quarta-feira, 23 de maio de 2018

A Burguesia e a Contra-Revolução.

Em dezembro de 1848, Marx publica no Nova Gazeta Renana, uma brilhante análise do comportamento revolucionário da burguesia nas revoluções de 1648 e de 1789. Segue um trecho.
“Não se pode confundir a revolução prussiana de Março, nem com a revolução inglesa de 1648, nem com a francesa de 1789.
Em 1648, a burguesia estava ligada à nobreza moderna contra a realeza, contra a nobreza feudal e contra a Igreja dominante.
Em 1789, a burguesia estava ligada ao povo contra realeza, nobreza e Igreja dominante.
A revolução de 1789 tinha por modelo (pelo menos, na Europa) apenas a revolução de 1648, a revolução de 1648 apenas a insurreição dos Países Baixos contra a Espanha. Ambas as revoluções estavam avançadas um século, não apenas pelo tempo, mas também pelo conteúdo, relativamente aos seus modelos.
Em ambas as revoluções, a burguesia era a classe que realmente se encontrava à cabeça do movimento. O proletariado e as frações da população urbana não pertencentes à burguesia não tinham ainda quaisquer interesses separados da burguesia ou não constituíam ainda quaisquer classes, ou sectores de classes, autonomamente desenvolvidas. Portanto, ali onde se opuseram à burguesia, como, por exemplo, de 1793 até 1794, na França, apenas lutaram pela perseguição  dos interesses da burguesia, ainda que não à maneira da burguesia. Todo o terrorismo francês não foi mais do que uma maneira plebeia de se desfazer dos inimigos da burguesia, do absolutismo, do feudalismo e da tacanhez pequeno-burguesa.
As revoluções de 1648 e de 1789 de modo algum foram revoluções inglesas ou francesas, foram revoluções de estilo europeu. Não foram a vitória de uma classe determinada da sociedade sobre a velha ordem política; foram a proclamação da ordem política para a nova sociedade europeia.
Nelas, a burguesia venceu; mas a vitória da burguesia foi então a vitória de uma nova ordem social, a vitória da propriedade burguesa sobre a feudal, da nacionalidade sobre o provincianismo, da concorrência sobre a corporação, da divisão [da propriedade] sobre o morgadio, da dominação do proprietário da terra sobre o domínio do proprietário pela terra, das luzes sobre a superstição, da família sobre o nome de família, da indústria sobre a preguiça heróica, do direito burguês sobre os privilégios medievais.
A revolução de 1648 foi a vitória do século XVII sobre o século XVI, a revolução de 1789 a vitória do século XVIII sobre o século XVII. Estas revoluções exprimem mais ainda as necessidades do mundo de então do que das regiões do mundo em que se deram, a Inglaterra e a França.”


domingo, 20 de maio de 2018

Marx, o marxismo e a esquerda brasileira.

“Causa perplexidade a sua capacidade analítica, considerando que escreveu quando inexistiam dados factuais adequados. A leitura de Marx, se feita desapaixonadamente, é essencial para todos os que desejarem entender o mundo dos humanos. “ .....................................................................................


“Marx e o marxismo são encantadores como um movimento de ideias, mas deixaram de ser a arquitetura possível de uma nova sociedade. As esquerdas, em geral, não souberam manter aberto esse roteiro histórico. “  Trechos do artigo – título acima - do sociólogo Zander Navarro, no Estado de São Paulo, em 17/05/2018

sábado, 3 de março de 2018

Marx não era marxista.

“Je ne suis pas marxiste”. A frase de Marx em carta a seu genro Paul Lafargue (casado com Laura) é origem da polêmica, que persiste até hoje, entre os estudiosos da obra do parceiro de Engels. O que Karl afirmava, na carta de 1870, era que os marxistas franceses estavam deturpando suas ideias. Algo que dezenas de anos após iria se repetir com Althusser ao sugerir pular a leitura do primeiro capítulo do Livro 1 de O Capital por ser “muito hegeliano”,,,,
Imaginemos Marx viajando no tempo até a União Soviética do marxista Stalin.
Com certeza uma reação muito semelhante à de Jesus “viajando” até a Europa da Inquisição – “Je ne suis pas chrétien”.
Vale recordar um texto recente de Delfim Netto no jornal Valor Econômico:
“ É verdade absoluta que: Marx nunca foi marxista e tinha dúvidas sobre eles; Keynes nunca foi keynesiano e desconfiava de quem declarasse que o fosse; Samuelson, o criador da síntese neoclássica, teve freqüentes achaques de fraqueza heterodoxa; o sempre abusado Hayek foi muito melhor e mais sofisticado do que o supõem os “não hayekianos”.”







quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O essencial em Marx

Em fevereiro de 2012, Denis Collin publica  “Quatro Questões sobre Marx”. Segue, em tradução livre, a questão 3 – O que ficou de essencial de Marx ?
"Marx propõe uma teoria da emancipação baseada na compreensão dos mecanismos do modo de produção capitalista. E, o que é mais relevante, uma teoria da emancipação dos indivíduos e não um "coletivismo". Não é uma questão de comunismo agressivo, que visa apenas a equalização das carteiras, mas à liberdade dos indivíduos, uma liberdade que só pode começar além do trabalho ditado pela necessidade, uma liberdade que seja o pleno desenvolvimento das potencialidades de cada um, uma vida onde o homem seja o seu próprio objetivo.
Este objetivo pode ser ambicioso e até muito ambicioso. Mas essa teoria da emancipação pressupõe uma crítica radical das relações sociais impostas por uma sociedade em que as relações entre os humanos aparecem sob a forma de relações entre as coisas, como explicado na seção I do "Capital" (aquela que  Althusser aconselha a "pular") com a análise do fetichismo.
Ao ler "Capital" com esta perspectiva, ficará claro que esta não é uma "economia marxista", mas um ótimo livro de filosofia, porque são precisamente essas análises da seção I, tão frequentemente qualificadas como como "metafísicas", que comandam todo esta obra inacabada.”





domingo, 14 de janeiro de 2018

Os riscos da profecia na política...

Em 1886 – 3 anos após a morte de Marx -, Engels escreve o prefácio da primeira edição inglesa de O Capital e, no último parágrafo, reafirma a tese de Marx  que a Inglaterra reunia todas as condições para realizar, pacificamente, a revolução social.
“Certamente, em tal altura, terá de se ouvir a voz de um homem cuja teoria toda é o resultado do estudo, durante uma vida inteira, da história económica e da situação da Inglaterra, e a quem esse estudo levou à conclusão de que, pelo menos na Europa, a Inglaterra é o único país onde a inevitável revolução social pode ser efetuada inteiramente por meios pacíficos e legais. Certamente que ele nunca se esqueceu de acrescentar que dificilmente esperava que as classes dominantes Inglesas se submetessem a esta revolução pacífica e legal sem uma “pro-slavery rebellion”.
5 de Novembro de 1886
Frederick Engels