quinta-feira, 30 de junho de 2011

Marxismo e Espiritismo 4.


Em dezembro de 2004, Dora Incontri e Alessandro Cesar Bigheto, publicam na revista on-line da Unicamp uma rica reflexão com o titulo “Socialismo e Espiritismo, aproximações dialéticas”, cuja íntegra pode ser lida em www.histedbr.fae.unicamp.br/rev16.html. No trecho a seguir transcrito, Kardec valoriza a propriedade coletiva, critica a desigualdade e sentencia que “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome.”

“Entre as questões levantadas por Kardec na referida obra ( Livro dos Espíritos) está a da propriedade, que era, como se sabe, objeto de discussão de socialistas e anarquistas de todos os matizes. A idéia expressa em O Livro dos Espíritos vai no sentido da propriedade coletiva, com a crítica ao acúmulo de capital, que se manifesta no plano moral, como egoísmo:
O direito de viver confere ao homem o direito de ajuntar o que necessita para viver e repousar, quando não mais puder trabalhar? — Sim, mas deve fazê-lo em comum, como a abelha, através de um trabalho honesto, e não ajuntar como um egoísta.” (KARDEC, item 881)
Em seguida, Kardec indaga, a partir do ponto de vista liberal, que sempre defendeu a idéia de que a riqueza é uma questão de mérito (e não de injustiça) e a resposta mais uma vez é crítica.
 A desigualdade das riquezas não tem sua origem na desigualdade das faculdades, que dão a uns mais meios de adquirir do que a outros? — Sim e não. Que dizes da astúcia e do roubo?” (KARDEC, item 801)
Em várias outras passagens há críticas ao supérfluo de uns e à miséria de outros, à criação artificial de necessidades – em suma, o que poderíamos hoje chamar de consumismo excludente:
Há, entretanto, uma medida comum de felicidade para todos os homens? — Para a vida material, a posse do necessário; para a vida moral, a consciência pura e a fé no futuro.” (KARDEC, item 922) “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome.”

Marxismo e Espiritismo 3.


Em dezembro de 2004, Dora Incontri e Alessandro Cesar Bigheto, publicam na revista on-line da Unicamp uma rica reflexão com o titulo “Socialismo e Espiritismo, aproximações dialéticas”, cuja íntegra pode ser lida em www.histedbr.fae.unicamp.br/rev16.html. O texto fala das relações de Kardec com os socialistas e , já na fase espírita, citações de Fourier e Saint-Simon. Menciona ainda a parceria com Maurice Lachâtre, editor das obras de Marx, em fascículos populares. E abre espaço para os seguidores de Kardec, na França e na America Latina.

“O sucessor de Kardec, que liderou o movimento espírita francês até depois da Primeira Guerra Mundial, foi Léon Denis, um operário de Tours, autodidata, amigo e companheiro de Jean Jaurès, socialista espiritualista. Denis escreveu a obra Socialismo e Espiritismo, um clássico da literatura social espírita. Nesta obra, Denis relata seu profundo envolvimento com o movimento operário francês, e os conflitos entre um socialismo materialista e um socialismo espiritualista, quando da sua participação de um ciclo de conferências na Bélgica, com Volders e Oskar Beck. Volders organizou o Congresso Socialista Internacional em Bruxelas, em 1891.
Na América Latina, o pensamento socialista espírita teve vários representantes. Entre eles, os argentinos Manuel S. Porteiro, que escreveu Espiritismo Dialético, Cosme Mariño e Humberto Mariotti, autores respectivamente de Concepto Espiritista del Socialismo e Parapsicologia e Materialismo Histórico; os brasileiros Eusínio Lavigne e Souza do Prado, de tendências stalinistas, com a obra Os Espíritas e as Questões Sociais, Jacob Holzmann Netto, que participou do Movimento Universitário Espírita na década de 70 (depois abafado pela ditadura militar), com o livreto Espiritismo e Marxismo e, o maior expoente da intelectualidade espírita no Brasil, o jornalista e filósofo J. Herculano Pires, autor de Espiritismo Dialético e O Reino. “


quarta-feira, 29 de junho de 2011

Marxismo e Espiritismo 2.


