sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O esoterismo de Marx.

O Congresso Re-Thinking Marx, realizado em Berlim de 20 a 22 de maio de 2011, mereceu uma extensa análise de Elmar Fiatschart. Selecionei um pequeno trecho em que ele comenta  participação de Wendy Brown e suas referências ao Marx “esotérico” e à conceitualidade religiosa na descrição do fetichismo da mercadoria.


“Uma surpresa foi a apresentação de Wendy Brown. Ela convenceu com uma referência profunda ao Marx “esotérico” e procurou fazer paralelos entre a crítica da religião como projeção das relações sociais e a dimensão projetiva do fetichismo da mercadoria. Ao contrário de muitos outros oradores, ela estabeleceu marcadamente a diferença entre a crítica do fetiche e o meramente ideológico – enquanto as ideologias são ideias falsas, as relações fetichistas baseiam-se numa lógica própria, bem fundamentada nas condições naturais, que produz projeções semelhantes às religiosas e impõe a distinção entre as dimensões analítica e crítica, física e teológica. Brown antepõe assim desde o início a um entendimento positivista da “tangibilidade” da mercadoria a dimensão reificada das relações sociais que levam à mercadoria. Para ela, portanto, a conceitualidade religiosa na descrição do fetichismo de Marx não é uma mera metáfora, mas representa uma necessidade heurística para poder compreender as relações sociais.”

Hegel sempre

Uma parcela ponderável dos estudiosos da obra de Marx insiste em identificar dois “Marxs” : o hegeliano da juventude e o da maturidade, que teria “abandonado” a filosofia de seu inspirador. Seguem dois trechos do primeiro fascículo de “Para a Crítica da Economia Política”, de 1859, com o filósofo de Trier no auge de seus 41 anos. A conclusão fica por conta dos leitores.....
“O que distinguia o modo de pensar de Hegel de todos os outros filósofos era o enorme sentido histórico que lhe estava subjacente. Por abstrata e idealista que fosse a forma, o desenvolvimento do seu pensamento não deixava de ir sempre em paralelo com o desenvolvimento da história universal, e esta última, propriamente, não deverá ser senão a prova do primeiro.”
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“Foi ele o primeiro a procurar mostrar um desenvolvimento, um encadeamento interno, na história e, por estranha que agora muita coisa na sua filosofia da história nos possa parecer, a grandiosidade da própria visão fundamental é ainda hoje digna de admiração, quando se lhe comparam os seus predecessores ou mesmo aqueles que depois dele se permitiram reflexões universais sobre a história. Na Fenomenologia, na Estética, na História da Filosofia, por toda a parte perpassa esta grandiosa concepção da história e, por toda a parte, a matéria é tratada historicamente, numa conexão determinada, ainda que também abstratamente distorcida, com a história.”


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O amor sexual em Marx

Marshall Berman abre um bom espaço em seu “Aventuras no marxismo” – tradução Sonia Moreira, Companhia das Letras – para o sexo na vida de Marx. Discorre, inclusive, sobre estimulante ambiente sexual do Quartier Latin quando o casal Marx/Jenny para lá se transfere, no início do casamento.
Selecionei um trecho onde Marshall fala do filho de Marx com a criada recebida como “presente de casamento” e a adoção por Engels.

