quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Poder do Voto X as lutas de rua.


Em 6 de março de 1895, 5 meses antes de sua morte (5/8/1895), Engels produz um de seus mais amadurecidos ensaios, ao fazer a introdução de mais uma edição alemã da “A Luta de Classes na França”. O documento mereceu um registro especial de Rosa Luxemburgo: “ grande importância deve ser conferida a um dos históricos documentos do movimento operário alemão: o prefácio escrito por Frederick Engels em 1985 para a reedição da Luta de Classes na França”.
Selecionei dois trechos para uma reflexão, neste momento de “manifestações violentas” no Brasil e no mundo.
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“Graças ao uso inteligente que os operários alemães fizeram do sufrágio universal introduzido em 1866, o crescimento surpreendente do partido é tornado claro para todo o mundo por números incontestáveis ​​: 1871, 102.000 ; 1874, 352.000 ; 1877, 493.000 votos socialdemocratas.
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E assim aconteceu que a burguesia e o governo passaram a ser muito mais temerosos com a ação legal do que com a ação ilegal do partido dos trabalhadores; com os resultados das eleições do que com a  rebelião.
Por aqui, também, as condições da luta tinha mudado fundamentalmente. Rebelião no estilo antigo, luta de rua com barricadas , que decidiu a questão em todos os lugares até 1848, tornou-se , em grande parte, ultrapassada.”

107 anos após a publicação do texto de Engels um operário metalúrgico, fundador do Partido dos Trabalhadores, assumiu a Presidência da República em um país da América Latina... Um pouco antes – 1990 – outro operário assumia a presidência da Polônia....

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sufrágio universal na ditadura do proletariado.


Em 1891, na comemoração do 20º aniversário da Comuna de Paris, Engels faz uma introdução à reedição de “ A Guerra Civil na França” onde exalta o sufrágio universal na ditadura do proletariado. Parece uma contradição; mas não é.
Contra esta transformação, inevitável em todos os Estados até agora existentes, do Estado e dos órgãos do Estado, de servidores da sociedade em senhores da sociedade, aplicou a Comuna dois meios infalíveis. Em primeiro lugar, ocupou todos os cargos administrativos, judiciais, docentes, por meio de eleição por sufrágio universal dos interessados, e mais, com revogação a todo o momento por estes mesmos interessados. E, em segundo lugar, ela pagou por todos os serviços, grandes e pequenos, apenas o salário que outros operários recebiam. O ordenado mais elevado que ela pagava era de 6000 francos. Assim se fechou a porta, eficazmente, à caça aos cargos e à ganância da promoção, mesmo sem os mandatos imperativos que, além do mais, no caso dos delegados para corpos representativos ainda foram acrescentados.
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O filisteu socialdemocrata caiu recentemente, outra vez, em salutar terror, à palavra: ditadura do proletariado. Ora bem, senhores, quereis saber que rosto tem esta ditadura? Olhai para a Comuna de Paris. Era a ditadura do proletariado.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Fetichismo da mercadoria. 4 séculos de frases.


1690 - “Mercadorias, que têm o seu valor estabelecido como suprimento das necessidades da mente, satisfazem desejos. Desejo provoca demanda. É o apetite da alma, e é tão natural para a alma, como a fome para o corpo.”
Nicholas Barbon – “A Discurse of Trade” (Um discurso sobre o Comércio).
1867 - “A primeira vista, uma mercadoria parece uma coisa trivial e que se compreende por si mesma. Pela nossa análise mostramos que, pelo contrário, é uma coisa muito complexa, cheia de sutilezas metafísicas e de argúcias teológicas.” Karl Marx – “O Capital”.
1967 - “Marketing é a atividade humana dirigida para satisfação das necessidades e desejos, através dos processos de troca. Um produto é tudo aquilo capaz de satisfazer a um desejo”.
Phillip Kotler - “Marketing Management”.
1993 -“A maioria das pessoas nem chega a se dar conta de que há literalmente um outro mundo operando dentro de nós. ......É um reino mitológico, um desconhecido mundo cheio de seres arquétipos, demônios e toda uma horda de entidades estranhas.” Sal Randazo - “ A criação de mitos na publicidade”:

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Existe um marxismo "correto"? Hobsbawm com a palavra.