Em dezembro de 2004, Dora Incontri e Alessandro Cesar Bigheto, publicam na revista on-line da Unicamp uma rica reflexão com o titulo “Socialismo e Espiritismo, aproximações dialéticas”, cuja íntegra pode ser lida em www.histedbr.fae.unicamp.br/rev16.html. Reproduzo abaixo o trecho inicial, onde Mariotti se refere a uma “esquerda kardeciana”. Selecionei ainda mais dois trechos, que postarei a seguir.

“Tudo começa com o mestre de Allan Kardec (Rivail), Johann Heinrich Pestalozzi, que, ao contrário da análise pouco informada de alguns, que ignoram a complexidade de sua obra e de sua trajetória, passou da crença no despotismo esclarecido a um pensamento social, que não pode ser meramente considerado burguês, pois, ao mesmo tempo, em que ele foi condecorado como membro honorário da Revolução Francesa, foi crítico dela. Em seu pensamento, (ver INCONTRI:1996), existem traços de uma dialética original – que é espiritualista, se dá na história, mas não tem o totalitarismo panteísta de Hegel ou de Fichte. Com este último, Pestalozzi manteve fecundo diálogo.
Tendo Pestalozzi uma vasta e multifacetada obra, a interpretação a respeito é bastante controversa. Alguns o vêem como um pensador romântico, outros como típico representante do iluminismo. Mas, existe uma leitura mais à esquerda, que identifica elementos bastante originais do seu pensamento. Por exemplo, TOLLKÖTTER (s.d) estabelece comparações entre Marx e Pestalozzi, em relação ao trabalho, à sociedade e à educação. (1) SCHLEUNER (1974), faz interessante estudo comparativo entre a experiência de Pestalozzi em Stans e a experiência socialista de Makarenko.
Assim também entre os autores espíritas, já de início com o próprio Kardec, discípulo e herdeiro de Pestatalozzi, há polêmicas e diversas leituras, dependendo da lente ideológica dos estudiosos. Humberti Mariotti fala de uma “esquerda kardeciana” (HOLZMANN NETTO, 1970). Mas é inegável que houve confluências e influências entre Socialismo e Espiritismo. “


terça-feira, 28 de junho de 2011

O Manifesto e o BNDES.


Decorridos 163 anos da publicação do Manifesto do Partido Comunista (1848), seu texto continua sendo citado. Hoje, mais pela direita que pela esquerda. Um bom exemplo está no artigo do economista Rodrigo Constantino – “É hora de repensar o BNDES” – publicado hoje (28/06/11) na página 7 de O Globo. Ao criticar a “estatização” do sistema bancário, insinua que o governo segue as recomendações do velho Karl.
“O governo é o maior banqueiro do país! No Manifesto Comunista, não custa lembrar, Marx colocou como uma das metas fundamentais de seu programa a centralização do crédito nas mãos do Estado”.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Marxismo e Espiritismo 1.


As relações do espiritismo com o marxismo e o socialismo ocupam vasta bibliografia. Participei desta convivência desde a mais tenra infância. Meu pai sempre teve duas referências : Kardec e Marx. Pretendo dedicar algumas postagens ao tema. Pra começar, um trecho do texto de Sergio Biasi Gregório, postado no site do Centro Espírita Ismael.

“6.2. MARX E KARDEC
Marx libertou o homem da exploração econômica. Deu-lhe uma nova dimensão do ser quanto à sua função material na sociedade. Contudo, faltou-lhe a dimensão metafísica, da vida além-túmulo que o Espiritismo lhe pode oferecer facilmente. Com Marx, o ser humano morre para nunca mais nascer. A realidade do Espírito, contudo, explicada por Allan Kardec, é outra. Ele é imortal e pode retornar à terra quantas vezes forem necessárias para dar prosseguimento à sua evolução rumo à perfeição ensinada pelo mestre Jesus. (Mariotti, 1983, cap. III)” www.ceismael.com.br/filosofia/marxismo-e-espiritismo.htm

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Ho Chi Min: de pintor de "antiguidades" a libertador da Indochina.


