segunda-feira, 25 de abril de 2016

O hegeliano Karl Marx

Uma parcela ponderável dos estudiosos da obra de Marx insiste em identificar dois “Marxs” : o hegeliano da juventude e o da maturidade, que teria “abandonado” a filosofia de seu inspirador. Seguem dois trechos do primeiro fascículo de “Para a Crítica da Economia Política”, de 1859, com o filósofo de Trier no auge de seus 41 anos. A conclusão fica por conta dos leitores.....
“O que distinguia o modo de pensar de Hegel de todos os outros filósofos era o enorme sentido histórico que lhe estava subjacente. Por abstrata e idealista que fosse a forma, o desenvolvimento do seu pensamento não deixava de ir sempre em paralelo com o desenvolvimento da história universal, e esta última, propriamente, não deverá ser senão a prova do primeiro.”
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“Foi ele o primeiro a procurar mostrar um desenvolvimento, um encadeamento interno, na história e, por estranha que agora muita coisa na sua filosofia da história nos possa parecer, a grandiosidade da própria visão fundamental é ainda hoje digna de admiração, quando se lhe comparam os seus predecessores ou mesmo aqueles que depois dele se permitiram reflexões universais sobre a história. Na Fenomenologia, na Estética, na História da Filosofia, por toda a parte perpassa esta grandiosa concepção da história e, por toda a parte, a matéria é tratada historicamente, numa conexão determinada, ainda que também abstratamente distorcida, com a história.”

O 18 Brumário by Engels

Passados 33 anos da primeira edição do “18 Brumário de Louis Bonaparte”, Engels prefacia a terceira edição alemã, em 1885. No texto, compara a “lei” da luta de classes à lei da transformação de energia – uma atitude “iluminista” que colocava a ciência como dominante na hierarquia das atividades humanas. Uma postura presente em toda o obra de Marx – vide o “socialismo científico” em oposição ao “socialismo utópico”, de  Proudhon. Esta obsessão “cientifista” está longe de ser uma exclusividade de Marx – que ficou fascinado com a “Origem das Espécies”, de Darwin – e está presente em todo o pensamento de vanguarda do século 19, inclusive no Positivismo de Comte e mesmo no Espiritismo de Kardec.
A seguir, o trecho selecionado.

 “A França é o país em que as lutas históricas de classes sempre foram levadas mais do que em nenhum outro lugar ao seu termo decisivo e onde, portanto, as formas políticas mutáveis dentro das quais se movem estas lutas de classes e nas quais se assumem os seus resultados, adquirem os contornos mais ousados. Centro do feudalismo na Idade Média e país modelo da monarquia unitária de estados desde o Renascimento a França demoliu o feudalismo na grande revolução e fundou a dominação pura da burguesia sob uma forma clássica como nenhum outro país da Europa. Também a luta do proletariado cada vez mais vigoroso contra a burguesia dominante reveste aqui uma forma aguda, desconhecida noutras partes. Esta foi a razão por que Marx não só estudava com especial predileção a história passada francesa, mas também seguia em todos os seus pormenores a história em curso, reunindo os materiais para os empregar posteriormente, e portanto nunca se via surpreendido pelos acontecimentos.
Mas a isto veio acrescentar-se outra circunstância. Foi precisamente Marx quem primeiro descobriu a grande lei do movimento da história, a lei segundo a qual todas as lutas históricas, quer se desenvolvam no terreno político, no religioso, no filosófico ou noutro terreno ideológico qualquer, não são, na realidade, mais do que a expressão mais ou menos clara de lutas de classes sociais, e que a existência destas classes, e portanto também as colisões entre elas, são condicionadas, por sua vez, pelo grau de desenvolvimento da sua situação econômica, pelo caráter e pelo modo da sua produção e da sua troca, condicionada por estes. Foi também esta lei, que tem para a história o mesmo significado que a lei da transformação da energia para a Ciência da Natureza, que lhe deu aqui a chave para a compreensão da história da Segunda República francesa. Esta história serviu-lhe para pôr à prova a sua lei, e mesmo trinta e três anos depois, temos ainda que dizer que esta prova foi brilhantemente passada. “


sexta-feira, 15 de abril de 2016

O MARX DE FHC

"O Marx de que eu gosto - claro que gosto do Capital - é o do Dezoito Brumário" FHC em seu último livro "A soma e o resto"