Desde a primeira leitura da “Era das Revoluções”, ingressei no fã clube de Eric Hobsbawm. Em 1966, já sem ilusões em relação ao comunismo, Eric escreve “O Diálogo sobre o Marxismo” que, em 1973, participaria do livro “Revolucionários” (editado no Brasil pela Paz e Terra). No texto, afirma que “uma grande parte do marxismo deve ser repensado e redescoberto”. Hoje, passados 44 anos, o desafio permanece. Selecionei 2 parágrafos que evidenciam os equívocos a que todos nós, ex-membros do “Partidão”, fomos induzidos.
“ Os comunistas vão se dando conta, cada vez mais, de que o que aprenderam a acreditar e a repetir não era simplesmente o “marxismo”, senão o marxismo conforme desenvolvido por Lênin e congelado, simplificado, e às vezes distorcido sob Stalin, na União Soviética. Que o “marxismo” não é um corpo de teorias e descobertas acabadas, mas um processo de desenvolvimento; que o próprio pensamento de Marx, por exemplo, continuou a se desenvolver durante toda sua vida. Que o marxismo tem, sem dúvida, respostas potenciais, mas frequentemente nenhuma resposta efetiva aos problemas concretos que hoje enfrentamos, em parte porque a situação mudou desde Marx e Lênin, em parte porque nenhum dos dois disse nada sobre certos problemas que já existiam em suas épocas e que são importantes para nós.”
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“Não há atalhos para o marxismo: nem o apelo a Lênin contra Stalin, nem a Marx, nem ao jovem Marx contra o Marx da maturidade. Há somente trabalho árduo, longo e, nas atuais circunstâncias, talvez não conducente a conclusões definitivas.”

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Políticos em 1891, by Engels.

Em março de 1891 – oito anos após a morte de Marx – Engels traça um  perfil dos políticos norte-americanos. Um perfil com muitos pontos de contato com a avaliação popular dos similares verde-amarelos,  de 2014.
“Em parte alguma os «políticos» formam um destacamento da nação mais separado e mais poderoso do que precisamente na América do Norte. Ali, cada um dos dois grandes partidos aos quais cabe alternadamente a dominação é ele próprio governado por pessoas que fazem da política um negócio, que especulam com lugares nas assembleias legislativas da União e de cada um dos Estados, ou que vivem da agitação para o seu partido e são, após a vitória deste, recompensados com cargos. É sabido que os americanos procuram, desde há trinta anos, sacudir este jugo tornado insuportável e que, apesar de tudo, se atascam sempre mais fundo nesse pântano da corrupção. É precisamente na América que podemos ver melhor como se processa esta autonomização do poder de Estado face à sociedade, quando originalmente estava destinado a ser mero instrumento desta. Não existe ali uma dinastia, uma nobreza, um exército permanente — excetuados os poucos homens para a vigilância dos índios — nem burocracia com emprego fixo ou direito à reforma. E, não obstante, temos ali dois grandes bandos de especuladores políticos que, revezando-se, tomam conta do poder de Estado e o exploram com os meios mais corruptos para os fins mais corruptos — e a nação é impotente contra estes dois grandes cartéis de políticos pretensamente ao seu serviço, mas que na realidade a dominam e saqueiam.”


domingo, 9 de fevereiro de 2014

O mundo dos filósofos.

Uma das frases mais famosas de Marx foi elaborada em 1845 e publicada somente em 1888 – cinco anos após sua morte – por Engels, como apêndice de sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica:Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

Decorridos 169 anos, fica a pergunta: algum filósofo, entre eles Marx, conseguiu transformar o mundo ?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Os Hegelianos Marx e Engels.