Em abril de 1960, na comemoração dos 90 anos de nascimento de Lênin, Ho Chi Min publica “O Caminho que me levou ao Leninismo”. O texto transpira inocência e credulidade, do início ao fim.

“Após a Primeira Guerra Mundial, eu levava minha vida em Paris, ora como retocador de fotografias, ora como pintor de “antiguidades chinesas” (feitas na França). Também distribuía panfletos denunciando os crimes cometidos pelos colonizadores franceses no Vietnã.
Naquele tempo, eu apoiava a Revolução de Outubro apenas por intuição, não tendo em mente ainda toda sua importância histórica. Eu amava e admirava Lênin porque ele era um grande patriota que libertara seus compatriotas; até então, eu não havia lido nenhum de seus livros.
A razão para eu ter me unido ao Partido Socialista Francês foi porque essas “damas e cavalheiros” – como eu chamava meus camaradas na época – demonstraram sua simpatia por mim, pela luta dos povos oprimidos. Mas eu não entendia o que era um partido, um sindicato, nem mesmo socialismo ou comunismo.”
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“Existe uma lenda, tanto em nosso país como na China, sobre o milagroso “Livro da sabedoria”. Ao se deparar com grandes dificuldades, pode-se abrir o livro e encontrar a solução. O leninismo não é apenas um milagroso “livro da sabedoria”, um compasso para nós revolucionários e cidadãos vietnamitas: é também o fulgurante sol iluminando nosso caminho para a vitória final, ao socialismo e ao comunismo.” Leia a íntegra do texto em:
www.marxists.org/portugues/ho_chi_minh/1960/04/leninismo.htm

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O "carioca" Ho Chi Min adorava a "zona do mangue".


Nem só de reflexões sobre os diversos  marxismos vive esse blog. Hoje vou abrir espaço para um fato pouco conhecido da vida de um dos meus ídolos da juventude: Ho Chi Min. O fundador do Partido Comunista da Indochina que derrotou, ao lado de Giap, o exército francês em Diem Bien Phu, passou quase seis meses na Cidade Maravilhosa, em algum momento entre 1911 e 1922 ( as datas variam dependendo da fonte).
Em 1911, Ho Chi Min se junta à tripulação do navio mercante La Touche Trevile como ajudante de cozinheiro e viaja pelo mundo. Numa dessas viagens desembarcou no Rio de Janeiro para tratamento de saúde (tuberculose), tendo ficado hospedado por cerca de seis meses em uma pensão no bairro de Santa Teresa.
A fama de bom cozinheiro de Ho - que teria se notabilizado pelo preparo de aves e se aperfeiçoado em pâtisserie com o mestre Auguste Escoffier - levou conhecida jornalista especializada em gastronomia  a levantar a possibilidade dele ter feito “bico” em algum restaurante carioca.
Em 1924, ao encontrar-se, em Moscou, com Astrogildo Pereira e Rodolfo Coutinho, que buscavam o reconhecimento do Partido Comunista do Brasil - PCB pela Terceira Internacional, Ho evocou seus dias de Rio de Janeiro.
O líder vietnamita teria compartilhado seu quarto com Rodolfo Coutinho e revelado fatos curiosos sobre sua estada no Brasil.
Na versão oficial, Ho teria ficado impressionado com a "zona do mangue" (antiga zona de prostituição do Rio de Janeiro), com o cheiro fétido, com o mercado de sexo, “subproduto do capitalismo nas condições do atraso semicolonial.”
Na versão descontraída de Hercules Corrêa ( membro do Comitê Central, nos meus tempos de militante), a “zona de baixo meretrício” seria “o logradouro carioca favorito de Ho Chi Min”.
“Além de engraxate, fui ajudante de cozinheiro, servi café da manhã às prostitutas na zona do meretrício, o histórico Mangue, que como me contou Luiz Carlos Prestes era o logradouro carioca favorito de Ho Chi Min quando o então futuro líder da revolução vietnamita esteve por aqui em 1922” (Hercules Corrêa – Memórias de um stalinista).

Limites do marxismo tradicional.


