhões.”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Woods X Trotsky. O Manifesto.


O trotsquista Alan Woods é o mais novo conselheiro de Hugo Chávez – Heinz Dieterich caiu em desgraça, depois de apoiar o ex-aliado Baduel. A leitura do texto em que Woods analisa o Manifesto mostra uma profunda contradição com seu líder. Certamente, Alan nunca leu o prefácio de  Trotsky (1937) à edição sul-africana da até hoje polêmica obra de Marx/Engels. Woods afirma que o Documento explica como a livre empresa conduziria ao monopólio. Trotsky demonstra que no Manifesto “o capitalismo é o reino da livre concorrência”. Apenas anos depois, em O Capital, é que “Marx constatou a tendência para a transformação da livre concorrência em monopólio”. Seguem os dois texto referidos.
O texto de Alan Woods
“O que é mais surpreendente sobre o Manifesto é como antecipa os mais fundamentais fenômenos que ocupam nossa atenção em escala mundial no presente momento. Consideremos um exemplo. No tempo em que Marx e Engels o escreveram, o mundo das grandes companhias multinacionais era ainda música de um futuro muito distante. A despeito disto, eles explicaram como a “livre empresa” e a concorrência inevitavelmente conduziriam à concentração de capital e à monopolização das forças produtivas.”
O texto de Trotsky
“3. Para o Manifesto, o capitalismo é o reino da livre concorrência. Referindo-se à crescente concentração do capital, o texto não tira deste fato a necessária conclusão a respeito dos monopólios, que se transformaram na força dominante do capitalismo em nossa época, premissa mais importante da economia socialista. Foi apenas mais tarde, em O Capital que Marx constatou a tendência para a transformação da livre concorrência em monopólio. A caracterização científica do capitalismo monopolista foi dada por Lênin em seu livro Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo.”



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 5


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 5º trecho selecionado, ele reforça o equívoco, já registrado pelos autores em 1872 e afirma que “Em nossos dias não pode haver programa revolucionário sem sovietes e sem poder operário”. A pergunta que não quer calar: onde estão, em 2011, os sovietes? Nem em Cuba, quem sabe, na Venezuela.......


“5. O Manifesto, escrito para uma época revolucionária, contém, no final do segundo capítulo, dez reivindicações que respondem ao período da imediata transição do capitalismo ao socialismo. No prefácio de 1872, Marx e Engels mostraram que essas reivindicações se encontravam parcialmente superadas e que, de qualquer modo, não tinham mais que um significado secundário. Os reformistas se apoderaram desta avaliação para interpretá-la no sentido que, para eles, as palavras-de-ordem revolucionárias transitórias davam definitivamente lugar ao "programa mínimo" da social-democracia que, como sabemos não ultrapassava os limites da democracia burguesa.
Na verdade, os autores do Manifesto indicaram de modo preciso a principal correção a ser feita em seu programa transitório: "Não basta que a classe operária se utilize da máquina estatal para colocá-la a serviço de seus próprios fins. "A correção era contra o fetichismo a respeito da democracia burguesa. Ao Estado burguês, Marx opôs, mais tarde, o Estado do tipo da Comuna. Este "tipo" tomou, em seguida, a forma muito mais precisa de sovietes. Em nossos dias não pode haver programa revolucionário sem sovietes e sem poder operário. Quanto ao mais isto é, às dez reivindicações do Manifesto que na época da pacífica atividade parlamentar, pareceram "caducar", é preciso que se diga que recobraram, hoje, todo seu verdadeiro significado. O que caducou inapelavelmente foi o "programa mínimo" social-democrata.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 4


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 3º trecho selecionado, ele mostra que a expectativa de proletarização generalizada da sociedade não aconteceu. Destaque para a proletarização da classe média – imagine a frustração dos dois alemães ao assistir, no Brasil de 2010, a ascensão das classes D e E à classe média.

“4. Tomando como base sobretudo o exemplo da "Revolução Industrial" inglesa, os autores viam de maneira muito unilateral o processo de liquidação das classes médias com a proletarização completa do artesanato, do pequeno comércio e do campesinato. Na verdade, as forças elementares da concorrência ainda não finalizaram esta obra, ao mesmo tempo progressista e bárbara. O capital arruinou a pequena burguesia bem mais rapidamente do que a proletarizou. Por outro lado, a política consciente do Estado burguês, há muito tempo, visa conservar artificialmente as camadas pequeno-burguesas. No pólo oposto, o crescimento da técnica e a racionalização da grande produção, ao mesmo tempo em que engendram um desemprego orgânico, freiam a proletarização da pequena burguesia. Houve um extraordinário adormecimento do exército de técnicos, administradores, empregados de comércio, em uma palavra, daquilo que é chamado de "novas classes médias". O resultado de tudo isso é que as classes médias cujo desaparecimento o Manifesto previa de modo tão categórico, constituem, mesmo em um país altamente industrializado como a Alemanha, quase a metade da população. Mas a conservação artificial das camadas pequeno-burguesas, desde há muito caducas, em nada atenua as contradições sociais; torna-as, pelo contrário, particularmente, mórbidas. Somando-se ao exército permanente de desempregados, ela é a expressão mais nociva do apodrecimento capitalista. “


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 3


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 3º trecho selecionado, ele mostra que apenas anos depois, em O Capital é “que Marx constatou a tendência para a transformação da livre concorrência em monopólio”. No Manifesto, “o capitalismo é o reino da livre concorrência”.