Os “marxistas clássicos” - uma expressão que engloba os “marxistas-leninistas” (ainda existem, fora de Cuba e Coreia do Norte ?) – têm uma certa dificuldade em aceitar o hegelianismo de Marx/Engels. Para esse grupo, o hegelianismo de Marx foi uma aventura da juventude, expurgada na maturidade. Vale lembrar que Althusser recomenda “pular” o 1º Capítulo do primeiro volume de O Capital (o único revisto por Marx), em virtude da “influência hegeliana”, presente no conceito de fetichismo da mercadoria.
Os textos abaixo foram extraídos de um artigo de Engels, publicado no jornal Das Volk em agosto de 1859 ( oito anos antes da 1ª edição de O Capital) e dispensam comentários.
“O que distinguia o modo de pensar de Hegel de todos os outros filósofos era o enorme sentido histórico que lhe estava subjacente. Por abstrata e idealista que fosse a forma, o desenvolvimento do seu pensamento não deixava de ir sempre em paralelo com o desenvolvimento da história universal, e esta última, propriamente, não deverá ser senão a prova do primeiro. Ainda que, por este fato, a relação correta tenha sido também invertida e posta de pernas para o ar, o seu conteúdo real penetrou, contudo, por todo o lado, na filosofia; tanto mais que Hegel se diferenciava dos seus discípulos em que não se gabava, como eles, da sua ignorância, mas era uma das cabeças mais sábias de todos os tempos. Foi ele o primeiro a procurar mostrar um desenvolvimento, um encadeamento interno, na história e, por estranha que agora muita coisa na sua filosofia da história nos possa parecer, a grandiosidade da própria visão fundamental é ainda hoje digna de admiração, quando se lhe comparam os seus predecessores ou mesmo aqueles que depois dele se permitiram reflexões universais sobre a história. Na Fenomenologia, na Estética, na História da Filosofia, por toda a parte perpassa esta grandiosa concepção da história e, por toda a parte, a matéria é tratada historicamente, numa conexão determinada, ainda que também abstratamente distorcida, com a história.”
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“Marx era, e é, o único que podia entregar-se ao trabalho de tirar da casca da lógica hegeliana o núcleo que encerra as descobertas reais de Hegel neste domínio e de restabelecer o método dialético, despido das suas roupagens idealistas, na forma simples em que ele se torna a única forma correta de desenvolvimento do pensamento. Consideramos a elaboração do método que está na base da crítica de Marx à Economia Política como um resultado que, pelo seu significado, em quase nada é inferior à visão materialista fundamental.”


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Marx, Victor Hugo e Proudhon. Visões de Louis Bonaparte.

No prefácio da segunda edição (1869) do “18 Brumário”, Marx faz algumas críticas a duas obras de mesmo tema e publicadas também em 1852 e encerra com a concretização da sua profecia.
“Entre as obras que tratavam na mesma época do mesmo tema, apenas duas são dignas de menção: Napoléon le petit, de Victor Hugo e Coup d’état, de Proudhoun.
Victor Hugo limita-se a amargas e engenhosas invectivas contra o editor responsável do golpe de Estado. Quanto ao próprio acontecimento, parece, na sua obra, um raio que caísse de um céu sereno. Não vê nele mais do que um ato de força de um só indivíduo. Não se apercebe que aquilo que faz é engrandecer este indivíduo em vez de o diminuir, ao atribuir-lhe um poder pessoal de iniciativa sem paralelo na história universal.
Pela sua parte, Proudhon tenta apresentar o golpe de estado como resultado de um desenvolvimento histórico anterior. Mas, nas suas mãos, a construção histórica do golpe de Estado transforma-se numa apologia histórica do herói do golpe de Estado. Cai com isso no erro dos nossos pretensos historiadores objetivos. Eu, pelo contrário, demonstro como a luta de classes criou na França as circunstâncias e as condições que permitiram a um personagem medíocre e grotesco representar o papel de herói.
Uma reelaboração da presente obra tê-la-ia privado do seu colorido particular. Por isso, limitei-me simplesmente a corrigir as gralhas e a riscar as alusões que hoje já não seriam entendidas.
A frase final da minha obra: "Mas quando o manto imperial cair finalmente sobre os ombros de Louis Bonaparte, a estátua de bronze de Napoleão tombará do alto da Coluna de Vendôme”, já se realizou.”