Tenho dedicado diversas postagens à visão inovadora que Moishe Postone tem da obra de Marx a  partir da leitura conjunta dos Grundrisse e O Capital. Segue abaixo um texto extraído de “Necessidade, Tempo e Trabalho” onde Postone  destaca a necessidade imperiosa superar, em pleno século 21, o modo de produção industrial de base proletária. Para os que gostariam de conhecer, “sem intermediários”, as teses marxólogo, basta acessar www.youtube.com/watch?v=apbqa3TSuZU        e assistir a sua intervenção no Congresso Marx International V, de 2007. A íntegra do texto aqui citado está disponível em http://obeco.no.sapo.pt/mpt2.htm

“......se o Marxismo tiver de adquirir novamente alguma significação social nos países industrializados avançados, a falha do Marxismo tradicional em examinar criticamente o processo industrial de produção terá de ser superado. A crítica histórica adequada da totalidade social determinada pelo capital deveria mostrar que o modo de produção industrial, de base proletária, também pode ser superado. Isto permitiria um exame crítico da relação que as pessoas têm com seu trabalho, bem como da relação entre a humanidade e a natureza, enquanto mediada pelo processo de produção – duas áreas cruciais que não podem ser adequadamente abordadas por uma teoria cuja principal preocupação é a transformação do modo de distribuição e na qual o modo industrial de produção é hipostasiado. Em outras palavras, a crítica histórica adequada deve colocar a questão da produção alienada no centro de sua investigação. Uma teoria cuja preocupação principal é o próprio modo de produção proveria também, na minha opinião, o ponto de partida necessário para avaliações da cultura, da vida cotidiana, dos vários movimentos de emancipação atuais e uma série de outras considerações que não poderiam ser adequadamente abordadas nos limites da estrutura teórica de interpretação do Marxismo tradicional.”

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Marx. Filósofo ou crítico da economia?


Tenho dedicado diversas postagens ao tema “Marx filósofo” – um enquadramento rejeitado por ele até a morte. Chegando ao exagero de afirmar que a filosofia estava para o saber real como o onanismo para o sexo. Em entrevista concedida à revista E (SESC São Paulo) de junho/11, Leandro Konder – que dedicou toda a sua vida a estudar a obra de Marx – é taxativo.

“Marx era um filósofo competente. Há uma tese de que ele foi prejudicado na medida em que não foi reconhecido como filósofo. Marx ficou sendo um crítico da política, um crítico da economia e não foi aproveitado como critico da filosofia. A critica do mercado não pode ser calcada em sua obra. A obra de Marx reflete uma experiência histórica importante, mas limitada. Ele não enxergou todos os problemas da economia de mercado. E nós não nos aprofundamos em sua obra o suficiente para lê-lo como filósofo. Marx tem observações fundamentais sobre  a relação do homem com os problemas que o isolam. Vai além sobre a teoria do mercado, denunciando com muita lucidez esses sistemas. .............Mas, sem dúvida, depois de Hegel, é o filósofo mais importante da era moderna

domingo, 12 de junho de 2011

O estalinismo e o desvio para a direita.Uma visão trotskista.


Em maio de 1951, onze anos após a morte de seu marido - que conheceu em Paris em 1902 - Natalia Sedova Trotsky escreve carta de rompimento com a IV Internacional. No texto, acusa o estalinismo de caminhar em direção à “restauração do capitalismo”. Uma antecipação do capitalismo de estado (existiria?) da China Comunista de 2011? Uma mensagem para ser lida por Fidel e Raul?
“Obcecados por velhas e ultrapassadas fórmulas, continuam considerando o estado estalinista como um Estado obreiro. Eu não posso e não acompanharei vocês nisto. Depois do começo da luta contra a burocracia estalinista usurpadora, Trotsky repetia praticamente todos os anos, que o regime se deslocava para a direita, sob as condições de uma revolução mundial delongada e a conquista de todas as posições políticas pela burocracia na Rússia. Repetidas vezes sublinhou como a consolidação do estalinismo na Rússia conduzia a uma deterioração das posições econômicas, políticas e sociais da classe operária, e ao triunfo de uma aristocracia tirânica e privilegiada. Se esta tendência continuar, disse, a revolução esgotar-se-á e a restauração do capitalismo será atingida. Infelizmente, isso foi o que aconteceu, mesmo se em formas novas e inesperadas. Não há nenhum país no mundo onde as autênticas idéias e os autênticos defensores do socialismo sejam perseguidos tão barbaramente [como na Rússia]. Deveria ficar claro para todo o mundo que a revolução foi completamente arruinada pelo estalinismo. Todavia, vocês continuam dizendo ainda que sob este regime inominável, a Rússia é um Estado operário ou com algo de socialismo. Acho isto como um ataque ao socialismo. O estalinismo e o Estado estalinista não tem parecido em nada com um Estado operário e com o socialismo. Eles são os mais perigosos inimigos do socialismo e da classe obreira.”

