quarta-feira, 14 de maio de 2014

"Ainda não aprendemos a viver no século XXI"

Eric Hobsbawm nos deixou em 2012, mas suas ideias serão cada vez mais validadas pelos novos tempos. Selecionei um pequeno trecho de seu artigo no The Guardian que faz uma reflexão sobre o que virá depois do capitalismo.
“Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, o deslocamento do mercado livre para a ação pública deve ser maior do que os políticos imaginam. O século XX já ficou para trás, mas ainda não aprendemos a viver no século XXI, ou ao menos pensá-lo de um modo apropriado. Não deveria ser tão difícil como parece, dado que a idéia básica que dominou a economia e a política no século passado desapareceu, claramente, pelo sumidouro da história. O que tínhamos era um modo de pensar as modernas economias industriais – em realidade todas as economias -, em termos de dois opostos mutuamente excludentes: capitalismo ou socialismo.
Conhecemos duas tentativas práticas de realizar ambos sistemas em sua forma pura: por um lado, as economias de planificação estatal, centralizadas, de tipo soviético; por outro, a economia capitalista de livre mercado isenta de qualquer restrição e controle. As primeiras vieram abaixo na década de 1980, e com elas os sistemas políticos comunistas europeus; a segunda está se decompondo diante de nossos olhos na maior crise do capitalismo global desde a década de 1930. Em alguns aspectos, é uma crise de maior envergadura do que aquela, na medida em que a globalização da economia não estava então tão desenvolvida como hoje e a economia planificada da União Soviética não foi afetada. Não conhecemos a gravidade e a duração da atual crise, mas sem dúvida ela vai marcar o final do tipo de capitalismo de livre mercado iniciado com Margareth Thatcher e Ronald Reagan.

A impotência, por conseguinte, ameaça tanto os que acreditam em um capitalismo de mercado, puro e desestatizado, uma espécie de anarquismo burguês, quanto os que crêem em um socialismo planificado e descontaminado da busca por lucros. Ambos estão quebrados. O futuro, como o presente e o passado, pertence às economias mistas nas quais o público e o privado estejam mutuamente vinculados de uma ou outra maneira. Mas como? Este é o problema que está colocado diante de nós hoje, em particular para a gente de esquerda.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Flor e o Botão.

Selecionei um pequeno trecho do prefácio da “Fenomenologia do Espírito”, de 1807. Este parágrafo iniciou a minha “descoberta” de Hegel.

“O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. E essa igual necessidade que constitui unicamente a vida do todo. Mas a contradição de um sistema filosófico não costuma conceber-se desse modo; além disso, a consciência que apreende essa contradição não sabe geralmente libertá-la - ou mantê-la livre - de sua unilateralidade; nem sabe reconhecer no que aparece sob a forma de luta e contradição contra si mesmo, momentos mutuamente necessários.”

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O socialista Einstein.

Em maio de 1949, Albert Einstein escreve, para o 1º número da Monthly Review, uma rica reflexão sob o título Por que Socialismo ?. Selecionei um trecho muito estimulante e revelador das preocupações sociais do gênio da física.
“A situação prevalecente em uma sociedade baseada na propriedade privada do capital está então caracterizada por dois princípios mestres: primeiro, os meios de produção são propriedade de indivíduos, e estes dispõem deles como melhor lhes parecer; segundo, o contrato de trabalho é livre. Supostamente, não existe sociedade capitalista pura, neste sentido. Em particular, deve-se assinalar que os trabalhadores, por meio de grandes e amargas lutas políticas, tem conseguido uma forma um tanto melhorada do “livre contrato de trabalho” para certas categorias de trabalhadores. Mas, tomada como um todo, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.
Esta mutilação dos indivíduos é o que considero o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educativo como um todo sofre este mal. Uma atitude exageradamente competitiva se inculca no estudante, que é treinado para adorar o êxito da aquisição como uma preparação para sua futura carreira.
Estou convencido de que há somente uma forma de eliminar estes graves malefícios: através do estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional que seja orientado para fins sociais. Em tal economia, os meios de produção são propriedade da própria sociedade e utilizados de maneira planejada. Uma economia planejada, que ajuste a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho entre todos aptos a trabalhar e garantiria os meios de vida de todos, homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de promover suas próprias habilidades inatas, intentaria desenvolver em um sentido de responsabilidade por seu próximo, em lugar da glorificação do poder e do êxito em nossa sociedade atual.”
Para ler a íntegra, acesse:
http://www.marxists.org/portugues/einstein/1949/05/socialismo.htm