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Como mudar o mundo.


No prefácio do livro de Eric Hobsbawn com o titulo acima – e subtítulo “Marx e o marxismo, 1840-2011” – cabe um destaque muito especial para o último parágrafo:
“Não podemos prever as soluções dos problemas com que se defronta o mundo no século XXI, mas, quem quiser solucioná-los, deverá fazer as perguntas de Marx, mesmo que não queira aceitar as respostas dadas por seus vários discípulos”.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A Inglaterra "Única".


Em 28 de março de  1870, Marx publica, na revista Die Neue Zeit, artigo sobre a “preparação” da Inglaterra para a “aniquilação” do capitalismo. Devem ter faltado aos ingleses “espírito de generalização e  paixão revolucionária”.

“Apesar da iniciativa revolucionária partir da França, somente a Inglaterra pode servir de alavanca para uma revolução econômica séria. É o único país onde já não há mais nenhum camponês e onde a propriedade fundiária está concentrada em poucas mãos. É o único país onde a forma capitalista — ou seja, o trabalho combinado em grande escala sob empresários capitalistas — se apoderou de quase toda a produção. É o único país em que a grande maioria da população consiste em trabalhadores assalariados (wages labourers). É o único país onde a luta de classes e a organização da classe operária pelas Trade Unions alcançou um certo grau de maturidade e de universalidade. Graças à sua dominação sobre o mercado mundial, a Inglaterra é o único país em que toda a revolução nas relações econômicas tem imediatamente de se repercutir sobre o mundo inteiro. Se o sistema de senhores da terra [Landlordismus] e o capitalismo têm neste país a sua sede clássica, também, por outro lado, as condições materiais da sua aniquilação estão ao máximo amadurecidas. O Conselho Geral está agora na feliz situação de ter diretamente a mão nesta grande alavanca da revolução proletária; que loucura, sim, quase que se podia dizer: que crime não seria deixá-la apenas em mãos inglesas!
Os ingleses dispõem de todos os pressupostos materiais necessários para uma revolução social. Aquilo que lhes falta é o espírito de generalização e a paixão revolucionária.”

domingo, 24 de novembro de 2013

Aliança com o diabo.


1º de dezembro de 1852. Marx faz, no New York Daily Tribune, comentário que poderia servir de advertência para alianças políticas tipo Lula/Maluf, na eleição de Fernando Haddad.
“ Na política, a pessoa pode se aliar até com o próprio diabo – só precisa garantir que é ela que está enganando o diabo, em vez de estar sendo enganada por ele.”

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O Corpo e a Alma das Mercadorias.


“O Fetichismo demonstrou que as mercadorias possuíam corpo e alma. Assim, a partir dos anos 60, essa alma passou a se chamar “MARCA” e surgiu uma disciplina chamada MARKETING que se dedicou a cuidar da “alma’ das mercadorias.”
Em 24 de outubro pp, participei do Painel 5  - Marxismo, Filosofia e Ideologia – do II Congresso Internacional Karl Marx, realizado pelo Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa.
O tema da minha intervenção – Karl Marx, precursor do marketing – teve, surpreendentemente, uma boa repercussão, mesmo entre os marxistas mais “clássicos”. Segue o roteiro, ao qual foram “agregados” diversos “cacos”, durante a apresentação.