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O "ausente" Capitalismo.


O filósofo francês Denis Collin em “Compreender Marx” ( Editora Vozes, 2008) faz uma afirmativa surpreendente: o termo “capitalismo” não figura na obra de Marx. A expressão usada seria o sintagma “modo de produção capitalista” . Segundo Collin, o uso do termo “capitalismo” em vez de e no lugar do sintagma seria “gerador de confusões”.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O fim da propriedade privada


Em “Princípios básicos do comunismo” (1847), Engels responde à questão “Será possível a abolição da propriedade privada por via pacífica? A óbvia resposta negativa ensejaria uma nova pergunta, na segunda década do século 21: “Será possível a abolição  da propriedade coletiva, em Cuba, por via pacífica? O exemplo da queda do muro, em 1989, conduziria a uma resposta afirmativa?
A resposta de Engels; à 1ª questão:

“Seria de desejar que isso pudesse acontecer, e os comunistas seriam certamente os últimos que contra tal se insurgiriam. Os comunistas sabem muitíssimo bem que todas as conspirações são não apenas inúteis, como mesmo prejudiciais. Eles sabem muitíssimo bem que as revoluções não são feitas propositada nem arbitrariamente, mas que, em qualquer tempo e em qualquer lugar, elas foram a consequência necessária de circunstâncias inteiramente independentes da vontade e da direção deste ou daquele partido e de classes inteiras. Mas eles também vêem que o desenvolvimento do proletariado em quase todos os países civilizados é violentamente reprimido e que, deste modo, os adversários dos comunistas estão a contribuir com toda a força para uma revolução. Acabando assim o proletariado oprimido por ser empurrado para uma revolução, nós, os comunistas, defenderemos nos atos, tão bem como agora com as palavras, a causa dos proletários”.

domingo, 29 de maio de 2011

Proletário X Escravo e Proletário X Servo


Em seu “Princípios básicos do comunismo” (1847), Engels procura demonstrar as diferenças entre proletário e servo e proletário e escravo.
“O escravo está vendido de uma vez para sempre; o proletário tem de se vender a si próprio diariamente e hora a hora. O indivíduo escravo, propriedade de um senhor, tem uma existência assegurada, por muito miserável que seja, em virtude do interesse do senhor; o indivíduo proletário – propriedade, por assim dizer, de toda a classe burguesa -, a quem o trabalho só é comprado quando alguém dele precisa, não tem a existência assegurada. Esta existência está apenas assegurada a toda a classe dos proletários. O escravo está fora da concorrência, o proletário está dentro dela e sente todas as suas flutuações. O escravo vale como uma coisa, não como um membro da sociedade civil; o proletário é reconhecido como pessoa, como membro da sociedade civil. O escravo pode, portanto, levar uma existência melhor do que a do proletário, mas o proletário pertence a uma etapa superior do desenvolvimento da sociedade e está ele próprio numa etapa superior à do escravo. O escravo liberta-se ao abolir, de entre todas as relações de propriedade privada, apenas a relação de escravatura e ao tornar-se, assim, ele próprio proletário; o proletário só pode libertar-se ao abolir a propriedade privada em geral.
O servo tem a posse e o usufruto de um instrumento de produção, de uma porção de terra, contra a entrega de uma parte do produto, ou contra a prestação de trabalho. O proletário trabalha com instrumentos de produção de outrem por conta desse outrem, contra o recebimento de uma parte do produto. O servo entrega, o proletário recebe. O servo tem uma existência assegurada, o proletário não a tem. O servo está fora da concorrência, o proletário está dentro dela. O servo liberta-se fugindo para as cidades e tornando-se aí artesão, ou dando ao seu amo dinheiro, em vez de trabalho e produtos, e tornando-se rendeiro livre, ou expulsando o senhor feudal e tornando-se ele próprio proprietário: em suma, entrando, de uma ou de outra maneira, na classe proprietária e na concorrência. O proletário liberta-se abolindo a concorrência, a propriedade privada e todas as diferenças de classes.