“ Uma das principais forças propulsoras da síntese de Marx parece ter sido o amor sexual. Certos biógrafos já observaram, bem como até mesmo alguns policiais, que o casamento de Karl e Jenny, ainda que envolto em muita turbulência e sofrimento, foi um casamento apaixonado e feliz que durou quarenta anos e só terminou com a morte.
De fato, Marx foi um dos raros grandes pensadores de toda  a história que tiveram um casamento e uma vida familiar felizes. Alguns biógrafos se esforçaram bastante para aumentar as dimensões de todas as rachaduras que puderam encontrar na vida dele: em especial, o caso passageiro de Marx com sua governanta na década de 1850 e seu filho ilegítimo, “Freddy”, adotado por Engels, que viria tornar-se ativista do sindicato britânico dos trabalhadores. Mas mesmo esses biógrafos costumam admitir que não dispõem de muito material com que trabalhar neste sentido.
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Seigel mostra como o amor sexual desempenhou um papel vital na formação da identidade de Marx, ajudando a livrá-lo do isolamento psíquico e centrá-lo no mundo real. Marx pensou e escreveu muito sobre o amor sexual em meados da década de 1840,pouco depois de seu casamento, quando tentava perseguir o ideal de levar uma vida em meio às outras pessoas, como queria seu pai.”
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Podemos perceber um leve vulto num outro comentário sobre o amor, feito na mesma época: o amor, diz Marx, é “a primeira coisa que ensina o homem a acreditar no mundo objetivo fora dele mesmo”.

sábado, 18 de junho de 2016

O Estado e o mercado.

Mais uma vez, um artigo de Delfim Netto demonstra a tese do jornalista Milton Coelho da Graça de que trata-se de um “marxista infiltrado”. Seguem alguns trechos do texto publicado no Valor Econômico de 17/06/16, com o título desta postagem.
“A suprema grandeza de Marx é ter sido sempre Marx. Sua inteligência nunca o autorizou a ser o "marxista" que vive na mente de seus asseclas... O pensamento de Marx resume o desejo universal de recusar a servidão e, consequentemente, é contra o Estado enquanto instrumento de dominação política e econômica.“
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“A crítica de Marx ao "capitalismo" do século XIX é uma peça devastadora sob o ponto de vista moral e técnico. De fato, um sistema que tem em si a tendência a flutuar e de tempos em tempos, produzir milhões de desempregados - a mais cruel demonstração de desconsideração com o ser humano - revela uma irracionalidade estrutural insuperável.”
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“Gastou sua inteligência criticando o "capitalismo" e não lhe sobrou o tempo necessário para ensinar como construir a passagem para o "socialismo" e, afinal, o "comunismo".”
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“Não há contradição entre Estado e Mercado: ou os dois se entendem e ampliam a sua coordenação ou, simplesmente, o futuro recolherá ou arbitrariedade do primeiro, ou a disfuncionalidade do segundo...
Afinal, depois de sofrer Smith, Marx, Keynes, Polanyi e Braudel, é quase impossível que alguém ainda acredite que a auto-regulação dos mercados é uma manifestação das leis da natureza ou que existam leis históricas, criadas no começo do mundo para facilitar a vida dos futuros cultores das ciências sociais...”




quinta-feira, 16 de junho de 2016

O Capital. O livro de mais de CR$ 1.000.000,00

Um exemplar da primeira edição -1867 – de O Capital foi arrematado em leilão da londrina Casa Bonhams por 218,5 mil libras. O livro tem dedicatória de Marx para o alfaiate amigo Johann Eccarius.
O valor surpreendente remete para o primeiro capítulo da obra, dedicado à mercadoria e mais especificamente para a Seção 4 – “O Fetichismo da Mercadoria e o seu Segredo”.
O texto de abertura da Seção 4 ajuda a entender o resultado do leilão:
A primeira vista, uma mercadoria parece uma coisa trivial e que se compreende por si mesma. Pela nossa análise mostramos que, pelo contrário, é uma coisa muito complexa, cheia de sutilezas metafísicas e de argúcias teológicas.”
E um trecho subsequente enfatiza o caráter misterioso da mercadoria:

 “O caráter misterioso da forma-mercadoria consiste, portanto, simplesmente em que ela apresenta aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como se fossem características objetivas dos próprios produtos do trabalho, como se fossem propriedades sociais inerentes a essas coisas; e, portanto, reflete também a relação social dos produtores com o trabalho global como se fosse uma relação social de coisas existentes para além deles.”