“Vamos iniciar Imaginando duas bolsas femininas exatamente iguais – mesmas matérias primas, mesmo design, mesmo acabamento, mesmo fabricante. Apenas uma pequena, mas não imperceptível, diferença: uma delas tem a etiqueta Dolce & Gabbana e  custa 10 vezes mais......
A mesma situação poderia ser reproduzida com milhares de mercadorias encontradas em cada loja de cada esquina ou shopping.
Em 1867, ano de lançamento da 1ª edição de O Capital, Marx antecipou a explicação da diferença ao identificar o  “Fetichismo das Mercadorias”. Ou como enfatiza Isaak Rabin, Marx vislumbrou “relações humanas por trás das relações entre as coisas, revelando a ilusão da consciência humana que se origina da economia mercantil”.
Sempre a frente do seu tempo, Marx anteviu  as dificuldades de compreensão, na época, das reflexões do Capitulo 1 – A Mercadoria - e fez o registro no prefácio da 1ª edição : “Todo o começo é difícil — isto vale em qualquer ciência. A compreensão do primeiro capítulo, nomeadamente da secção que contém a análise da mercadoria, constituirá, portanto, a maior dificuldade. Tornei o mais possível popular aquilo que mais de perto diz respeito à análise da substância do valor e da magnitude do valor.”
É provável que seguidores de “alguns marxismos” considerem um delírio a afirmativa  que  a Seção 4 – “O Fetichismo da Mercadoria e seu Segredo” – do Capítulo I, do único volume de O Capital, escrito, revisado e prefaciado em várias edições por Marx, seja o precursor do conceito de marketing.
Para algumas correntes marxistas a “Parte I Mercadoria e Dinheiro” deve ser ignorada. No prefácio da edição francesa do Capital, Althusser sugere que o leitor comece  livro pela Parte II – “ A transformação de dinheiro em capital” – e deixe a leitura da primeira somente após a conclusão do resto do livro. E recomenda cautela, já que , na sua opinião “estão imiscuídas aí certas confusões hegelianas”.
Acredito, até, que Althusser tenha razão – veremos na sequência a transcrição de alguns trechos da Seção 4, que enfatizam o caráter místico/religioso na relação dos consumidores com as mercadorias – o que reforçaria a tese de uma reaproximação de Marx, na idade madura, com o Hegel de sua juventude.
Conceituados marxólogos, como Denis Collin, Moishe Postone e mesmo o guru de todos nós , Hobsbawn, afirmam que a teoria do fetichismo da mercadoria seria a descoberta que levou Marx a ultrapassar os postulados da Economia Clássica. Leitor atento de Ricardo, Marx foi muito além ao detectar no fetiche da mercadoria a explicação para as relações de troca e as formas de distribuição. Collin considera a Seção 4 um dos capítulos  filosoficamente mais importantes de O Capital.
Nos três primeiros parágrafos de O Capital, estão duas citações de Nicholas Barbon em anotações de pé-de-página. Barbon (1640 /1698) é um dublê de médico e economista e criador do seguro de incêndio, após a catástrofe que destruiu Londres, em 1666. E que o fez um milionário.....
Nas notas de pé-de-página, Marx cita a obra “ A discourse on coining the new Money lighter, de 1696. Em rápida pesquisa, encontrei outro texto de Barbon, não citado por Marx, “A Discurse of Trade” – Um discurso sobre o Comércio, de 1690 – onde ele faz reflexões muito interessantes sobre mercadorias e que podem ter “inspirado” Marx, na criação do Fetichismo da Mercadoria. Vejamos um trecho:
“Mercadorias, que têm o seu valor estabelecido como suprimento das necessidades da mente, satisfazem desejos. Desejo provoca demanda. É o apetite da alma, e é tão natural para a alma, como a fome para o corpo.
As demandas da mente são infinitas, o homem naturalmente aspira, e como a sua mente é elevada, seus sentidos se tornam mais refinados e mais aptos ao prazer, seus desejos são ampliados, e sua demanda cresce com os seus desejos, e a escassez das coisas, gratifica os seus sentidos, adorna seu corpo, e promove a facilidade, o prazer, e o esplendor da vida.
Entre a grande variedade de coisas para satisfazer as demandas da mente, aquelas que adornam o corpo, e fazem avançar o esplendor da vida, tem o uso mais geral, e em todas as idades, e entre todos os tipos da humanos, são as de maior valor.”
O Dicionário Soviético de Filosofia – Ediciones Pueblos Unidos .Montevideo 1965 – apresenta uma versão “tranquilizadora” : “ o fetichismo da mercadoria tem um caráter histórico e desaparecerá quando se destruir o modo capitalista de produção”. No entanto, a responsável pela publicação – URSS – acabou muito antes.
Segundo Richard Sennet, a compreensão do fetichismo da mercadoria ajuda a entender os fundamentos da Sociedade do Consumo – o que a perspectiva exclusiva da produção não permitiria.