sábado, 28 de maio de 2011

Princípios básicos do comunismo by Engels, 2


Em novembro de 1847, alguns meses antes da divulgação do “Manifesto”, Engels produz um texto “didático” com perguntas e respostas para explicar os “Princípios Básicos do Comunismo”. A pergunta numero 6 é “Que classes de trabalhadores houve antes da revolução industrial?”
R – “Conforme as diferentes etapas de desenvolvimento da sociedade, as classes trabalhadoras viveram em condições diversas e tiveram posições igualmente diversas em relação às classes proprietárias e dominantes. Na Antiguidade, os trabalhadores eram escravos dos proprietários, como ainda o são em muitos países atrasados, como no sul dos Estados Unidos. Na Idade Média eram servos dos nobres proprietários de terras, como ainda o são na Hungria, na Polônia e na Rússia. Na Idade Média, e até à revolução industrial, houve ainda, além disso, nas cidades, oficiais artesãos que trabalhavam ao serviço de mestres pequeno-burgueses e, pouco e pouco, com o desenvolvimento da manufatura, apareceram os operários das manufaturas que eram já empregados por grandes capitalistas.”

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Princípios básicos do comunismo by Engels, 1


Em novembro de 1847, alguns meses antes da divulgação do “Manifesto”, Engels produz um texto “didático” com perguntas e respostas para explicar os “Princípios Básicos do Comunismo”. A resposta à questão “sempre houve proletários?”é simples e direta:
“Não. Classes pobres e trabalhadoras sempre houve; e as classes trabalhadoras eram, na maioria dos casos, pobres. Mas nem sempre houve estes pobres, estes operários vivendo nas condições que acabamos de assinalar, portanto, [nem sempre houve] proletários, do mesmo modo que a concorrência nem sempre foi livre e desenfreada.”
A pergunta seguinte é sobre a origem do proletariado.
“Resposta: O proletariado apareceu com a revolução industrial, que se processou na Inglaterra na segunda metade do século passado e que, desde então, se repetiu em todos os países civilizados do mundo. Esta revolução industrial foi ocasionada pela invenção da máquina a vapor, das várias máquinas de fiar, do tear mecânico e de toda uma série de outros aparelhos mecânicos. Estas máquinas, que eram muito caras e, portanto, só podiam ser adquiridas pelos grandes capitalistas, transformaram todo o modo de produção anterior e suplantaram os antigos operários, na medida em que as máquinas forneciam mercadorias mais baratas e melhores do que as que os operários podiam produzir com as suas rodas de fiar e teares imperfeitos. Estas máquinas colocaram, assim, a indústria totalmente nas mãos dos grandes capitalistas e tornaram a escassa propriedade dos operários (ferramentas, teares, etc.) completamente sem valor, de tal modo que, em breve, os capitalistas tomaram tudo nas suas mãos e os operários ficaram sem nada. Assim se instaurou na confecção de tecidos o sistema fabril. Uma vez dado o impulso para a introdução da maquinaria e do sistema fabril, este sistema foi também muito rapidamente aplicado a todos os restantes ramos da indústria, nomeadamente, à estampagem de tecido e à impressão de livros, à olaria, à indústria metalúrgica. O trabalho foi cada vez mais dividido entre cada um dos operários, de tal modo que o operário que anteriormente fizera toda uma peça de trabalho agora passou a fazer apenas uma parte dessa peça. Esta divisão do trabalho tornou possível que os produtos fossem fornecidos mais depressa e, portanto, mais baratos. Ela reduziu a atividade de cada operário a um gesto mecânico muito simples, repetido mecanicamente a cada instante, o qual podia ser feito por uma máquina não apenas tão bem, mas ainda muito melhor. Deste modo, todos estes ramos da indústria caíram, um após outro, sob o domínio da força do vapor, da maquinaria e do sistema fabril, da mesma maneira que a fiação e a tecelagem.”