terça-feira, 29 de abril de 2014

A visão de Bernard Shaw

"Ele realizou a maior proeza literária que um homem pode almejar. Marx mudou a consciência do mundo." Bernard Shaw

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Hegel, psicólogo disfarçado.


A ousada afirmativa do titulo está contida em palestra do pensador junguiano David Holt (1926-2002), proferida na Royal Society of Medicine, em 21 de novembro de 1974.
Holt, que se confessa um conservador com “c” grande e pequeno, afirma que Marx “introduziu em sua análise econômica expectativas messiânicas”, fruto de sua formação judaico-cristã. Essas expectativas, das quais ele estaria - segundo Holt, inconsciente - o levaram a sacramentar o proletariado como “o povo escolhido”.
Holt vai buscar em Hegel a base de sua ousada afirmativa:
“Como a visão de Marx se relaciona com a história longa e confusa da psicologia messiânica judaico-cristã? Eu acho que a maioria dos estudantes de história das ideias concorda que a resposta está na filosofia de Hegel, e na forma utilizada por Marx ao alterar esta filosofia. Certamente foi na obra de Hegel que eu encontrei a minha primeira ponte de Marx  para Jung, 25 anos atrás.
Jung escreveu sobre filosofia de Hegel:
A vitória de Hegel sobre Kant consistiu no mais grave golpe na razão e no desenvolvimento da mentalidade germânica e, em última análise, da mentalidade europeia, o mais perigoso é que Hegel era um psicólogo disfarçado que projetou grandes verdades fora da esfera subjetiva em um cosmos que ele mesmo havia criado.”



sexta-feira, 11 de abril de 2014

Cristianismo Primitivo e Movimento Operário.

Em 1895, Engels produz um de seus últimos textos onde analisa os pontos de contato entre o cristianismo primitivo e o movimento operário “moderno”. Segue o parágrafo de abertura:
“A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria; o cristianismo transpõe essa libertação para o Além, numa vida depois da morte, no céu; o socialismo coloca-a no mundo, numa transformação da sociedade. Os dois são perseguidos e encurralados, os seus aderentes são proscritos e submetidos a leis de exceção, uns como inimigos do gênero humano, os outros como inimigos do governo, da religião, da família, da ordem social. E, apesar de todas as perseguições, e mesmo diretamente servidos por elas, um e outro abrem caminho vitoriosamente. Três séculos depois do seu nascimento, o cristianismo é reconhecido como a religião do Estado e do Império romano: em menos de sessenta anos, o socialismo conquistou uma posição tal que o seu triunfo definitivo está absolutamente assegurado.”


quinta-feira, 10 de abril de 2014

"Capitalismo puro", nos anos 1980.

Neste abril de 2014, após 20 anos de ausência, voltou a circular o mensário francês “ O Idiota Internacional” ( L’Idiot International ), criado por Sartre e Simone de Beauvoir. Na edição inaugural, uma interessante e extensa entrevista com a romancista Dominique Manotti , ex-integrante - anos 60 - da UEC ( Union des étudiants communistes). Dominique faz uma curiosa análise do pensamento de Marx: “ Marx pensava que vivia na era do capitalismo. Na realidade, são os anos 1980 que representam o surgimento do capitalismo puro. Todos os valores anteriores foram apagados, a partir deste momento”. A escritora afirma, ainda, que, nesta década, o mundo teria  mergulhado no neoliberalismo e a sociedade francesa se convertido ao valor dominante do dinheiro.”