Quando a consumidora compra a bolsa Dolce&Gabana não o faz pela necessidade de ter onde guardar seus objetos de uso. Ela vê no objeto um meio de satisfação de seus desejos de atração, sensualidade e ascensão social.
Ou, com afirma Marx na Seção 4: A primeira vista, uma mercadoria parece uma coisa trivial e que se compreende por si mesma. Pela nossa análise mostramos que, pelo contrário, é uma coisa muito complexa, cheia de sutilezas metafísicas e de argúcias teológicas.”
E no segundo parágrafo, do texto inicial de O Capital: “A mercadoria é, antes de tudo, um objeto exterior, uma coisa que, pelas suas propriedades, satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie. Que essas necessidades tenham a sua origem no estômago ou na fantasia, a sua natureza em nada altera a questão”.
Ou como define Phillip Kotler – guru de todos os “marqueteiros” - , em 1967, exatamente 100 anos após a publicação de “O Capital”, no clássico “Marketing Management”: Marketing é a atividade humana dirigida para satisfação das necessidades e desejos, através dos processos de troca. Um produto é tudo aquilo capaz de satisfazer a um desejo”.
Ainda na Seção 4, é possível  entender como a madeira se transforma em dançarina quando  se converte na mercadoria mesa ( o autor não antecipa, mas,  o ritmo da dança deve variar com a grife): “Por exemplo, a forma da madeira é alterada, ao fazer-se dela uma mesa. Contudo, a mesa continua a ser madeira, uma coisa vulgar, material. Mas a partir do momento em que surge como mercadoria, as coisas mudam completamente de figura: transforma-se numa coisa a um tempo palpável e impalpável. Não se limita a ter os pés no chão; face a todas as outras mercadorias, apresenta-se, por assim dizer, de cabeça para baixo, e da sua cabeça de madeira saem caprichos mais fantásticos do que se ela começasse a dançar.”
Marx faz aqui uma referência bem humorada às mesas girantes que eram modismo na Europa, na metade do século 19.......
Em 1993, Sal Randazo segue a mesma linha fantástica, em “ A criação de mitos na publicidade”: “A maioria das pessoas nem chega a se dar conta de que há literalmente um outro mundo operando dentro de nós. ......É um reino mitológico, um desconhecido mundo cheio de seres arquétipos, demônios e toda uma horda de entidades estranhas.”
O Fetichismo demonstrou que as mercadorias possuíam corpo e alma. Assim, a partir dos anos 60, essa alma passou a se chamar “MARCA” e surgiu uma disciplina chamada MARKETING que se dedicou a cuidar da “alma’ das mercadorias.
Na sociedade do consumo e do espetáculo que estamos vivendo neste início de século 21 o fetichismo está abrindo mão do corpo da mercadoria, que está se tornando desnecessário.
Estou me referindo á “economia do acesso” – quando se promove o acesso a serviços e experiências, a fim de que se possa deles gozar, sem que se obtenha a propriedade do serviço. Ou seja: o capitalismo está entrando em uma nova fase na qual o acesso a um bem ou serviço passa a ser mais importante do que a compra/propriedade desse serviço. E isso altera radicalmente a noção de propriedade, um dos elementos centrais do capitalismo industrial e do contrato social moderno. Assim como a questão do valor: veicula-se agora o valor da experiência.”
Um dos mais radicais exemplos de mercadoria sem corpo e apenas com alma é a mercadoria fé.
E pra encerrar mais um trecho da Seção 4 do Capítulo 1 de O Capital:
“Uma mercadoria, portanto, é algo misterioso simplesmente porque nela o caráter social do trabalho dos homens aparece a eles como uma característica objetiva estampada no produto deste trabalho; porque a relação dos produtores com a soma total de seu próprio trabalho é apresentada a eles como uma relação social que existe não entre eles, mas entre os produtos de seu trabalho(…). A existência das coisas enquanto mercadorias, e a relação de valor entre os produtos de trabalho que os marca como mercadorias, não têm absolutamente conexão alguma com suas propriedades físicas e com as relações materiais que daí se originam… É uma relação social definida entre os homens que assume, a seus olhos, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. A fim de encontrar uma analogia, devemos recorrer às regiões enevoadas do mundo religioso.
Neste mundo, as produções do cérebro humano aparecem como seres independentes dotados de vida, e entrando em relações tanto entre si quanto com a espécie humana.
O mesmo acontece no mundo das mercadorias com os produtos das mãos dos homens. A isto dou o nome de fetichismo que adere aos produtos do trabalho, tão logo eles são produzidos como mercadorias, e que é, portanto inseparável da produção de mercadorias."