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CAPITALISMO VERSUS DEMOCRACIA

Em seu último livro – “Capitalismo em Confronto” – o guru do marketing Philip Kotler faz uma afirmativa sobre a desigualdade crescente, que merece uma reflexão de todos os seus admiradores.
“Os ricos acham que sua remuneração descreve seu valor e se apoiam na riqueza e na influência política para derrotar medidas democráticas destinadas a restringi-los ou tributá-los de modo suficiente. Por conseguinte, a democracia está correndo o risco de ser destruída pelo capitalismo.”

Kotler está alinhadíssimo com Piketty ( “ O Capital no Século XXI”) : “ O livro de Piketty está deixando os mais abastados preocupados, porque não conseguem derrubar suas premissas.”

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O hegeliano Karl Marx

Uma parcela ponderável dos estudiosos da obra de Marx insiste em identificar dois “Marxs” : o hegeliano da juventude e o da maturidade, que teria “abandonado” a filosofia de seu inspirador. Seguem dois trechos do primeiro fascículo de “Para a Crítica da Economia Política”, de 1859, com o filósofo de Trier no auge de seus 41 anos. A conclusão fica por conta dos leitores.....
“O que distinguia o modo de pensar de Hegel de todos os outros filósofos era o enorme sentido histórico que lhe estava subjacente. Por abstrata e idealista que fosse a forma, o desenvolvimento do seu pensamento não deixava de ir sempre em paralelo com o desenvolvimento da história universal, e esta última, propriamente, não deverá ser senão a prova do primeiro.”
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“Foi ele o primeiro a procurar mostrar um desenvolvimento, um encadeamento interno, na história e, por estranha que agora muita coisa na sua filosofia da história nos possa parecer, a grandiosidade da própria visão fundamental é ainda hoje digna de admiração, quando se lhe comparam os seus predecessores ou mesmo aqueles que depois dele se permitiram reflexões universais sobre a história. Na Fenomenologia, na Estética, na História da Filosofia, por toda a parte perpassa esta grandiosa concepção da história e, por toda a parte, a matéria é tratada historicamente, numa conexão determinada, ainda que também abstratamente distorcida, com a história.”


domingo, 29 de novembro de 2015

A Rússia comunista, em 1882

Engels, em prefácio à edição alemã de 1890 do Manifesto Comunista de 1848, faz uma surpreendente antevisão de outubro de 1917, quando os bolcheviques tomam o poder.
“A tarefa do Manifesto Comunista era a proclamação do declínio inevitavelmente iminente da propriedade burguesa hodierna. Na Rússia, porém, nós encontramos — a par da ordem capitalista que se desenvolve com [uma] pressa febril e da propriedade fundiária burguesa que só agora se começa a formar — mais de metade do solo na propriedade comum dos camponeses.
Pergunta-se, então: pode a comuna de camponeses russa — essa forma, sem dúvida, já muito desagregada da originária propriedade comum do solo — transitar imediatamente para uma forma comunista superior da propriedade fundiária, ou tem ela, antes, que passar pelo mesmo processo de dissolução que no desenvolvimento histórico do Ocidente se exibe?

A única resposta hoje possível para esta pergunta é a seguinte. Se a revolução russa se tornar o sinal para uma revolução operária no Ocidente, de tal modo que ambas se completem, então, a propriedade comum russa hodierna pode servir de ponto de partida para um desenvolvimento comunista.”  Londres, 21 de janeiro de 1882