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Marx e os livros


Paul Lafargue, genro de Marx, fala da relação do sogro com os livros.
“No decurso de uma conversa, interrompia-se com freqüência para mostrar num livro uma passagem ou cifra que queria citar. Estava tão identificado com o ambiente de seu aposento que os livros lhe obedeciam como partes do próprio corpo.
Na maneira de dispor seus livros, ele não dava importância à simetria formal. Volumes de todo tamanho, misturados a folhetos, confundiam-se pitorescamente. Não os arrumava de acordo com as dimensões, mas levando em conta o assunto. Para Marx, os livros representavam instrumentos de trabalho e não objetos de luxo. Afirmava: “Os livros são meus escravos e hão de servir-me de acordo com meus desejos e com toda a pontualidade”.
Sem levar em conta o formato ou a beleza gráfica, maltratava os livros, dobrava-os em ângulo, borrava-os e sublinhava tal ou qual trecho. Não fazia anotações nos livros, mas marcava-os com um ponto de exclamação ou interrogação quando o autor passava das medidas. Seu sistema de sublinhar permitia-lhe ir ao assunto sempre que julgasse oportuno. Tinha o costume de reler seus cadernos de anotações e as passagens sublinhadas nos livros, guardando os assuntos fielmente na memória, que era de uma extraordinária precisão. Exercitou-a desde a adolescência. Seguindo os conselhos de Hegel, decorava versos escritos em línguas desconhecidas para ele.”

Marx e a paixão por Shakespeare


Paul Lafargue – casado com Laura, filha de Marx – conta a relação de Marx com a obra do dramaturgo inglês e seu profundo conhecimento de todos os personagens.
“Sabia de cor as obras de Heine e Goethe e citava, de memória, trechos desses autores. Lia poetas de todas as literaturas européias. Anualmente, relia Ésquilo, no texto grego original. Considerava Ésquilo e Shakespeare os dois maiores gênios dramáticos de todos os tempos. Dedicou-se a estudar profundamente a obra de Shakespeare, por quem sentia admiração sem limites. Conhecia o caráter de todas as personagens criadas pelo dramaturgo inglês. Da sua devoção ao poeta de Hamlet compartilhava toda a família, tanto que suas filhas conheciam de cor os trabalhos de Shakespeare.
Depois de 1848, querendo se aperfeiçoar no conhecimento da língua inglesa, pesquisou e classificou as expressões de Shakespeare. Fez o mesmo com parte da obra do polemista inglês William Cobbert  a quem grandemente se afeiçoara. Entre seus poetas favoritos, contavam-se Dante e Robert Burns Tinha verdadeiro prazer em ouvir as filhas recitarem-lhe fragmentos de sátiras ou madrigais do poeta escocês.”

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O aposento de Marx.


Paul Lafargue - casado com Laura, filha de Marx – faz uma descrição detalhada do ambiente de trabalho do sogro em Maitland Park Road ( Londres), o local para onde acorriam camaradas de todos os cantos do mundo para conversar com o mestre. Maitland Park Road,41 foi a residência do filósofo desde março de 1875 até sua morte em 1883.
“O aposento de Marx possui seu sentido histórico. É preciso conhecê-lo para penetrar na intimidade da vida intelectual de Marx.
Estava situado no primeiro pavimento e o largo balcão, por onde penetrava abundante luz, dava para o parque. De um e de outro lado da lareira e de frente para a janela, estavam as estantes repletas de livros, pacotes de jornais e manuscritos. Diante da lareira, de um dos lados da janela, viam-se duas mesas cobertas de papéis, livros e jornais. No centro da sala, na parte mais clara, havia uma mesa singela, de 1 metro de comprimento por 17 centímetros de largura, e uma poltrona de madeira. Entre ela e as estantes, diante da janela, via-se um divã de couro que Marx utilizava para descansar, de vez em quando. Sobre a lareira, havia também livros misturados com cigarros e maços de tabaco, retratos de suas filhas, de sua companheira, de Wilhelm Wolfe e de Friedrich Engels.
Marx era fumante inveterado. “O Capital”, dizia-me, “jamais me dará o que já gastei em fumo enquanto o escrevia”. Gastava muitos fósforos. Distraído, com tanta freqüência deixava o cachimbo ou o cigarro se apagar que, para reacendê-los, desperdiçava incrível quantidade de fósforos.
Não permitia que ninguém lhe arrumasse – ou, melhor, lhe desarrumasse – os papéis. Na realidade, essa desordem era apenas aparente. Tudo estava no seu devido lugar. Encontrava sempre sem esforço o livro ou o papel que necessitasse.