domingo, 27 de outubro de 2013

Marxketing - o "X" que faltava....

O site Carta Maior cobriu o II Congresso Internacional Karl Marx que aconteceu em Lisboa, de 24 a 26 de outubro de 2013, no Instituto de História Contemporânea - Universidade Nova de Lisboa. Minha intervenção está em

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

"Te lo prometió Marx y Fidel te lo cumplió".


Conheci Nicolás Guillén em 1962, no coquetel da embaixada cubana em Copacabana (Rio de Janeiro) nos festejos do 26 de julho. Após um longo papo, Gullén marcou uma reunião no dia seguinte para me entregar uma poesia, com dedicatória, para publicar na Época - revista do Centro Acadêmico Candido de Oliveira, que eu editava.
Nicolás Guillén, grande poeta cubano, me “apresentou” a José Martí – poeta e seguidor de Marx e que morreu lutando contra os colonizadores espanhóis em maio de 1895.
Correspondente do La Nación de Buenos Aires, Martí escreveu um longo e original necrológio quando da morte de Marx, em 1883.
Na sequência, o trecho final do texto de Martí e a poesia que recebi das mãos de Guillén e que “inspirou” o título desta postagem.

“Y entre salvas de aplausos tonantes, y frenéticos hurras, pónese en pie, en unánime movimiento, la ardiente asamblea, en tanto que leen desde la plataforma en alemán y en inglés dos hombres de frente ancha y mirada de hoja de Toledo, las resoluciones con que la junta magna acaba, en que Karl Marx es llamado el héroe más noble y el pensador más poderoso del mundo del trabajo. Suenan músicas, resuenan cantos; pero se nota que no son los de la paz.”

“ Te lo prometió Martí
y Fidel te lo cumplió
ay Cuba, ya se acabó
se acabó por siempre aquí,
se acabó
el cuero del manatí
con que el yankee te pegó.
Se acabó.
Te lo prometió Martí
y Fidel te lo cumplió.
Se acabó.”

sábado, 21 de setembro de 2013

Pré-Fetichismo, em 1859


Um dos textos selecionados por Hobsbawn para integrar o 1º volume da História do Marxismo – A crítica da economia política, de Maurice Dobb ( 1900-1976) – identifica em “Contribuição para a Critica da Economia Política”(1859) uma “antecipação” do “Fetichismo da Mercadoria”, conceito diferencial da obra de Marx  e definido no volume 1 de O Capital (1867). Segue o trecho:
“Marx sublinha, portanto, que “se é exato dizer que valor de troca é uma relação entre pessoas, é preciso porém acrescentar: uma relação oculta sob o véu das coisas”. E continua assim: “Somente o hábito da vida cotidiana é que faz aparecer como coisa banal, como coisa óbvia, o fato de que uma relação de produção social assuma a forma de um objeto”, quando, na verdade, “a relação das mercadorias como valores de troca é uma relação entre as  pessoas e suas atividades produtivas recíprocas”. Temos aqui uma primeira enunciação do fenômeno que, mais tarde, Marx chamará de “fetichismo da mercadoria”; é esclarecido um aspecto de importância fundamental na análise marxista da troca e do dinheiro.”