“3. Para o Manifesto, o capitalismo é o reino da livre concorrência. Referindo-se à crescente concentração do capital, o texto não tira deste fato a necessária conclusão a respeito dos monopólios, que se transformaram na força dominante do capitalismo em nossa época, premissa mais importante da economia socialista. Foi apenas mais tarde, em O Capital que Marx constatou a tendência para a transformação da livre concorrência em monopólio. A caracterização científica do capitalismo monopolista foi dada por Lênin em seu livro Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo.”

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Marx, De Masi e Chris Anderson.


Domenico De Masi, o sociólogo italiano, inventor do “Ócio Criativo”, sempre se declarou marxista e, embora nunca tenha se filiado ao PCI, sempre votou com os comunistas.  De Masi, afirma que o trabalho é uma profissão e o ócio uma arte e sentencia que Marx previu o fim do trabalho: "Em 1857, isto é, há quase um século e meio, Marx tinha escrito : 'É chegado o tempo em que os homens não mais farão o que as máquinas podem fazer' e tinha concluído que o capitalismo, tendendo de forma inexorável para a abolição do trabalho, teria dessa forma provocado sua própria morte."
Mais recentemente, Chris Anderson, autor do best-seller mundial “A Cauda Longa” (“The Long Tail”) - Editora Campus-Elsevier – relembra o pioneirismo de Marx em “A Ideologia Alemã”. Uma observação – a expressão “Pro-Am” significa Profissionais e Amadores.
“ Com efeito, Karl Marx foi, talvez, o primeiro profeta da economia Pro-Am. Como observa o Demos, Marx sustentou em  “A Ideologia Alemã”, escrito entre 1845 e 1847, que o trabalho forçado, não-espontâneo e assalariado seria superado pela atividade autônoma.  Finalmente, esperava ele, chegaria um tempo em que a “produção material criará condições para que todas as pessoas disponham de tempo ocioso para o exercício de outras atividades”. Marx evocava uma sociedade comunista em que “..... ninguém tem uma esfera de atividade exclusiva, mas cada uma delas pode ser executada da maneira que mais aprouver a cada um (......) caçar de manhã, pescar de tarde, criar gado à noite, criticar depois do jantar, do mesmo modo como tenho uma mente, sem nunca ter sido caçador, pescador ou critico”.

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 2


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 2º trecho selecionado, ele destaca alguns equívocos relevantes como a “superestimação da maturidade revolucionária do proletariado” e da consequência  da revolução de 1848 que, ao invés da revolução socialista “criou, para a Alemanha, a possibilidade  de um formidável desenvolvimento capitalista”.

“2. O erro de Marx e Engels a respeito dos prazos históricos decorria, de um lado, da subestimação das possibilidades posteriores inerentes ao capitalismo e, de outro, da superestimação da maturidade revolucionária do proletariado. A revolução de 1848 não se transformou em revolução socialista, como o Manifesto havia previsto, mas criou, para a Alemanha, a possibilidade de um formidável desenvolvimento capitalista. A Comuna de Paris demonstrou que o proletariado não pode arrancar o poder à burguesia sem ter à sua frente um partido revolucionário experiente. Ora, o longo período de desenvolvimento capitalista que se seguiu à Comuna conduziu não à educação de uma vanguarda revolucionária, mas, ao contrário, à degeneração burguesa da burocracia operária que se tornou, por sua vez; o principal obstáculo à vitória da revolução proletária. Esta "dialética” os autores do Manifesto não podiam prever.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Trotsky. A visão crítica do Manifesto. Parte 1


Em outubro de 1937, Trotsky escreve o prefácio da edição Sul-Africana do Manifesto de 1848 e faz uma serena e sensata revisão critica de partes do Manifesto. Neste 1º trecho selecionado, ele enfatiza que, em pleno século XIX, o capitalismo ainda não havia cumprido o seu ciclo e, conforme o ensinamento do próprio Marx , não poderia “deixar a cena”.

“O pensamento revolucionário nada tem em comum com a idolatria. Os programas e os prognósticos verificam-se e corrigem-se à luz da experiência, que é para o pensamento humano a suprema instância O Manifesto requer correções e complementos. Entretanto, mesmo correções e complementos não podem ser aplicados com sucesso senão nos servimos do mesmo método que se encontra à base do Manifesto, como, além disso, o prova a própria experiência histórica. Mostraremos isso servindo-nos dos exemplos mais importantes.
1. Marx ensina que nenhuma ordem social deixa a cena antes de ter esgotado suas possibilidades criadoras. O Manifesto ataca o capitalismo porque ele bloqueia o desenvolvimento das forças produtivas. Contudo, na sua época e mesmo durante várias décadas seguintes, este entrave possuía apenas um caráter relativo. Se, na segunda metade do Século XIX tivesse sido possível à economia se organizar sobre fundamentos socialistas, o ritmo de seu crescimento teria sido incomparavelmente mais rápido. Esta tese, teoricamente incontestável, não modifica o fato de que as forças produtivas continuaram a crescer em escala mundial, e sem interrupção, até a Primeira Guerra Mundial. Foi unicamente nos últimos vinte anos que, malgrado as mais modernas conquistas científicas e técnicas, se abriu a época da estagnação completa e da própria decadência da economia mundial. A humanidade começa a viver do capital acumulado e a próxima guerra ameaça destruir por longo tempo as próprias bases da civilização. Os autores do Manifesto pensavam que o capital seria liquidado muito antes de passar de ser um regime relativamente reacionário para a sua fase absolutamente reacionária. Esta transformação, porém, só se consumou aos olhos da atual geração, fazendo de nossa época a época de guerras, revoluções e do fascismo.