domingo, 22 de maio de 2011

Sismondi - pequeno burguês, mas consciente.


"Sismondi é profundamente consciente das contradições da produção capitalista”.
A afirmativa de Marx, em “Teorias da Mais –Valia”, evidencia que quando classifica o economista e historiador de pequeno burguês faz uma critica à sua postura “reformista” - Sismondi acreditava que seria possível controlar a exploração capitalista com a intervenção do Estado, sem revolução – mas, tem admiração pela sua obra.
 Artigo de Sismondi de 1835 – quando Marx tinha 17 anos – resume o pensamento do suíço. “Os filósofos podem sonhar com uma ordem social em que todas as distinções sejam aniquiladas, em que todos os homens sejam iguais; mas eles só podem aplicar sua teoria a uma comunidade imaginária que abjure todas as vantagens nas quais a distinção se fundamenta; uma comunidade sem memória do passado, sem elegância de costumes, sem instrução e sem riqueza; uma comunidade onde todo o trabalho para um fundo comum eliminaria as vantagens que a vida civilizada permitiu ao homem adquirir; onde todos perderiam a emulação que atualmente sustenta a coragem e onde cada qual colocaria sua indolência pessoal em oposição às necessidades da comunidade, desonerando-se de suas tarefas com repugnância sob as ordens de uma autoridade que logo se tornaria tirânica e odiada”. Qualquer semelhança com o stalinismo não é mera coincidência.

Sismondi ( Jean Charles Leonard Simonde de Sismondi) 1773 – 1842 foi um importante economista e historiador  suíço que desenvolveu teses pioneiras sobre as crises do capitalismo e a maior participação dos trabalhadores nos benefícios do crescimento econômico. Seu pensamento teve forte influência sobre Marx e Keynes.
 

sábado, 21 de maio de 2011

O pedestal passivo da luta de classes.


No prefácio da 2ª edição do 18 Brumário, Marx  faz uma curiosa análise da luta de classes na Roma Antiga e conclui que a semelhança entre as criaturas políticas daquela época e a de 1869 era a mesma que a existente entre o Papa e o arcebispo de Cantuária ( líder espiritual da Igreja Anglicana). E qual seria a semelhança entre as criaturas políticas de 1869 e 2011?
“Finalmente, confio em que a minha obra contribuirá para eliminar esse lugar-comum do chamado cesarismo, tão corrente, sobretudo atualmente, na Alemanha. Nesta superficial analogia histórica esquece-se o principal, nomeadamente que na antiga Roma, a luta de classes apenas se processava entre uma minoria privilegiada, entre os ricos livres e os pobres livres, enquanto a grande massa produtiva da população, os escravos, formavam um pedestal puramente passivo para aqueles lutadores. Esquece-se a importante sentença de Sismondi (1): o proletariado romano vivia à custa da sociedade, enquanto a moderna sociedade vive à custa do proletariado. A diferença das condições materiais, econômicas, da luta de classes antiga e moderna é tão completa que as suas criaturas políticas respectivas não podem ter mais semelhança umas com as outras que o arcebispo de Cantuária com o pontífice Samuel.
Londres, 23 de Junho de 1869.
Karl Marx “
(1). Sismondi ( Jean Charles Leonard Simonde de Sismondi) 1773 – 1842 foi um importante economista e historiador  suíço que desenvolveu teses pioneiras sobre as crises do capitalismo e a maior participação dos trabalhadores nos benefícios do crescimento econômico. Seu pensamento teve forte influência sobre Marx  (vide a referência acima) e Keynes